domingo, 30 de setembro de 2012

Coisas de cabeça e cotovelo (final)



É Lucas quem fala, já que eu perdi a voz:

- Posso entrar, Ana?

"Pode", digo num sussurro de morta-viva.

E ele entra, aceitando meu convite afônico pra se sentar. Eu tropeço nas tiras soltas da sandália e quase me espatifo no chão, antes de me irritar e chutar os sapatos pra fora dos pés, parecendo uma louca. Ele fica ali, parado, me olhando.

- Você vai sair?

Pergunta ele. "Eu vou sair?", penso eu. Até me dar conta que estou com cara semi-rebocada de base, e com um vestido de noite curtíssimo.

- Não vou mais - digo eu, sem pensar.

“Como assim não vai mais? Estava indo atrás de mim?” Certamente foi isso que ele pensou, e tinha toda razão claro, mas fez o favor de não comentar. Ele, aliás, está vestido com calças jeans e uma camisa pra fora da calça, mas uma camisa, que delatou que ele realmente estava pensando na farra, aquele grande filho da mãe. Será que veio me contar que ia pra farra? O que ele quer afinal?

- Bom - digo eu com ar prático - você esqueceu alguma coisa aqui, foi?

Ele me oferece um olhar profundo, com aqueles olhos azuis sem-vergonha, que me amolece por dentro.

- Esqueci, eu acho...

Desgraçado! Desgraçado! Desgraçado! Desgraçado! Veio pegar o que? Uma maldita camisinha que não usamos de manhã?! Que raiva. Veio apenas pegar alguma coisa que esqueceu, e eu pensando que tinha vindo se reconciliar! E ainda falei que não ia mais sair! Que raiva!!!

- Ana - diz ele, levantando e ficando parado em pé na minha frente, se projetando quilômetros acima de mim e me fazendo inclinar a cabeça pra poder olhar no seu rosto de sem-vergonha - eu esqueci...

Calou-se.

- Esqueceu o que?

- Esqueci de dizer...

Novo silêncio.

-Esqueceu de dizer O QUE? - grito, perdendo a linha.

- Esqueci de dizer que amo você.

Um minuto gravação, que vou apertar na tecla pra repetir a mensagem. O que foi que ele disse? Ah, ele disse que me ama... não, eu devo ter entendido mal. De manhã o desgraçado brigou comigo só porque eu sem querer falei o nome do meu ex-namorado e saiu me xingando de infantil pra baixo. E agora vem altas horas da noite, vestido pra festa e diz que me ama? Jesus apaga a luz!

- O que você disse?

- Que eu amo você, Ana. - repete ele, sério. - Amo... - ele se aproxima, me puxa pela cintura e me tasca um beijo. Assim na cara dura. E pior, eu me amoleço até a alma e beijo ele também.

- Por que você me disse todas aquelas coisas? - digo eu, imbecilmente chorando - Eu não falei por mal, foi apenas uma coisa que...

- Que? - faz ele.

- Sei lá, disse achando que não tinha mal!

- Ana, você disse que seu ex-namorado tinha uma bunda linda - ele me solta, mas parece calmo ainda. Eu não tinha me dado conta do absurdo que tinha dito, até ele me jogar isso na cara agora - Você acha que eu não tinha motivo pra ficar brabo sendo que você resolve conversar comigo sobre a linda bunda do seu ex?

É, foi mal... putz e agora? Sou uma idiota completa.

- É que eu acho que não foi bem assim... – falo com cuidado.

- Não? – pergunta Lucas.

- Eu disse que você tinha uma bunda linda, certo?

- Certo, foi assim que começou...

- E continuei falando que sua bunda era a mais perfeita que já tinha visto, não foi?

- É, foi - diz ele com cara de quem puxa a memória. É uma carinha muito fofa.

- E então conclui dizendo que mesmo o bumbum do meu ex, que também era lindo, não se comparava com o seu. Eu estava dizendo que você é melhor que ele. E você não me deixou concluir. Eu ia dizer que a bunda era só um extra. Que você é mais bonito que ele em tudo, e, melhor que isso, que é querido, inteligente, simpático, bem-humorado e bom de cama, coisas que ele não era. Ainda ia finalizar acrescentando que deve ser por isso que você foi o único cara que amei na vida.

