domingo, 4 de novembro de 2012

O dia em que descobri que sou mal-educada


Eu descobri que sou mal-educada pela graça e favor de João Lucas, um homem sem rosto. Bom, na verdade é evidente que ele tem rosto, mas eu mesma não sei como ele é, porque nunca o vi pessoalmente.

João Lucas é um cara que me ligou um dia de um número que eu obviamente não conhecia e me disse as seguintes palavras:

- Oi Bianca. Eu espero que você não me ache muito ousado de estar te ligando, mas eu sou amigo do Tiago e te vi com ele na praia ontem. Eu achei você uma gata e queria muito que você aceitasse sair comigo.

Bem, você há de convir que esse tipo de coisa não acontece todo dia, pelo menos não comigo. E, no momento que aconteceu, eu estava complemente vulnerável a uma cantada desse tipo – ou talvez de qualquer tipo. Acontece que eu tinha acabado de sair de um namoro e, confesso tinha levado um chifre.

O pior é que nem foi um chifre desses que você fuça, fuça e descobre, finalmente, e depois o cara nega, nega e nega, até finalmente confessar. Essa parte de negação e confissão foi como manda o figurino, mas talvez o meu ex em questão tenha feito isso apenas pra manter a tradição, porque ele não tinha feito a menor questão de esconder que estava me traindo. E eu, tola, idiota, imbecil ao quadrado, apesar de todas as evidências, tinha docemente acreditado que se tratava apenas de uma amizade, até que a coisa caiu no meu colo.

Mas voltemos a João Lucas. Durante esse primeiro telefonema, eu fiquei apenas quieta, dando risinhos e murmurando “não sei”. É claro que eu não ia sair com um cara que vem com uma conversa maluca dessas. No mínimo eu tinha que checar se ele era mesmo amigo do Tiago, não tinha?

Então, eu enrolei, mas fiquei lisonjeada com a abordagem dele. Fiquei toda besta na verdade. Devemos ressaltar que a autoestima de uma mulher que acaba de ser traída na cara de todo mundo não é uma coisa que se diga: “ahhhh, que enorme!”. Então eu estava realmente precisando dum cara que me ligasse pra me dizer que eu era uma gata.

Logo que desliguei o telefone, liguei pro Tiago.

- Você deu meu telefone pra um tal de João Lucas? – perguntei e meu amigo riu do outro lado da linha.

- Eu dei. Fiz mal?

Eu fiquei na dúvida se brigava com ele ou agradecia.

- Bom, não faz diferença.  – Eu não estava em condições de perder tempo discutindo. – Quem é esse cara?

- É um cara que faz pós comigo. Eu não conheço muito bem na verdade...

Devo fazer uma pausa pra dizer que eu realmente odeio pessoas mal informadas. E normalmente os homens não sabem quase nada sobre seus amigos. O Tiago, por exemplo, só sabia que o tal João Lucas fazia pós na área de administração, que trabalhava numa empresa de telefonia e que era um “cara que não fala muito”. Grande ajuda. Ele não sabia nem mesmo o sobrenome do cara, pra que eu pudesse procurar o face dele, já que ele não estava no do Tiago.

No dia seguinte eu já tinha até me esquecido do episódio João Lucas quando ele ligou de novo. Dessa vez ele me colocou na parede. Me convidou pra jantar naquela noite. Eu dei uma desculpa qualquer, mas pedi o face dele. A realidade é que eu tinha algumas coisas a considerar:

1 – Seria um pouco arriscado sair sozinha com um cara que eu mal sabia quem era;
2 – Eu achava estranho o cara pedir meu telefone pro Tiago e ligar no outro dia, sendo que ele podia ter apenas vindo falar com ele na praia e aproveitado pra me conhecer;
3 – Eu estava desconfiada da espécie masculina em geral;
4 – Eu estava com um medo danado que o cara fosse um maluco;
5 – Eu estava com um medo danado que o cara fosse um feioso temível;

Por outro lado, porém, eu não estava em condições de desprezar a possibilidade de sair com um cara que estava afim de mim, porque isso não estava acontecendo muito nos últimos tempos. Isso por causa do “fenômeno do período invisível pós namoro”.

Eu explico: quando você termina um namoro, ocorre um fenômeno que faz com que você fique invisível por um tempo, para a espécie masculina. É algo sobre o que certamente deve haver algum estudo de cientistas de alguma universidade dos EUA, mas eu ainda não tive acesso a ele, então não sei por que acontece.

Para reduzir os efeitos externos do período de invisibilidade pós namoro, muitas mulheres – inclusive eu – utilizam uma técnica razoavelmente eficaz: fingimos que não estamos afim de ficar com ninguém. Estamos dando um tempo, explicamos para o mundo, um tempo pra ficar sozinha e arrumar o coração. 
Um tempo para nos dedicarmos apenas a nós mesmas. Um tempo para curtir ficar sozinha.

A verdade verdadeira, porém, é que ninguém chega na gente nas festas, nenhum cara parece te enxergar e todos os idiotas que viviam dando em cima quando estávamos namorando, desaparecem como que por magia. É o período de invisibilidade.

O segredo é ter paciência, porque um dia, como que por milagre, você fica visível novamente.

Como, apesar de estar no período de invisibilidade, João Lucas tinha conseguido me avistar, eu não estava em condições de simplesmente desprezar o fato sem avaliar a situação.

O face dele, porém, não me ajudou em quase nada, só a ficar com mais medo. Poucos amigos, poucos posts, pouca interação. Duas fotos, nas quais ele estava sozinho e em nenhuma delas dava pra ver ele direito.

Resolvi que não dava pra sair com aquele cara. Afinal, ele parecia ser meio estranho. Sei lá, ele podia ser uma pessoa perfeitamente normal, mas me parecia meio... vago.

Acontece que ele me ligou de novo. E de novo, e de novo e mais uma vez. E em todas elas eu recusei os convites dele, mas ele ficou conversando comigo mesmo assim. Me contou sobre a vida dele, o trabalho, eu falei de mim... No fim, tínhamos criado uma certa intimidade.

Foi no dia anterior ao meu aniversário que João Lucas me ligou novamente. Eu estava meio depre, já que ia ter que encarar o primeiro aniversário em três anos sem meu ex. Não estava afim de fazer festa, então só combinei um barzinho com os amigos mais chegados.

Quando eu estava lá, no meio da farra, João me ligou.

- Oi! – disse ele alegremente.

- Oi, João. Olha, eu estou num barzinho, está meio barulhento aqui.

- Tudo bem, eu só queria te fazer um convite.

- Que convite?

- Eu vi no face que amanhã é seu aniversário. Se você não tiver nada melhor pra fazer, eu gostaria de te levar na ilha dos Frades. Podemos pegar uma escuna às 9h, e vamos com os grupos de turistas que saem todos os dias pra lá. O que você acha?

