sábado, 24 de setembro de 2011

Que fim, que nada!


O som do telefone me fez largar o livro. Eu tentei, juro que tentei e não tenho motivo nenhum pra mentir aqui. Por isso eu digo que tentei não largar o livro, mas eu queria ver se você ia conseguir não largar se um telefone ficasse tocando durante uns quinze minutos sem parar nos seus ouvidos.

Eu ainda pensei em apenas tirar o telefone do gancho e continuar lendo, assim, bem rapidinho, mas então eu vi no identificador que era o Gus. Sendo o Gus, eu soube que em algum momento eu ia ter que largar o livro de qualquer forma, pois se eu tirasse o telefone do gancho ele ia me ligar no celular, e se eu desligasse o aparelho ele ia me chamar no MSN, e se eu não respondesse ele ia finalmente bater na minha porta. E se eu não atendesse você pode ter certeza que ele ia arrumar alguém pra arrombar.

Resolvi então encurtar o caso e atender logo. Peguei o aparelho, soltando um suspiro, e sentei no sofá com o livro no colo. Pensei rápido em uma estratégia pra me livrar do Gus. Não que eu quisesse me livrar dele de verdade, você entende. Gus era a pessoa que eu mais queria por perto, mas eu precisava me livrar dele naquele momento, para que eu pudesse continuar a ler meu livro, e isso era uma coisa importante na atual conjuntura.

Eu sabia que se eu falasse pra ele que eu estava me esforçando pra ler um livro que me abriria novos horizontes, indicado por Aninha, nossa amiga psicóloga, ele ia gargalhar e falar um monte de coisas engraçadas, e logo eu ia atirar o livro pela janela.

O melhor era demonstrar superioridade. Ele não tinha paciência quando eu dava uma de superior, então logo ele ia desistir de mim e me deixar ler meu livro em paz.


 - Alô!  – disse eu, com o ar mais casual do mundo.

- Lu, eu já estou sabendo... ai, meu amooorrr! Como você está?

Pra que você possa entender, o que ele já estava sabendo é que eu tinha levado um fora homérico do homem que eu achava que ia me pedir em casamento. Bom, na verdade ele chegou a pedir, assim meio de brincadeira, antes de me dar o tal fora. Evidentemente eu, uma criatura que, se caísse de quatro, certamente saíra pastando, não entendi que era brincadeira na hora. Talvez nem fosse mesmo brincadeira, mas sim uma gozação da minha cara. Eu achei que estava prestes a subir no altar com o homem mais maravilhoso do mundo, mas na verdade eu estava a ponto de levar um pé na bunda do maior sacana da face da Terra.

- Eu estou bem. – Foi o que eu respondi.

- Bem???? Como bem???? É claro que você não está bem.

- Por que eu não estaria bem?

- Ah, essa é boa. Porque você está curtindo a maior fossa, talvez.

- Estou?

- Sim, está. Porque você levou um fora, preciso ser horrível e lembrar você disso?

Eu estava louca pra desabar em lágrimas e falar do quanto eu era desgraçada e do quanto o mundo era horrivelmente injusto comigo, e do quanto o Paulo – o meu ex – era um grande filho da p....

Era preciso manter a calma, no entanto. Afinal, eu tinha acabado de ler no livro que estes sentimentos de auto-piedade nada mais são que uma fuga da realidade. Uma fuga da maravilhosa realidade de que o amor não existe e ninguém pode ser feliz. Ou seja, eu não sou desgraçada, todos nós somos. Bom, acho que foi isso que eu conclui daquela ladainha toda de “o amor romântico é uma mentira inventada por conveniência social, etc, etc, etc”. A verdade é que estamos todos ferrados.

Ou talvez eu não tenha entendido direito. Mas pra saber, eu precisava me livrar do Gus e continuar lendo aquele porre de livro. Era um mal necessário para que eu pudesse atingir um estágio no qual eu não me iludiria esperando um príncipe encantado, segundo minha amiga psicóloga. Eu tentei explicar pra ela que era evidente que o príncipe encantado (ou algo muito parecido com ele) existe, pois onde há fumaça há fogo, e a Cinderela, Bela Adormecida, Rapunzel e companhia limitada provavam que o tal príncipe tinha existido um dia e gerado todas essas histórias.

Ela, porém, me explicou calmamente que eu estava acreditando numa coisa que não existe, e dando muito crédito aos contos de fada. Ela me perguntou se eu acreditava em vampiros, e eu aleguei que é óbvio que os vampiros são uma mistura de morcegos com príncipes encantados, pois eles são bonitos, sedutores e ricos. Ou seja, eles não existem em sua forma original, mas são baseadas em duas realidades. Nesse ponto ela me deu o livro e se negou a falar comigo antes que eu lesse, relesse, entendesse e refletisse sobre ele. Eu ainda estava no começo da primeira etapa dessa longa tarefa, bem no começo, mais exatamente na trigésima página. Só pra você saber, ao todo eram 167.

- Eu sei que levei o fora, mas se você quer saber, não estou chorando, nem me lamentando, nem arrancando os cabelos.

- Amiga, eu estou correndo prai. Por favor, não pule a janela!

Eu tive que rir disso.

- Eu também não estou pensando em me matar.

- Não?

- Não.

- Tem certeza?

- Absoluta.

- Bom, então você pode me dizer o que está fazendo?

Eu percebi que Gus estava começando a ficar impaciente comigo. Eu estava quase me livrando dele.

- Estou tentando abrir uma nova visão sobre isso tudo.

Houve um momento de silêncio. Depois Gus gritou:

- Você está o que?

Eu ri.

- Olha Gus, eu to tentando não ficar aqui me culpando, ou culpando o mundo, tá legal!