Ele me olha de forma profunda.

- Acho que eu fui um idiota ciumento.

- E eu fui uma idiota falastrona. Não precisava comparar você com ele pra dizer que te amo.

Ficamos nos olhando como duas crianças que pedem desculpas por uma travessura. De repente eu me lembro que ele está prontinho pra noite. "Me ama, mas bem que ia cair na balada, né?"

- Você ia sair? - pergunto tentando um ar casual que sai como um ar de policial.

- Não - ele responde sereno - eu sai. Fui até um bar com o pessoal, pretendendo entrar na boate e ver se você estaria lá com seu ex, ou com outro cara. Na verdade, morrendo de medo que isso acontecesse. Mas aí não vi você lá, fiquei maluco pensando onde você estava e resolvi vir pra cá e não deixar que outro cara se aproxime de você.

Ele faz uma carinha de Brad Pitt. Sabe aquela carinha que o Brad Pitt faz quando chora nos filmes? É essa carinha. Meu coração vira uma água e escorre pelo tapete.

- Você ia sair? - pergunta ele olhando para meu vestido curtíssimo.

- Não - respondo eu, mas me corrijo - Na verdade ia. Ia atrás de você, pra ver se você estaria com alguma outra mulher...

Rimos. Primeiro uma risadinha meio besta, depois caímos na gargalhada, até rolar pelo chão. Quando paramos, ele se arrasta sensualmente pelo tapete, até ficar bem perto de mim e tocar meu rosto.

- Por que somos idiotas?

- Porque nascemos assim? - brinco, sorrindo docemente pra ele, que também sorri. E me beija. E me pega pela cintura. E me rola no tapete se deitando sobre mim.

Antes de perder toda a noção de qualquer coisa que não seja ele, penso que é realmente uma benção que Laurin nunca leve a chave quando sai de casa.

- O que é essa... essa tinta no seu rosto, amor? - a voz de Lucas é um sussurro quando ele para um minuto de me beijar e me olha entre louco de paixão, surpreendido e divertido.

- Nada, amor, nada - digo eu puxando ele de novo pra cima de mim.

E nada mais existe. Melhor amor aqui mesmo do que dor de cotovelo em Paris.


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Coisas de cabeça e cotovelo (Parte 2)


Depois do momento auto-piedade divertida misturada com besteirol para fugir do assunto, caio de novo na fase neura. Onde será que está este desgraçado do Lucas? Sábado de noite, uma hora dessas... certamente está se preparando pra entrar numa boate bem inferninho, depois de ter enchido a cara num boteco com aqueles amigos festeiros. E é claro que lá dentro ele não vai perder a oportunidade de arrumar rapidinho uma mocreia bem vadia e levar alguém diferente pra cama hoje, depois de tanto tempo só comigo. Ou talvez ele já estivesse me traindo, e eu que achava que era só comigo... talvez ele já leve sua nova namoradinha junto com ele pra boate inferninho.

Pior! Talvez ela não seja uma vadia. Talvez seja uma princesinha doce com cara de Barbie e voz de menininha que não foi pra cama com ele e ainda vai demorar pra ir, como manda a cartilha das meninas com cara de Barbie, e ele esteja com ela num restaurante romântico, ao som de violinos. Esta cena me leva à loucura. Desgraçado. Ele nunca contratou violinos pra mim! Começo a chorar arrasada por ele ter se apaixonado tão perdidamente pela Barbie. Como isso pode acontecer? Como posso competir com ela? Eu não tenho cara de Barbie, e nem demorei nada pra ir pra cama com ele. Na verdade, só não fui de primeira porque estava naqueles dias. Que mulher fácil eu sou. Como poderia querer que ele namorasse uma criatura que nem eu. Sou um nada perto da doce Barbie.

Aninho a cabeça nos braços e choro me odiando por uma eternidade.