Fiquei tocada. Isso porque é claro que ele tinha feito esse convite por saber que eu amava praia, e também eu tinha comentado com ele o quanto gostava de passear no mar. Era um convite delicado, numa data especial. Poxa, ele estava me convidando pra passar meu aniversário com ele! Além disso, indo num grupo, de escuna, estaríamos rodeados de pessoas, e seria bastante seguro pra mim.

Topei o programa. Combinamos então de João me pegar às 8h30. Meus amigos foram aos céus quando contei. Hummm, sair com um gatinho no dia do aniversário! Hummmm, passeio de escuna! Hummmm, Ilha dos Frades! Foi um alvoroço.

Eu não estava com grandes expectativas em relação a João Lucas. Não por uma questão estética, porque eu nem sabia se ele era feio ou bonito, mas porque, pelas nossas conversas no telefone, eu sempre me sentia falando com um amigo. Não era alguém que tivesse papos interessantes e despertasse vontades de falar por horas.

No entanto, meu ex era esse tipo de cara e olha no que dera. Por isso, esperei bonitinha e arrumadinha chegar 8h30 no dia seguinte. E chegou. E passou. Deu 9h. Deu 9h30. A todas essas, nada de João Lucas. Eu teria ligado pra ele, mas achei que era um desaforo.

Ah, poxa! Ele tinha insistido por mais de um mês pra sair comigo e depois me dava um cano no dia do meu aniversário! Era o cúmulo. Pensei com certa culpa na possibilidade dele ter sofrido um acidente (mulheres sempre tentando achar desculpas para os homens), mas decidi que, se fosse isso, eu ia ter que lidar com a culpa, já que possivelmente ele só tinha me dado um bolo mesmo.

Sai com meus amigos e tive que contar a humilhante verdade que tinha levado um bolo. Mas eu não ia ficar sozinha, escondida no dia do meu aniversário só porque tinha levado um bolo. Afinal, se havia alguém que não tinha culpa disso era eu. Assim, passei bons momentos na praia com os amigos e risquei João do caderninho.

É claro que teve aquele momento: “caraca, eu devo ser mesmo uó!” e “por que sou tão azarada no amor?”, mas ele veio, deu, passou e tudo bem. Faz parte da vida.

Acontece que, no dia seguinte, no fim de tarde, quando eu já tinha até esquecido que existia um João Lucas, chegou um torpedo dele, com a seguinte mensagem:

“Desculpa por ontem, mas tive uma dor de garganta horrível. Que tal sairmos amanhã?”

Eu refleti seriamente sobre a possibilidade de responder algo tipo: “conheço um ótimo remédio pra dor de garganta. É só enfiar um pepino no r... que passa na hora” ou o simples e sempre funcional “vá se foder!”. No entanto, achei que João Lucas não valia os 0,25 centavos de crédito que eu ia gastar pra fazer isso, então apenas não respondi.

Eu tinha até esquecido que tinha adicionado ele no msm, porque nunca tínhamos nos falado por esse meio, mas eu tinha. E no dia seguinte, João Lucas me chamou e ficou me alugando horas. Ele estava bastante alarmado pelo fato de eu não entender que ele tinha ficado com dor de garganta fulminante, mas eu me dei o trabalho de explicar que pouco me importava se a garganta dele estava verde ou amarela, mas o fato de ele marcar comigo e não me avisar que não ia era algo que eu realmente não ia poder superar.

Eu já sabia que João era insistente pelo tempão que ele ficou me ligando pra sair, mesmo após eu recusar várias vezes, mas naquele dia descobri que ele era realmente maluco. Isso porque ele achava de verdade que ia me convencer que não tinha acontecido nada demais. A conversa no msn seguiu:

“Eu não te liguei porque estava sem voz de tanta dor de garganta.” (tentou ele)

“E quanto ao seu dedo?” (perguntei inocente)

“Dedo?”

“Sim, por que a dor de garganta te impediria de mandar um sms?”

“Achei que seria muito indelicado desmarcar por sms.” (apelou o educado João Lucas)

“Ah claro, agora entendi. As pessoas educadas simplesmente não aparecem, sem avisar.”

João Lucas continuou enchendo o saco, mas eu estava cheia de trabalho e já tinha gastado tempo demais com ele, por isso sai deletei ele do msn. Em seguida sai pra uma reunião.
Eu estava lá no meio da minha reunião, com clientes, diretores, enfim, rodeada das pessoas que pagam meu salário, quando meu telefone tocou. É claro que eu não ia atender e procurei atrapalhada o telefone, mas meu chefe disse, numa voz que queria dizer o contrário:

- Pode atender.

Na verdade eu tinha que ter deligado o celular antes de entrar na reunião, era isso que meu chefe queria dizer. “Pode atender” tinha como tradução “Já que não desligou, atenda”. E eu atendi, sem nem sequer ver o número. E era João Lucas.

- Olha, sei que você está chateada, mas por que não saímos e conversamos sobre isso?

Sem comentários sobre o tamanho da cara de pau dele, porque eu realmente não podia falar. Então, em vez de mandar ele à merda, como eu queria, tive que dizer um rápido:

- Não posso falar agora, estou numa reunião.

E desliguei o telefone.

Depois da minha reunião, liguei novamente o aparelho e tinha nada menos que sete chamadas de João Lucas. Eu estava tão arrependida de um dia ter dado bola pra ele! Devia ter seguido o óbvio e percebido que um cara que enxerga uma mulher no período de invisibilidade não podia ser normal.

Coloquei o telefone no silencioso e deixei ele ligar. Na hora de dormir, naquela noite, fiquei um tanto quanto depre. Poxa, eu já estava preparada pro período de invisibilidade, quando acreditei que não ia passar por ele, e que podia até curtir uma história legal. Aí levei um bolo fenomenal no dia do aniversário e ainda assim não me queixei. Mas encarar um maluco? Essa eu realmente estava convencida que não merecia.

No dia seguinte João Lucas parou de me ligar, e eu fiquei feliz da vida, já que minhas preces tinham sido ouvidas. Quando eu cheguei no trabalho, porém, o inacreditável aconteceu. João Lucas tinha me enviado um e-mail. Que dizia exatamente o seguinte:

“Olha, você não devia agir assim com as pessoas. Eu expliquei que estive doente, mas você não quer entender. Tudo bem que errei por não ter avisado que não ia dar pra ir, mas eu sempre fui educado com você. Agora sinceramente, me deletar do msn, desligar o telefone na minha cara, e não atender as ligações, isso é o fim! É realmente muito triste ver uma mulher tão bonita ser tão mal educada! Uma pena, mas não estou acostumado com mulheres assim. Fui muito bem educado pela minha família e não tenho esses hábitos. Logo, não vou mais te ligar. Nossa história acaba aqui.”