- Ah! Isso é ótimo, porque evidentemente você não tem culpa, nem o mundo. A culpa é toda daquele degenerado, desalmado, imbecil e ridículo do Paulo. Você está rasgando as fotos dele, tendo o cuidado de furar os olhos?

- Não.

- Então o que afinal você está fazendo?

- Eu já disse.

- Tá certo, Luciana, mas eu quero saber o que você está fazendo materialmente, com as mãos, pés, bunda, bem nesse minuto.

- Estou lendo um livro.

Eu evidentemente não devia ter dito isso. Gus ficou curioso com isso, e Gus curioso era uma coisa impossível.

- Lendo um livro? Nossa você está pior que eu pensei. Em todos esses anos eu nunca vi você ler um livro.

Fiquei um pouco zangada com isso.

- Você está me chamando de analfabeta ou ignorante?

- Não apenas estou observando que você nunca gostou de ler. Por acaso isso seria uma espécie de auto-tortura?

- Não. – respondi, mas isso ficou na minha cabeça. Ler aquele livro não estava sendo exatamente um prazer. Ah, por que Gus não ia catar coquinho!? – Eu não posso ter vontade de adquirir novos hábitos e aprender coisas novas? - respondi, mal-humorada.

- Claro que pode, meu amooorrr. Qual o nome desse famoso livro?

- É... – virei o livro procurando o nome. Eu realmente não tinha gravado. Nem o nome nem nada. – O fim do amor.

- O fim do amor???? Mas que porra é essa Luciana! Você andou falando com Aninha, não foi? - Eu fiquei quieta e você sabe: quem cala... Gus seguiu, aos berros. – Eu sabia que tinha um dedo daquela maluca nisso tudo. Ela te deu esse livro?

- Qual o problema? Aninha é minha amiga, você acha que ela ia me dar um livro que me fizesse mal?

- Ela também é minha amiga, mas ela me deu uns 50 livros que me fizeram mal. Lu, se você ler essa droga de livro, você vai ficar tão confusa que é capaz de ter um aneurisma ocasionado por nó nas ideias. Largue essa porcaria. Eu estou indo prai com gasolina e fóforos. Vamos queimar esse livro.

- Hei, você está me chamando de burra? Acho que eu não vou entender o livro?

- Não, meu amooorrr. Eu estou dizendo que esse livro é incompatível com você.

- E por que? - Eu estava meio p... da vida. Desconfiava que Gus estava me tirando pra burra.

- Porque você é a prova viva de que tudo que essa droga de livro diz é mentira!

- Como assim? - Eu estava mesmo começando a ter um nó nas ideias.

- Lu, você acha que sempre devemos fazer tudo que podemos pra ajudar os outros?

Onde será que Gus queria chegar? Bem, eu ia ter que descobrir. Pensei no que responder, mas eu nada me ocorria que não fosse só a verdade.

- Sim, eu acho.

- E acha que quando gostamos de alguém, devemos ser honestos sempre?

- É claro.

- E que devemos ser amigos e ouvir, e contar tudo pra essa pessoa?

- É óbvio.

- E acha que o sexo é uma conseqüência maravilhosa do amor, e que não existe nada no mundo como sexo com amor?

- Evidente.

- E acha que o amor requer mandar flores, dançar coladinho e ser leal?

- Bom, isso é tão claro como água pra mim.

- Então, você entende como esse livro vai estragar você?

- Não entendo.

- Mas está claro como água também! Você é tão maravilhosa porque você é do jeito que é. E esse livro vai te dizer que você não devia ser do jeito que você é. Vai te dizer que tudo isso é bobagem, e que o amor é uma desculpa pra se ter sexo.

Nesse ponto, eu larguei o livro, meio enojada.

- Esse livro vai dizer que os homens só mandam flores porque estão culpados por ter te traído e que você deve proibir seu namorado de te mandar flores.

Dei uma afastadinha no livro, não querendo que ele ficasse tão perto de mim.

- Vai te dizer que o amor é uma invenção de sei lá quem que tinha um interesse bizarro e que nós devemos na verdade ser bem egoístas e cuidar bem de nós, trepando por aí quando rolar uma atração por alguém.

Nessa hora dei um safanão no livro, que caiu ruidosamente no chão e ficou meio danificado. Houve um momento de silêncio.

- Por que Aninha me deu esse livro?

- Porque ela é sua amiga e acha de verdade que você vai ser mais feliz se você acreditar nessa ladainha. Mas ela não entendeu ainda que se você é assim, existem outras pessoas no mundo que também acreditam em tudo que você acredita. E que estão dispostas a acreditar no amor. E um dia você vai achar uma dessas pessoas. Eu prometo.

Eu ri. Ri mais. Depois disse:

- Amooorrr. Você não quer vir aqui agora? A gente podia comer pizza e chorar pelo fim do meu casamento que não aconteceu. Depois podemos dar a volta por cima e sair pra tentar encontrar uma dessas pessoas iguais a mim!

Gus deu uma gargalhada.

- É claro que vou. E vou levar flores.

- Obaaa!!! – Eu olhei pro livro estatelado no chão. Uma arma daquelas não podia ficar a solta. – Olha só. Traga também a gasolina, ok?

Desligamos e eu peguei o telefone de novo pra ligar pra pizzaria. Vi o livro mais uma vez. “O fim do amor.” Que fim, que nada! Todas as pessoas estão sempre buscando amor. Até aquelas que fingem que não acreditam nele. Somos todos caçadores incansáveis do amor. Peguei o livro e atirei no lixo. E comecei a pensar que roupa eu ia usar pra caçar o amor aquela noite.