Sabe do que mais - penso, dando um pulo da cama e derrubando as barras de chocolate que estava me dedicando a devorar compulsivamente - não vou ficar aqui engordando, enquanto esse cafajeste barato se diverte com a primeira que encontra na esquina. Ele vai ter que olhar na minha cara. Pode ficar com a Barbie, ou com a mocreia, mas vai ter que ser na minha frente, enquanto eu encaro ele, com um olhar superior de "não estou nem aí pra você, seu besta". Nem que eu tenha que me tornar digna de ganhar o Oscar pra conseguir fazer este olhar.

Melhor! Vou ficar com outro na cara dele. Mesmo que não seja nenhum Brad Pitt, não sendo nenhum drogado atirado na porta do bar pedindo um troco pra converter instantaneamente em crack, ele vai se morder com qualquer um que eu apareça. Todo homem se morde. É isso. Vou colocar aquele vestido preto tão curto que por pouco não deixa o bumbum de fora, uma maquiagem de boneca de porcelana pra esconder essas drogas de marcas de lágrimas, um perfume doce e saltos altos, e quero ver se não arrumo um idiota pra fazer ciúmes. Ele pode ficar com a mocreia boa de cama ou com a Barbie inocente, mas não vai ficar sem aquela lembrancinha de me ver com outro cara agulhando a cabeça dele.

Não que ele goste de mim. Certamente nunca gostou. Prefere, é claro, se intercalar entre uma Barbie e uma mocreia, e não uma criatura tão sem sal como eu. Será que ele vai mesmo se importar se eu ficar com outro? Bom, não sei, mas pelo menos EU vou ficar me sentindo melhor.

Passo o vestido-preto-tomara-que-eu-arrume-um-idiota-pra-fazer-ciúmes pela cabeça, calçando os sapatos, enquanto vou pegando uma base carinhosamente conhecida como reboco. Quando estou começando a espalhar aquela massa compacta no rosto, com manchas de base apenas de um lado, toca a campainha. "Droga", digo pra mim mesma, "a Laurin nunca leva essa droga de chave". E saio arrastando as tiras da minha super sandália até a sala, onde, de uma só vez escancaro a porta, já me virando pra voltar ao quarto.

Mas me dou conta que a pessoa parada na porta é muito, muito mais alta que Laurin. Viro novamente e dou de cara com um homem muito bonito, de olhos azuis escuros, pele morena, e cabelos meio crescidos caindo de forma displicente pelo rosto. Ele é lindo. Nossa como é lindo! E ele também é o Lucas. Parado ali na minha frente, na porta da minha casa, sem nenhuma Barbie e sem nenhuma mocreia ao seu lado. (...)

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Coisas de cabeça e cotovelo (Parte 1)


Agora eu vou pegar minha varinha de condão e me transportar pra um lindo café em Paris. Qualquer coisa em Paris deve se tornar sofisticada e romântica, até uma dor de cotovelo. Por que o governo não pode distribuir uma bolsa-cure-sua-dor-de-cotovelo-em-Paris?

Que porcaria viu! Ter que ficar parando a vida assim volta e meia pra curar uma droga duma dor-de-cotovelo tem me causado sérios prejuízos. Atrasa meu trabalho, não me deixa dar um jeito nas cortinas sujas da sala, faz com que eu acabe adiando minha consulta ginecológica...

Até mesmo danos à minha imagem. Claro, já que em todas estas paradinhas-cura-dor-de-cotovelo sempre tem aqueles cinco dias nos quais não consigo passar uma base na cara, muito menos um batom na boca. E as roupas? É aquele momento no qual se pega a primeira peça brega que aparece na frente e se ostenta como se fosse um acessório especial para usar com dor-de-cotovelo. E também é nestas horas que a gente fica usando aquele calçado sem taco durante dias, incapaz de largar ele no sapateiro.

Danos para a saúde ainda existem. É sempre na parada-dor-de-cotovelo que a gente se entope de porcarias, ou simplesmente fica sem comer uma uva. É a hora dos maiores porres pra quem bebe e das carteiras de cigarros não durarem nada pra quem fuma. Fora as noites sem dormir... E os prejuízos financeiros? Estes nem se fala. Além da grana homérica gasta com chocolate, temos os rompentes de compras compulsivas para melhorar a autoestima, que quase sempre acabam em roupas e sapatos que ficam o resto da vida enfiados no guarda-roupa, porque são simplesmente horríveis - claro, se você está toda estragada por dentro como vai conseguir ter bom senso pra escolher uma roupa?