Com o queixo caído no chão, eu pensei que pelo menos minhas preces tinham sido ouvidas mesmo. Ele tinha largado do meu pé. Pra garantir, porém, resolvi fazer uma coisinha. Cliquei no botão responder e escrevi:

“João Lucas,

Estou realmente arrasada por você estar terminando nossa história. Eu nem tenho palavras pra expressar minha dor, mas, tem uma coisa que eu preciso te dizer antes do fim:

VÁ SE FODER, SEU MALUCO DE MERDA!!!

É isso,

Att, Bianca.”

Eu me senti bastante aliviada depois disso. Na verdade eu ri. E ri de novo. Minutos depois, veio a resposta de João.

“É lamentável. Detesto mulheres que falam palavrão. Ainda bem que terminamos, pois nunca ia dar certo. Boa sorte pra você.”

Diante disso eu fiz um som tipo assim uma bufada. E não me aguentei e comecei a gargalhar. Quando o pessoal do escritório começou a me olhar com curiosidade, eu tive que chama-los pra mostrar os e-mails, foi impossível aguentar.

Eu fico imaginando o que João Lucas teria pensado de mim se ele soubesse que eu também sou o tipo de mulher que chama os amigos pra rir da cara de malucos. 


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

De portas fechadas



E quando as portas se fecham? O que podemos fazer?

O que fazer quando você anda na rua e não olha pro bonitão que passou, vai numa festa e lembra de todas as músicas incríveis que tocaram, mas não vê ninguém que estava lá, quando você nem repara no olhar tentador do bonitão do trabalho?

O que fazer quando você nem lembra que existe sexo, como se essa palavra lhe lembrasse alguma coisa muita boa, mas que não, obrigada, você não está afim de fazer novamente nesse momento?

O que fazer quando você come sem culpa e fica feliz se estiver mais gordinha, pois assim não vai precisar se preocupar com possíveis interessados em começar um relacionamento, seja de que espécie for, com você?

Qual a receita para a cura quando você não tem mais vontade de se arrumar, e troca os saltos maravilhosos por sapatilhas que parecem saídas do armário da sua avó, apenas porque são confortáveis?

Qual a solução para um coração que se fecha?

Sacudir a poeira, dirão suas amigas, se arrumar bem bonita e badalar por aí, ficar com vários, curtir a vida.

Essa pode ser a fórmula mais adequada de se deixar pra trás um amor – ou uma sucessão de amores – problemáticos e infelizes, mas não compartilho da opinião de que uma desilusão amorosa deve imediatamente levar a uma reação quase maniática de busca por alguém pra colocar no lugar que ficou vazio.

Até porque, se as portas estão fechadas, como será possível acessar esse lugar?

E por que curtir a vida não pode ser curtir seu momento de vida, inclusive uma fase na qual você pensa em trabalho, em dançar sem se preocupar se vai beijar alguém, em usar sapatilhas apenas pra dar um descanso pros pés por uns tempos, até eles estarem bem pra voltar aos saltos?

Por que não engordar uns quilinhos comendo todo chocolate que você tem vontade de comer?

Por que não andar na rua e reparar na paisagem, nas crianças, por que não deixar pra depois o olhar tentador do colega bonitão?

A oportunidade pode passar, dirão alguns, o tempo vai passar e logo você estará mais velha, mais gorda, mais frustrada. Mas eu digo que não. Digo que temos milhares de oportunidades de tipos variados todos os dias, e que seria impossível aproveitar todas.

Digo que o tempo pode passar, mas não vai deixar você mais velha, nem mais gorda, nem mais frustrada, se você tirar um tempo pra amar um pouco a si própria, e não ficar apenas buscando o amor do outro.

E digo ainda que, quando a pessoa com a chave certa chegar, ele vai abrir as portas novamente, e você pode chorar e vir a fechar as portas no futuro, ou ser feliz pra sempre como a Cinderela, mas vai correr o risco, por que esse cara estava com a chave. Mas quem entrega a chave é você, ou seja, ela está na sua mão o tempo todo, e você pode sim trancar por um tempo as portas, pra fazer uma faxina geral.

E não vai perder nada por isso. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O homem da sua vida



Faltavam 30 minutos pra começar o filme. A culpa era da Renata, claro, a dona do carro que nos trouxera até ali, e que, gaúcha incorrigível, sempre gostava de chegar bem antes nos compromissos. Isso nos deu tempo de sentar e tomar um café, antes do filme começar.

- Você está com uma carinha tão triste pra quem tem um namorado novo em folha! – comentei com Renata. 

Ela estava começando um relacionamento com um cara que parecia ser muito bacana. Digo parecia porque meus 30 anos na cara tinham me ensinado que, em relação a pessoas, não existem verdades absolutas.

Minha amiga soltou um suspiro, enquanto depositava seu café sobre a mesa.

- Ando meio estranha mesmo...

Disse, com ar vago. Eu e Alex trocamos um olhar. Renata costumava ser ainda mais complicada que eu, sempre pensando demais, sentindo demais, querendo demais. Reparei que ela estava com uma cara péssima. O que será que estava acontecendo?

- Mas o que foi que houve? Wagner não é legal? Ele fez alguma coisa?

Ela me encarou com seus olhos grandes e claros.

- Ele é muito legal, e tudo o que faz é estar do meu lado, sempre atencioso, querido, amigo...

- Mas... ?

- Mas eu não estou sentindo aquela coisa.

Eu e Alex soltamos um “ohhh” alarmado. Não sentir aquela coisa queria dizer que aquele relacionamento estava condenado. Afinal, nós três vivíamos procurando sentir aquela coisa. Éramos o tipo de pessoas que não procuravam um cara com X, Y e Z características, procurávamos um cara que nos fizesse sentir aquela coisa. Simples assim.

O problema todo é que, quando você procura uma sensação, e não uma pessoa, você pode se enganar por uma infinidade de motivos. Pior ainda quando a sensação em questão é algo que você nem sequer sabe o que é. Aquela coisa tem, na verdade, grandes chances de ser apenas um sonho, no qual você encaixa uma pessoa por motivos aleatórios. Você olha pra um cara e acha ele incrivelmente atraente, então deduz que ele é gentil, protetor, inteligente, perspicaz, leal, sincero e misterioso ao mesmo tempo, bom de cama e tudo mais o que deseje num homem. Aí você entende que sentiu aquela coisa, e começa e fazer de tudo para que aquele homem caiba naquele sonho, mesmo que ele tenha uma forma completamente contrária. Normalmente essa é uma boa fórmula pra quem deseja uma dose cavalar de sofrimento.

Naquele dia, antes do filme, porém, eu ainda não tinha pensado sobre tudo isso. Achava que aquela coisa era tipo um mistério divino, uma intuição de outras vidas sobre o seu grande amor.

- Meu Deus, mas será que, se você der uma chance, não pode vir a sentir aquela coisa mais tarde? Digo, quem sabe não aconteceu imediatamente, mas ainda pode acontecer. – arrisquei. Estava muito afim de ver minha amiga feliz com alguém, e de ver ela sorrir de novo, já que isso não acontecia muito nos últimos tempos.

Alex, O Cético, porém, não foi muito legal com Wagner.

- Não adianta. – Sacudiu a cabeça com ar de professor. – Se você não sentir aquela coisa logo no começo, é melhor nem arriscar.

Achei que era triste condenar uma relação de uma forma tão radical, mas, de certa forma, eu concordava com Alex. Olhei pro pão de queijo de Renata intocado sobre a mesa. Minha amiga tinha um problema com comer pouco, ou simplesmente não comer, que me preocupava bastante, mais ainda quando ela estava triste.

- Olha, você nem tocou no seu pão de queijo. Você está comendo direito? – Sei que parecia uma mãe ao dizer um negócio desses, mas acontece que nós costumávamos cuidar uns dos outros dessa forma. Renata suspirou de novo.

- Acho que eu queria era me alimentar de amor. – Disse minha amiga em fase romântica. Eu suspirei também.

- Bom amiga, pelo menos você tem do que se queixar. Eu nem mesmo tenho o nome de alguém para colocar defeito nesse momento. – Minha situação era grave. Vazia de amor, vazia de paqueras, um ser sem perspectiva de relacionamentos. Renata apertou minha mão, solidária com meu problema de falta crônica de paixonites.

Alex veio em meu socorro, apresentando seu problema, que evidentemente tinha que ser pior que o meu. Afinal de contas, é assim que as coisas são. Você diz: “estou com tal problema”, e seu amigo fala: “pior eu, que estou com tal problema ao quadrado”.

- Pior ainda sou eu, que estou com um problema gravíssimo. – Encaramos Alex na expectativa. Eu não sabia que ele estava com algum problema afetivo. O que podia ser? Ele nos olhou, segurando o suspense por alguns segundos, depois largou: - Meu vale alimentação tem um valor menor do que o que eu gasto para comer.

Ficamos em silêncio, até que eu arrisquei:

- Bom, mas o que isso tem a ver com amor?

Alex olhou pra mim.

- Nada, mas o assunto não era também alimentação? E se eu morrer de fome, vou poder encontrar o grande amor da minha vida?

- Que falta de romantismo! – declarou Renata.

- Isso é porque ele é um homem, mesmo sendo gay, não deixa de ser um homem. Eles são assim mesmo. – declarei.

- É revoltante. – Renata balançou a cabeça.

- Ora, não estávamos falando de problemas, comida e amor? Não sei por que tanta revolta. Meu problema é grave. Vou ter que comer menos do que preciso pra viver!

Eu me levantei, pegando a bolsa.

- Olha, já está na hora do filme. Vamos logo ver esse negócio. – Peguei o pão de queijo de Renata, entregando-o para Alex. – Tome. Pelo menos você garante um lanche fora do vale alimentação hoje.

- Ótimo! – disse Alex.

- Qual é mesmo o nome do filme? – Perguntou Renata, enquanto caminhávamos em direção à sala.

- Você vai conhecer o homem da sua vida – Respondeu Alex, de boca cheia.

Paramos os três na mesma hora, nos olhamos e caímos na risada. Parecia até piada. “Três amigos se sentam e falam sobre homens numa mesa de café. Qual o nome do filme?” Algo desse tipo.

- Vamos logo ver se alguém afinal vai achar esse “homem da vida”. – chamei, ainda rindo. 

No fim das contas, rir é sempre melhor do que lamentar.




domingo, 14 de outubro de 2012

Um dia sem fim (final)


Fiquei parada na fila e minha paciência foi chegando ao limite zero quando a mulher que estava na minha frente lembrava a cada minuto de mais uma coisa que ela ia querer, fazendo com que a minha vez nunca, jamais chegasse. Me encostei no balcão, com os nervos em frangalhos, quando vi um vulto ao meu lado.

Voltei os olhos pra ele. Tratava-se de um homem de 30 e poucos anos, alto, moreno, de olhos cor de mel, cabelos castanhos, extremamente bem apessoado. Tá, sejamos honestos, o cara era um gostoso. Eu, porém, um caco humano, não tinha a menor condição de paquerar, por isso tentei passar despercebida.

Mas ele já tinha notado meu olhar e me olhou também. Vi seu olhar bater em mim, se fixar, transcorrer o percurso entre meu rosto e minhas pernas e... parar nos pés. Não, ele não era um desses caras que têm fetiche por pés. Acontece que eu, com meu vestido vermelho e o resto de dignidade que me restava, estava até bem bonitinha, ou pelo menos não me jogaria fora.

Só que meus pés eram duas bolas de lama. Ou seja, lá estava eu, de cabelão comprido solto, um resto de maquiagem ainda digno no rosto, alta, de vestido vermelho muito elegante e até sensual, e tomada de barro até as canelas. Vi os olhos do gatão ficarem por tempo demais nos meus pés, e vi suas sobrancelhas se alçarem levemente num gesto de estranheza, depois vi ele voltar seu olhar pro meu rosto. E não pude me conter:

- O que você queria? - falei. Ele pareceu confuso.

- Eu? - perguntou. Percebi que seus olhos tinham pestanas longas que os deixavam ainda mais bonitos.

- É, você mesmo. Garanto que você passou o dia no seu trabalho bacana que te paga bem, depois entrou no seu carrinho, e quando passou aqui na frente percebeu que não estava com vontade de comer nenhum dos tipos de pão que tem em casa, por isso resolveu descer e comprar algo diferente. Se você tivesse passado o dia ouvindo desaforo num trabalho que te paga mixaria, depois gastado o dinheiro da luz num táxi, esperado mais de uma hora por uma consulta de terapia que não te ajudou nada, encarado a chuva, se atolado na lama e sacudido num bus lotado pra ainda se dar conta que não tinha um grão de arroz em casa pra comer, você não ia gostar que os outros fizessem cara feia por fato de você estar enlameada e ridícula.

Bom, não me perguntem por que eu disse aquilo tudo, porque eu não sei, mas o fato é que me arrependi no mesmo minuto que fechei a boca, claro. Ele ficou me olhando, com ar entre divertido e chocado, e depois disse:

- Eu acho que não fiz cara feia pros seus sapatos, apenas fiquei curioso, e estou grato porque agora entendi como uma gata como você pode estar tão arrumada e linda e, ao mesmo tempo, cheia de lama. Obrigada por me contar seu dia.

- Por nada. – disse eu, dando o assunto por encerrado. Era a minha vez de pedir.