Há ainda os danos sociais e afetivos. No olho do furacão de uma dor de cotovelo, você pode perder bons amigos que não aguentam mais ver você descambar em lágrimas cada vez que passar uma propaganda de margarina, ou ouvir uma música que te faça lembrar o causador da dor de cotovelo. E o detalhe é que, mesmo que você jamais tenha ouvido aquela droga de música, sempre vai ter uma frase feita exatamente pra você e ele. Também é na hora da dor de cotovelo que, caso você conheça um gato maravilhoso, cheiroso e querido, além de tarado, ou vai achar que está irremediavelmente fechada e não deve se envolver, ou vai avacalhar com ele, tentando provocar encontros para ciúmes com o porco que te chutou, e tratando ele com uma frieza que quer dizer "não vou deixar você me fazer sofrer como aquele canalha fez". E lá se vai uma chance de encontrar um namorado decente, ou uma dor de cotovelo novinha em folha.

Está aí uma boa ideia. Vou processar todos os homens que me fizeram ter dor de cotovelo. Danos morais, materiais, psicológicos, físicos, sociais... Possivelmente vou ficar tão rica que vou poder garantir Paris numa próxima dor de cotovelo. (...)


terça-feira, 25 de setembro de 2012

O amor e as pessoas, em tempos de facebook


A solteira recente (que quer provar que está) feliz: quando termina o namoro, coloca logo um SOLTEIRA no status que é pra todo mundo ver que ela não tem nenhum problema com isso, e pensar que foi ela que terminou o namoro. Começa logo a postar fotos de biquíni e em festas, cheia de amigos, e sempre publica uma série na qual aparece em todas as fotos o mesmo cara, que é pra deixar todo mundo pensando (especialmente o ex) que ela já está de caso com outro. Suas frases são cheias de pontos de exclamação (felicidade extrema).
Frases que posta: Bom dia facebook!!! Hoje é sexta-feira, dia de forró na casa do mano! Vamos dançar muuuuuito!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

A piriguete (que quer parecer) alegre: fotos fazendo biquinho são sua marca principal. Ela se acha altamente sensual e pensa que TODAS as mulheres estão morrendo de inveja dela, por isso posta coisas do tipo “sua inveja é meu sucesso”. Por um excesso de amor próprio, não posta muitas fotos das amigas no face, preferindo as que ela aparece fazendo caras e bocas na frente do espelho (normalmente são aquele tipo de foto que provoca vergonha alheia). Suas fotos normalmente recebem comentários de homens no estilo “hum”, “oh”, “Afff” e outras coisas monossilábicas que eles costumam usar para substituir “rola de comer você¿”.
Frases que posta: Pessoas invejosas não conseguem destruir o sucesso de quem nasceu pra brilhar.

A solteira (que quer parecer que não está) despeitada: normalmente passa de um status “casada” ou “namorando” para “não respondido”. Você nunca nota ela no face, até que ela começa a postar umas frases estranhas do Caio Fernando Abreu, do Jabor,  e da Martha Medeiros (ou pelo atribuídas a eles), uma atrás da outra. Aí você vai dar uma olhada no face e vê que todas as fotos do “ex” desapareceram e o status não está mais lá.
Frases que posta: Você percebe que realmente cresceu quando consegue enxergar que as pessoas que estão ao seu lado são as que realmente valem a pena. Paulo Coelho (na verdade eu que inventei essa frase).

O galinha (que não quer se comprometer): ele coloca poucas fotos, quase sempre com os amigos e nunca com alguma mulher junto. Deixa alguns comentários em certas fotos femininas, do tipo “está lindona!”, ou seja, que pode parecer apenas o comentário de um amigo, e ela sempre responde com alguma carinha fofa. Só posta comentários sobre uma festa depois que ela já aconteceu, pra que não aconteça de gente demais ficar sabendo aonde ele  vai. Tem um ar misterioso de quem não gosta de ficar expondo sua vida no facebook.
Frases que posta: Bom dia facebook! Sol lindo e um surfe irado pra começar o dia!