Sai da padaria e pensei em como devia ter parecido louca praquele cara. Só esperava nunca mais encontra-lo. Foi nesse minuto que percebi que tinha alguém atrás de mim. Diante de tudo que tinha passado naquele dia, me virei pronta pra dar um soco na cara de qualquer ladrão que viesse tentar evitar que eu finalmente chegasse em casa, mas dei com os olhos cor de mel do bonitão da padaria. Ai meu Deus! O que ele podia querer¿ Bom, não importava. Nada me impediria de chegar em casa. Me virei e continuei andando, mas ele emparelhou comigo.

- O que você quer? - perguntei, quase em pânico.

- Só queria falar com você.

- Eu estou ouvindo.

- Olha – disse ele, quase correndo pra acompanhar meus passos – sei que você teve um dia ruim, mas quem sabe ele não pode ficar melhor¿

Nesse ponto eu parei de andar e olhei pra ele. Era só o que me faltava agora, ele querer me passar uma cantada de quinta. Considerando o dia que eu tinha tido, nem pensei quando abri a boca e disse:

- Olha aqui, eu não vou dar pra você, tá legal? Inclusive estou naqueles dias, se você quer saber. Agora adeus, foi um prazer e tchau.

Ele caiu na gargalhada.

- Vai rir da minha cara agora? Podia ter rido logo na padaria e me poupado de falar tanto.

- Não! – Ele fez um gesto de desculpa. Tinha lábios bem desenhados e mãos grandes. – Não estou rindo da sua cara, mas você há de convir que fala umas coisas muito engraçadas. Parece a versão feminina do super sincero.

Eu dei um leve sorriso. Eu estava mesmo parecendo a versão feminina do super sincero.

- Ok, tá bom, eu sou mesmo hilária. Agora seja super sincero comigo e me diga o que quer, considerando que eu não retiro o que disse, ou seja, não vou dormir com você. – Pensei em acrescentar “pelo menos não hoje”, mas achei melhor parar com aquela coisa de super sincera.

Ele fez uma cara fofa e pensou por alguns instantes.

- Olha, eu apenas achei você uma gata e também muito autentica e interessante.

- Eu sou tudo isso, mas também sou problemática, pobre e meio doida.

- Ainda assim eu quero te conhecer... – disse ele em voz baixa.

- Você tem certeza? Pode se arrepender dessas palavras. – eu já estava entrando no clima. Afinal, é claro que um cara lindo como aquele não ia querer casar com uma doida cheia de lama, mas ele parecia uma diversão bem interessante.

- Eu estou plenamente certo disso, dona....

- Jéssica.

Ele sorriu. Tinha um sorriso encantador.

- Jéssica. Prazer, sou Arthur.

E foi assim. Não diga “ah, para, eu sei que não foi”. Não diga isso porque foi, e foi exatamente assim. Hoje ainda eu e Arthur rimos muito quando lembramos do dia que nos conhecemos. Foi o pior dia da minha vida, e também o melhor, e, se você quer saber como foi o fim, vai ficar querendo. Isso porque ele não teve fim. 

O fato é que eu e Arthur hoje moramos juntos, algumas coisas na minha vida mudaram, outras ainda não estão do jeito que eu quero, e outras eu nem quero mais.

O fato, é que não tem fim. As coisas não acabam – elas apenas se modificam. E as vezes elas voltam, tornam a ir embora, se renovam, mas o fim não existe. Isso quer dizer que eu e Artur vamos ficar juntos pra sempre, como nos contos de fada? Isso eu não sei. O que eu sei de verdade é que o fim não existe. O que existe mesmo é a mudança, e se resistirmos a ela, será nosso fim.



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Um dia sem fim (parte 1)


Era apenas o meio da tarde e o dia já estava sendo terrível. Um cliente tinha acabado de insinuar que eu era incompetente, meu telefone não parava de tocar com 5 mil demandas diferentes e eu ainda estava naqueles dias, o que significa dor nas pernas, nas costas, cólicas e humor negro.

Controlei meu instinto de sair esbravejando e dizendo que aquele não era o meu dia simplesmente porque isso me tiraria minutos preciosos que eu precisava para terminar tudo que tinha pra fazer, caso não quisesse ter que ficar até mais tarde e faltar à terapia outra vez.

O que eu estava longe de saber, porém, é que o meu dia horroroso estava apenas na metade, ou seja, tinha muito mais pra acontecer.

Terminei o trabalho e tive que pegar um táxi pra chegar a tempo na terapia, usando um dinheiro que evidentemente eu não tinha e pensando em como ia fazer pra pagar a conta de luz naquele mês.

O pior foi que, apesar de eu ter me exposto ao risco de passar a metade do mês aprendendo como é viver sem energia elétrica, isso de nada adiantou, porque eu peguei um trânsito infernal e me atrasei de qualquer forma. A parte mais trágica foi que o motorista era muito falante e estava de ótimo humor (uma pausa para uma análise: você já percebeu que, quando está fudida e mal paga e com o humor próximo de grau negativo sempre tem alguém extremamente bem humorado que faz questão de querer ser seu amigo¿).

Enquanto eu olhava pra frente, bufando e em desespero, tecendo mínimos comentários pra mim mesma no estilo “merda de trânsito”, o motorista me contou alegremente um terço de sua vida, discorreu sobre o cenário político na Bahia e ainda ficava me fazendo perguntas sobre a minha opinião.

Chegando na clínica, minha gentil terapeuta tinha passado outro paciente na minha frente, embora eu estivesse apenas 15 minutos atrasada e desconsiderando o fato de que até o final da sessão, o horário era meu. Mas são coisas que quem não tem grana pra fazer terapia e recorre aos profissionais do plano de saúde passa com frequência.

Pra tudo ficar ainda mais legal, o paciente falou mais do que devia e, além dos 30 minutos da sessão dele que estava acontecendo no meu horário e dos 15 que faziam parte da sessão dele, ele ainda me tomou mais 20 minutos, totalizando 1h05 de espera. Isso já seria ruim o bastante mesmo se eu não estivesse em um bairro perigoso, escuro e vazio, e não fosse ter que ficar num ponto sozinha por séculos até o ônibus aparecer.

A terapia poderia ter sido um alívio, pelo menos, um momento pra eu colocar tudo aquilo pra fora, chorar talvez, gritar, socar as paredes e sair mais leve. Acontece que naquele dia parecia que minha terapeuta super gente boa não estava muito afim de mim, além de eu ter ficado com a viva impressão de que ela estava sofrendo de algum problema grave de falta de concentração no que eu dizia.

A sessão foi mais ou menos assim:

- Eu estou me sentindo muito mal hoje. Não sei, estou me questionando sobre tudo... as vezes penso que nada mais me agrada, meu trabalho, meu dia a dia, meu apartamento, minha vida toda parece vazia. – Comecei eu. – Nem mesmo consegui me animar a pensar em ter um cachorro, como falamos na última sessão.

Ela deu uma coçadinha no nariz e falou:

- Jéssica, eu acho que pegar esse cachorro foi um grande passo. Pode parecer pequeno, mas é uma responsabilidade, uma ação. Você precisa se comprometer, deixar de ter medo de ter um compromisso. Não pode passar a vida toda sem ter elos.

Depois dos cinco minutos de boca aberta tentando entender o que ela estava falando, eu disse:

- Olha, mas eu já disse que ainda não peguei o cachorro....

Ela pareceu abismada.

- Não¿

- Não.

- Bom, isso não é importante. O que realmente importa é você ter esse compromisso, entende¿

Eu já estava pensando em como seria bom ter desmarcado aquela sessão.

- Mas que compromisso¿ - perguntei, em desespero.

- Qualquer um! Você ter um compromisso é o importante.

E por aí foi. Quando sai, estava me sentindo o lixo dos lixos. Eu realmente era uma fracassada. Estava num trabalho que me sugava a alma e não tinha dinheiro nem pra pegar um táxi. Tinha que me submeter a esperar mais de uma hora pra fazer terapia e ainda por cima nem conseguia fazer a terapeuta prestar atenção em mim. Fora o fato de que ainda ia ter que encarar um bus pra chegar em casa, caminhar um bocado, isso tudo pra chegar em um apartamento vazio e enfrentar minha solidão habitual.

Eu poderia ter chorado no trajeto de elevador do 10º andar ao térreo, se não estivesse me cagando de medo do fato de ser tão tarde e ter que ficar sozinha no ponto naquela escuridão.

Quando coloquei o pé pra fora do prédio, vi que a situação era muito pior do que eu imaginava, porque estava chovendo. Eu abençoadamente tinha uma sombrinha dentro da bolsa, mas os problemas persistiam mesmo assim.

Em primeiro lugar, a chuva fazia com que o lugar parecesse mais escuro e estivesse ainda mais vazio. Em segundo, eu usava um vestido vermelho e solto, chamativo e parecendo um convite para um estuprador ou bandido de qualquer natureza. Pra completar, o trajeto até o ponto era de chão batido e tinha virado lama, o que me fez ter que chapinhar até a parada de ônibus com meus scarpins enfiados naquela nojeira.

Óbvio que o bus levou um século pra chegar, evidente que estava cheio, e é claro que eu fiquei em pé. Àquela altura, porém, eu já estava tão na merda que fiquei ligeiramente grata a Deus por não ter aparecido nenhum bandido e não ter me acontecido nada pior. Eu ia pra casa, afinal. “Dane-se a solidão, eu quero meu apartamento. Danem-se os sapatos estragados, eu quero meu chinelo. Dane-se ficar em pé no bus, daqui a pouco terei minha cama.”

Minha sorte pareceu mudar com esse pensamento, porque naquele instante um cara se levantou, e eu pude finalmente me sentar. Meu coração foi se acalmando no balanço do busão (que poético) e logo eu estava no meu ponto.

Saltei, feliz, pensando em banho, comida e ca... Epa. Peraí. Eu tinha comido o último pão que havia em casa no café da manhã. Miojo, ovo, um copo de leite. Todas essas opções passaram pela minha cabeça, mas eu não tinha nada daquilo em casa. Ou seja, ia ter que voltar duas quadras, em vez de me direcionar a meu prédio, que eu já avistava da esquina, para passar na padaria. Droga, droga, mil vezes droga!

Fui tomada de uma sensação de que eu era uma criança quase agarrando o doce quando alguém me tirou ele das mãos. Mas não tinha jeito. Eu estava varada de fome e tinha que me alimentar. A opção jejuar não estava disponível.

Voltei quase correndo, querendo apenas entrar, comprar meu pão, pagar e correr pra casa. Atravessei a porta da padaria que nem um raio, mas tive que esperar pra pegar meu tão sonhado pãozinho. Tinha fila. Claro. Se não tivesse eu ia desconfiar que o pão poderia estar envenenado, a julgar por tudo que tinha acontecido naquele dia. (,,,)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O fim, pra mim


Num instante, tudo era alegria, paixão, beijos demorados e promessas mil, mas, de repente, tudo se transforma em silêncios constrangidos, em ausências não explicadas e em vazios. Um minuto antes parecia que era pra vida toda, a cumplicidade era total, os sorrisos eram tolos e sem motivo, e então, no outro dia, você acorda e se esforça pra entender porque tudo mudou.

Mas, eu sempre me pergunto, será que é realmente assim? Embora pareça que tudo foi inexplicável, quando você consegue parar para analisar, percebe que o fim de um relacionamento sempre dá seus sinais. As vezes são detalhes minúsculos, coisinhas que ficam sem explicação, lacunas que se instalam onde tudo antes era preenchido.

É a conversa que não é mais tão fácil e fluída, o toque que não é mais tão gentil, são os encontros que vão sendo espaçados, as desculpas que começam a surgir, cada vez mais frequentes.

Muitas vezes não compreendi porque é tão difícil pra tantas pessoas perceber esses sinais, que sempre são tão evidentes quando o relacionamento é o do vizinho, e não o nosso. Percebi então, que a resposta é simples – se o relacionamento é entre duas pessoas, o fim dele não é apenas um, mas dois. Existe o fim que vem primeiro, pra um deles, e o fim que vem depois, pro outro lado.

É por isso que as vezes olhamos pra uma pessoa e comentamos: “céus, será que ela nunca vai deixar de falar desse cara?”. A resposta é: sim, ela vai, quando chegar o fim. O fim pode chegar para um dos lados e levar anos pra acontecer do outro. Há mesmo quem fique a vida toda em um relacionamento que já acabou pra um dos dois. A merda é que, quando a gente não quer que o fim chegue, acha que pode evitá-lo fechando bem os olhos e fingindo que está tudo bem.

Mas nunca está. Isso porque você, inevitavelmente, vai cobrar do outro a atenção, o carinho, a dedicação e o amor que ele já não tem pra lhe oferecer. E aí é que a vida vira um inferno, e algo que era pra ser bom, saudável e alegre, se torna triste, angustiante e doentio.

As vezes você pode até concordar com o fim, se o outro expressa claramente a vontade de não estar mais com você, mas dentro do seu coração ainda não acabou. Você fica alimentando uma secreta esperança de que um dia ele vai voltar e se dar conta de que errou ao terminar. Você jura que nunca vai conseguir sentir por outro o que sentiu por ele.

A verdade, nesse caso, é que possivelmente não vai mesmo. Pelo que posso perceber, o que sentimos pelas diferentes pessoas com quem nos relacionamos ao longo da vida, os sentimentos, motivações e sensações são sempre diferentes. Uns mais fortes, outros mais leves, uns mais inquietos, outros mais serenos. Nada, porém, deixa de ser válido, desde que exista vontade mútua de estar junto.