O encalhado (que quer parecer galinha): vive postando fotos de festas, com mil mulheres, mas nunca está abraçado com nenhuma. Deixa comentários do tipo “Oh”, “hum” e “delícia” em fotos de piriguetes alegres. Posta sobre festas, farras e folias de todo tipo, e tem fotos com cara de gostoso, de óculos escuros e ar sério.
Frase que posta: Micareta de Feira hoje vai ser o bicho! Bora tomar todas!

O cult (que quer parecer ainda mais cult): tem fotos de lindas paisagens e posta milhares de propagandas sobre abaixo-assinados em prol do meio ambiente. Posta frases de Guevara, vídeos sobre política e matérias da Carta Capital. Comenta sobre filmes iranianos e divulga a programação da sala de artes.
Frases que posta: Todo ato humano é, por sua essência, um ato político.

O encalhado (conformado): posta o tempo todo, sobre tudo: novelas, política, fatos do dia a dia, notícias, músicas, etc, etc, etc. Como não faz sexo e nem sai a procura, passa muito tempo no face, então vive postando e postando.
Frases que posta: Será que vai rolar sexo na novela Gabriela¿ Se forem realmente respeitar o estilo de Jorge Amado, as cenas serão tórridas.

A mamãe casada (que ama ser mamãe casada): TODAS as fotos são com o marido ou com os filhos, ou com todos eles juntos. Há também fotos apenas deles. A vida é uma constante reafirmação do quanto é maravilhoso estar casada com o melhor homem do mundo, ser mãe do bebê mais esperto, etc, etc. As proezas do filhote são contadas quase diariamente em detalhes, e os aniversários de casamentos comentadíssimos.
Frase que posta: Ontem o Paulinho comeu sua primeira laranja sozinho. Ficou todo lambuzado, mas se divertiu muito! Obrigada Pedro, meu amor, por ter me dado o presente mais lindo da minha vida, nosso filhote!

O comprometido (que precisa deixar claro que ama sua namorada/mulher): o tempo todo ele posta frases dedicadas à sua amada. Comenta todas as fotos dela, sempre finalizando com algo do tipo “sou o homem mais feliz do mundo”. Coloca músicas que tem a ver com a relação dos dois e conta a historinha: “essa música tocou no dia que eu e Fabi estávamos no cinema e eu apertei pela primeira vez os peitinhos dela”. Faz homenagens lamurientas. Posta fotos dela sozinha, apenas pra comentar o quando ela é linda e ele é feliz por ter essa mulher.
Frases que posta: Há exatos 3 anos, cinco meses e dois dias eu conheci a pessoa mais importante da minha vida. Eu estava no zoológico com minha sobrinha, e nem desconfiava que minha vida estava prestes a mudar. Mas foi bem ali, diante da jaula do elefante, que eu vi pela primeira vez Fabiana de Oliveira (com marcação para o face dela, e foto dos ingressos quase apagados do zoológico).

O gostoso (que precisa de palco): fotos de regata com braços musculosos à mostra e posts sobre malhação e academia denunciam este tipinho. As fotos dele são seguidas de comentários do clube das piriguetes alegres do tipo: “Ai, meu coração não aguenta” ou “Nossa amigo, que delícia”. Outro tema recorrente no face dele são festas e farras diversas. As vezes posta alguma frase de Caio Fernando Abreu/Jabor/ Martha Medeiros pra deixar claro que ele não é apenas um monte de músculos sem cérebro.
Frases que posta: Indo treinar.

A salvadora da pátria (que precisa se mostrar): ela vive postando fotos de manifestações das quais tomou parte, fotos de cachorros perdidos e de crianças desaparecidas, matérias sobre Belmonte, e críticas ao machismo, preconceito, discriminação, desigualdade, etc, etc. Tem boas intenções e precisa mostrar isso pra todo mundo.
Frases que posta: Feio é o seu preconceito (abaixo de uma foto de um casal gay se beijando).