Por isso, todo fim, quando chega, traz consigo um começo. O fim verdadeiro, aquele que sentimos no coração, o fim individual, de cada um, aquela hora que você olha pra trás e vê que não estava feliz com aquele relacionamento, que pode sim viver sem ele, que não vai morrer sem nunca mais beijar alguém, e para de se lamentar pelo que perdeu, pra pensar no que pode ganhar se continuar vivendo, esse fim é o momento que o coração se abre pra amar outra vez.

Não acho que exista uma receita pra fazer o fim chegar. Acho que todo mundo pensa que é fácil quando é com o outro. É por isso que hoje eu procuro evitar comentários do tipo: “mas que idiota, porque ela não termina com esse cara que só apronta?”. Seria ótimo se conseguíssemos fazer as malas sem esquecer nada e sair de um relacionamento de forma tranquila e organizada. Embora isso possa sim acontecer, a verdade, porém, é que muitas vezes as roupas vão sendo jogadas pelas janelas, coisas ficam pra trás, pegamos outras que não são nossas, e só saímos porque somos empurrados ou puxados porta afora, embora estejamos nos agarrando nas paredes.

Mas ainda assim, na maioria das vezes, sobrevivemos. E, depois de sobreviver por um tempo, voltamos a viver de verdade outra vez. E é aí que aquele gatinho te chama pra sair, você se vê diante do espelho trocando roupas como uma louca, e recomeça.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Qual o seu?


Ficando, namorando, pegando, enrolado, noivo, casado... Qual seu status? E importa tanto assim? Acho sinceramente que, para que essa informação valesse de verdade, ela teria que ser mais completa. Informações sobre o comportamento da pessoa e as intenções em relação ao seu status poderiam ajudar muito a fugirmos de roubadas ou encontrar exatamente o que procuramos, caso elas fossem detalhadas. 
Quem sabe assim:

Solteiro (problemático)
Solteiro (querendo continuar assim)
Solteiro (desesperado pra ficar com qualquer uma e que vai pegar no seu pé de forma absurda)
Solteiro (disposto a se comprometer)
Enrolado (galinha disfarçado)
Enrolado (que não está enrolado, mas quer disfarçar sua aversão a compromisso)
Enrolado (que está sendo enrolado por uma solteira querendo continuar assim)
Namorando (traindo)
Namorando (querendo terminar e procurando um motivo)
Namorando (várias ao mesmo tempo)
Namorando (e gostando)
Casado (traindo)
Casado (querendo trair)
Casado (convicto)
Divorciado (traumatizado)
Divorciado (afim de casar de novo)
Divorciado (querendo continuar assim)
Divorciado (casado que pensa em se divorciar um dia, mas ainda não o fez)
Noivo (enrolando pra não casar)
Noivo (realmente pretendendo casar)
Noivo (traindo e que vai permanecer traindo depois de casar)
Sem status (solteiro que não quer escancarar)
Sem status (casado traindo)
Sem status (namorando traindo)
Sem status (noivo traindo)
Sem status (divorciado traumatizado)
Sem status (enrolado)
Sem status (namorando várias)
Sem status (ainda penso na minha ex)
Sem status (to nem aí!)


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Loucura pouca é bobagem

Sábado, 22h, Gabriela está em casa ouvindo uma música de meditação (pra ver se a ajuda a dentro de instantes ter um sono fatal e se conformar melhor com a ideia de que não vai sair) e dando uma olhada no face (pra ver que outros infelizes como ela estão sem programação num sábado), quando seu telefone toca. 

O coração quase salta pela boca, e ela se permite um instante de deliciosa expectativa. Será Pablo, o paquera número 1, arrependido de ter brigado com ela por um motivo besta, só pra poder ir no show do Aviões do Forró (eca!) sozinho com os amigos¿ Será Vitor, o paquera número 2, que depois de 2 anos só aparecendo em dias de semana resolve dar as caras num sábado¿ Será Angelo, uma possível novo paquera¿ Ou será algum paquera do passado, ressurgido em pleno sábado¿

Gabriela não conseguia decidir o que deseja mais, mas resolve atender logo o telefone quando se deu conta que podia ser sua mãe, ou alguma ligação de telemarketing, já que eles estavam cada vez mais ousados, ligando até mesmo nos sábados. Com alguma esperança de salvar sua noite, ela pega o aparelho e constata que o X será marcado em “nenhuma das alternativas anteriores”, pois era Sabrina. Possivelmente, porém, isso poderia salvar seu sábado, já que, apesar de estar namorando, a amiga podia ter se lembrado dela, e 

Gabriela estava num ponto tal que aceitaria de boa sair segurando vela. 
- Alo! 

- Oi Gabi! Você está podendo falar¿

Ela riu. Estava podendo fazer qualquer coisa, já que não tinha absolutamente nada para fazer.

- Sim, estou. Que houve¿

- Olha, eu não aguento mais! Isso é insuportável!  - uma pausa dramática se fez, ao término da qual Sabrina continuou. – Eu não tenho condições de aguentar uma coisa dessas. Por que¿ Me diga por que esse tipo de coisa acontece comigo¿

Gabriela não estava entendendo nada, mas ficou imaginando se Pedro, o novo namorado de Sabrina, teria aprontado alguma. Ele, porém, era tão apaixonado por ela e tão fofo, delicado e querido que Gabi não queria acreditar que pudesse ter aprontado. Seria tipo o fim das esperanças. 

- O que houve amiga¿  - repetiu a pergunta.

- É o Pedro! – disse Sabrina, e Gabi sentiu seu coração gelar. – Eu não suporto mais!

- O que ele fez¿ - perguntou Gabi, desanimada. A última coisa que queria era descobrir que Pedro era alguma espécie de galinha, disfarçado de bom moço, ou algo pior, mas não podia deixar de ouvir a amiga.

- Não, tu não vai acreditar! Olha, é demais, demais! Eu realmente penso que tipo de pecado eu estou pagando, por que não pode ser que eu mereça isso!

Nesse ponto, Gabi já estava se perguntando se Pedro seria um assassino em série ou um pedófilo.

- Sim, mas o que foi que ele fez, afinal¿ - perguntou, dando um tom levemente autoritário à voz, na tentativa de fazer a amiga parar com aquele ataque e falar logo.

- Olha, é tudo, tudo!  - começou Sabrina. – Tu pode acreditar que ele me liga todos os dias¿ TODOS! Sem falta, pelo menos uma vez por dia. As vezes até duas ou três!

Gabi ficou completamente perdida. Isso não era o que ela, Sabrina e todas as suas amigas desejavam constantemente¿ Não tinha sido a própria Sabrina que dissera um dia, aos choramingos, se referindo a Breno, seu último ficante: “ele podia pelo menos mandar uma mensagem de celular por dia. Isso é pedir muito¿”.