O solteiro (despeitado): é aquele que acabou de mudar seu status e já começa pegando pesado. Tudo que ele posta tem um sentido oculto que quer dizer: “nada como estar livre para poder comer todas as mulheres do mundo”. Fotos de festas variadas, muitos comentários de duplo sentido em fotos de piriguetes alegres e frases esquisitas.
Frases que posta: Quando me perguntam sobre meu passado eu respondo que não moro mais lá.

A espertinha (enxerida): pessoa de péssimos hábitos observatórios, que fica cuidando o que os outros colocam no face para poder escrever uma crônica engraçadinha.  

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Vida de princesa


Imagine a situação. Você, princesa solitária, está caminhando na rua e pensando em homens, claro, de repente tropeça numa pedra, quebra o salto, leva o maior tombão, e cai estatelada no chão. Fica por alguns segundos ali pensando em quem vai tentar matar por isso ter acontecido, quando ouve uma voz linda, rouca e altamente máscula dizendo, enquanto uma mão forte e gentil e ajuda a levantar:

- Você está bem?

Você então volta seu rosto para ele. Ele é alto, tem os olhos verdes como esmeraldas, é loiro, pele bronzeada, lábios perfeitos, nariz másculo, sobrancelhas marcantes. Por um minuto você pensa: “Será que dei a sorte de ser socorrida pelo Brad Pitt?”, mas se dá conta que o Brad Pitt não poderia falar português sem sotaque algum, o que aumenta sua sorte já que sua concorrente direta não será a Angelina Jolie.

Pensando que deve estar amarrotada, empoeirada e completamente micada por cair como uma jaca podre no meio da rua, você recorre à primeira técnica feminina no caso de tombos completamente vexatórios na frente de homens lindos - faz charme.

- Ai, acho que machuquei meu pé... – diz fazendo cara de dor ao colocar o pé no chão.

Ele cai como um patinho, claro, todos os homens caem, ou talvez eles só sejam tão fingidos quanto a gente.

- Se apóie em mim – diz ele conduzindo-a até um degrau próximo onde você pode se sentar, e é então que você aproveita pra avaliar o resto e percebe que ele é forte, tem músculos definidos e parece ter um corpo realmente lindo, e, o que é melhor, está extremamente bem vestido. Ele se coloca à sua frente e pede pra você tentar mexer os dedinhos do pé e você se divide entre agradecer ao seu anjo da guarda por ter ido ao salão no dia anterior e especular se ele é médico.

- Acho que está tudo bem, foi só o susto. – diz você sorrindo seu melhor sorriso de menina meiga, enquanto mostra pra ele que consegue mexer seus dedinhos.

Ele também sorri e você vê que é dotado de um sorriso maravilhoso, de dentes brancos e perfeitos, tipo comercial de pasta de dentes. “Esse cara é viado”, conclui logo, ao imaginar que você não poderia ter tanta sorte de encontrar em cara maravilhoso daqueles e ter caído justamente na frente dele, e ele ter parado pra socorrê-la e ainda por cima não ter aliança em nenhum dos dedos (é claro que é dispensável dizer que essa foi a primeira coisa que você procurou ver assim que viu como ele era lindo).

- Você mora perto daqui? – pergunta ele, assim do nada, e você pensa “eu sabia que era falsificado. Será que já quer se convidar pra ir pra minha casa assim na luz do dia?”

- Moro – responde você com um olhar fulminante do tipo “cafajeste, eu não vou te convidar pra ir na minha casa não, viu?” – Por quê?

- Porque você vai ter que trocar de calçado – responde ele com um sorriso – posso te dar uma carona até sua casa e você troca, e depois, se for caminho, posso te levar onde você estava indo.

Você está certa de que isso é uma desculpa pra ele tentar subir no seu apartamento, e tentar obviamente levá-la para a cama e dar uma rapidinha no meio do dia, mas, olhando pra ele e vendo como ele é gato resolve arriscar.

- Mas não vai te atrapalhar? - pergunta com cara de inocente. Ele sorri e você pensa que ele realmente é um gatooo. Começa a ponderar a possibilidade de aproveitar, caso ele seja só um idiota procurando sexo.