- Bom, mas qual é o problema nisso¿ - perguntou Gabi. 

- O problema é que é um SACO! – bradou Sabrina. – Ele não liga pra falar nada especial, liga só pra “saber como eu estou”. Ora, ele não me dá nem tempo de mudar de humor, pois liga toda hora. Eu respondo: “estou do mesmo jeito que estava quando você me ligou da última vez, pois não passou nem 24h.” E mesmo assim ele não se toca. Continua ligando e as vezes manda sms só pra dizer que está pensando em mim. Ele não deve pensar em mais nada na vida! 

Gabi não sabia o que dizer, mas Sabrina também não deu muita oportunidade, pois continuou tagalerando:

- E não é só isso. Ele me manda e-mails com mensagens fofas! Qual é o homem que faz um negócio desses¿

- Pois é – tentou Gabi – realmente não é qualquer homem que faz um negócio desses, mas sim um que gosta de você.

- Mas precisa gostar tanto¿ E o pior é que ele quer me ver toda hora! Mas toda hora mesmo! Eu não tenho mais um final de semana pra mim. Ele quer sair TODOS os finais de semana, sexta, sábado e domingo, e ainda durante a semana, pelo menos uma vez. Isso não é o cúmulo do sufocamento¿

- Amiga, você sempre reclamava que o Breno nunca te chamava pra sair nos finais de semana...

- Sim, tudo bem, eu quero sair no fim de semana, mas precisa ser em TODOS¿ E fora o fato de que ele não é capaz de sair com os amigos sozinho. Sempre quer que eu vá junto, e que eu conheça todo mundo, e me integre com todos. Quer ainda que eu conheça a família dele, olha que absurdo!

Gabriela respirou fundo. Aquilo era a coisa mais surreal que já ouvira na vida. E olha que em termos de coisas surreais ela era bem tarimbada.

- Sabrina você não gosta desse cara. Ele faz exatamente tudo que nós sempre dissemos desejar dos homens, a questão é que você não gosta dele.

Seguiu-se um silêncio, ao cabo do qual Sabrina disse, em tom irritado.

- Você não está entendendo nada do que eu disse¿ - perguntou, sem dar chance de Gabi responder.  – Eu poderia gostar dele, mas é claro que desse jeito não vou gostar. Ele está estragando tudo! Eu estava gostando dele, estava mesmo, mas ele está me sufocando de uma maneira tal que eu estou deixando de gostar. É o fim do mundo. Ele parece que não tem vida, que eu sou tudo que ele tem.

- Não é isso. Ele apenas quer que você entre na vida dele. 

- Sim, mas precisa ser assim correndo¿ E ele ainda quer conhecer minhas amigas, falou até em viajar comigo pra conhecer minha família! Veja que absurdo!

- Ele apenas quer fazer parte da sua vida...
Sabrina continuou, feito um trem descarrilhado:

- E ainda tem a questão do rótulo. Ele quer porque quer que eu chame ele de namorado. Ele não entende que podemos ter uma relação com cumplicidade, com fidelidade até, mas que não precisamos desse título de namorado. 

Gabriela estava com vontade de entrar pelo telefone e sacudir a amiga, ou desligar na cara dela. Respirou fundo, porém, e tentou ter paciência.

- E qual o problema de ter um título de namorado¿ O que muda a maneira como você chama o relacionamento¿ O que importa não é o que vocês sentem¿

- Mas é isso que eu tento explicar pra ele, mas ele quer que eu chame ele de namorado. Dia desses ele ficou todo chateado porque eu encontrei uma amiga na rua e o apresentei como um amigo. Ele não entende que não precisa desse rótulo!

- Não entendo. Não entendo porque você não quer dar o rótulo. As coisas são assim, elas têm nome. Se você tem um cara que vive com você, ouve seus problemas, ri das bobagens que você faz e te liga toda hora, ele é um amigo. Se, além disso tudo, ele faz sexo com você, ele é um namorado.  – Gabi achou melhor não relembrar a amiga de que ela ficou puta da vida quando Breno levou-a pra jantar com um casal de amigos dele e a apresentou como “amiga”. 

- Mas é apenas um rótulo! Eu não quero dar rótulos. Ele não entende que pode ter tudo, menos o título¿

- Mas por que o título é tão importante pra você¿

- Pra mim não é, é pra ele!

- Não mesmo, se você se nega tanto a chamar ele de namorado é porque não dar esse título a ele é importante pra você.

- Ora Gabi, você está chata demais! Por que fica defendendo o Pedro¿ Já é um horror que eu não tenha um espaço pra respirar sem ele me ligando pra dizer que eu sou linda e maravilhosa e que pensa em mim toda hora. 

- Se você se sente assim, termine com ele.

Sabrina pareceu chocada.

- Mas será possível que ele é tão besta que não pode entender que basta ele mudar um pouco de postura que podemos ter uma relação bem legal, sem rótulos e sem precisar estar toda hora juntos¿ 

Gabi suspirou. Não havia jeito de tentar fazer Sabrina entender. E ela sabia disso porque estava se vendo, em tantas relações passadas, quando estava na posição de Pedro, querendo um namoro, e o cara na posição de Sabrina, querendo sabe-se lá o que. Uma garrafa sem rótulo, possivelmente, pra beber quando não tivesse nada melhor pra fazer. Ela pensou que talvez, pelo menos, pudesse salvar sua noite. Pois se Sabrina não ia sair com Pedro, quem sabe ela topasse dar uma voltinha...

- Quem sabe a gente sai pra fazer alguma coisa e aí falamos melhor sobre isso¿ - convidou, alegre. Melhor passar a noite falando sobre aquela maluquice do que em casa rezando pra que bastante gente estivesse no face, deixando mensagens pra parecer feliz enquanto estava em casa num sábado à noite. 

- Ah! – fez Sabrina com um longo suspiro. – Impossível. Eu estou acabada. Tu acredita que ontem Pedro me submeteu a uma verdadeira maratona de sexo¿ Não, é inacreditável! Umas 2h transando sem tomar água! É realmente insuportável o que eu estou passando.

Gabi teve vontade de dar um soco na amiga. 

- Sim, é insuportável. Estou morrendo de dó, amiga. Compartilho da sua dor, mas agora preciso desligar, pois é fundamental que eu durma cedo num sábado à noite. 

- Por que¿

- Recomendações médicas. – disse Gabi, cansada.

- Oh, amiga! Você está doente¿ O que você tem¿ Quer que eu vá praí¿

- NÃO! – apressou-se em responder. Se passasse mais um tempo falando com Sabrina, possivelmente ia ficar doente de verdade. - Amanhã nós conversamos melhor. Vá descansar.

- Ok, eu vou. Mas ainda não entendo porque eu mereço passar por tudo isso... enfim. A vida não é justa.

Gabi riu:

- Não é mesmo.  – disse, por fim.