- Não vai não, eu já estava indo pra casa. Venha, eu te ajudo. – ele lhe apóia novamente pra lhe levar até o carro, e então você contabiliza mais dois dados importantes a respeito dele. Um, é muito estranho que ele esteja indo pra casa às três horas da tarde. Dois, ele tem carro.

Quando ele começa a dirigir calmamente, depois de perguntar seu endereço, você procura discretamente indícios de que ele seja casado. Mas não tem cadeirinha de criança, chocalhos ou mamadeiras, brincos de mulher, adesivos femininos, casacos, nada que aponte uma condição “pai de família”. Também não há latinhas de cerveja, camisinhas, calcinhas, nada que insinue a condição “solteiro caído na buraqueira”.

- Você também mora por aqui? – pergunta você pra entrar em um assunto pessoal.

- Moro quase perto daqui. - diz ele rindo e contando que mora em um bairro perto do seu.

Vocês começam a conversar e ele conta que é diretor de uma conhecida ONG da cidade, e está de folga naquele dia (ou seja, é bonito, tem uma profissão, e ainda por cima é um cara consciente e que ajuda o mundo a ser melhor. MEU DEUS!!!), que é de fora e mora sozinho há 3 anos na sua cidade (ou seja, não é casado e de quebra não mora com a mamazinha!!!). Você também conta de seu trabalho, que mora com uma amiga... bla, blá, blá.

Chegam a frente da sua casa, ele estaciona e pergunta:

- Você está bem mesmo? Consegue caminhar?

“É agora que ele vai pedir pra subir”, pensa você.

- Consigo sim – “ele vai dizer que em todo caso é melhor me ajudar a subir.”

- Nesse caso vou esperar você aqui, tudo bem?

Você fica alguns segundos olhando pra ele meio apavorada, enquanto cogita outra vez a possibilidade de ele ser gay.

- Tudo bem – diz sorrindo.

Você então sobe, calça seus sapatos mais lindos, retoca a maquiagem, dá um gás na escova do cabelo e no perfume e só não muda de roupa pra não ficar estranho. Depois de 20 minutos volta pro carro pensando se ele não encheu o saco e foi embora, mas não, ele está lá e, quando pergunta se demorou, ele responde que não muito. “Com certeza é gay”, lamenta você, já imaginando que deve apresentá-lo pro seu amigo.

Ele então pergunta onde você estava indo, você diz que ao shopping, ele sorri e a leva até lá. Ao invés de dar apenas uma carona pergunta se você quer companhia e anda contigo por algumas lojas, carregando seus pacotes. Você tem tanta certeza que ele é bicha que liga pro seu amigo e diz que tem alguém muito especial pra apresentar pra ele, que fica empolgadíssimo.

Mas, enquanto vocês lancham no restaurante na frente do shopping (que foi uma sugestão dele, que, como você, detesta comer no meio do barulho das praças de alimentação de shoppings), você o analisa e pensa que ele realmente não parece viado. “Mas deve ser”, tenta se convencer. Quando ele lhe leva em casa, pára na frente do seu prédio e diz:

- Eu gostei muito de conhecer você.

Silêncio. Você sorri verdadeiramente encabulada, e responde:

- Eu também.

Então ele lhe olha com profundidade, mas não uma profundidade do tipo “quero te pegar todinha”, mas uma profundidade do tipo “você é muito especial”, e fala as palavras mágicas:

- Podemos nos ver de novo?

Você ainda desconfia que ele é viado enquanto trocam telefones, mas começa também a imaginar que talvez ele seja impotente.

No dia seguinte ele te liga pra dizer que pensou em você durante o dia, e marca um jantar na sexta-feira. Enquanto você se arruma toda empolgada, empilhando vestidos que te deixam gorda num canto do quarto, seu amigo gay avisa pra tomar cuidado porque não está convencido ainda de que ele não é uma bicha enrustida. Você, apesar de feliz, está ainda com o pé atrás e diz pro seu amigo não se preocupar porque está atenta a tudo.

E está mesmo, até a segunda hora do encontro, porque depois de conversar com ele, ver o sorriso dele, olhar nos olhos dele durante duas horas, você sabe que ele é o príncipe encantado. É ele, o homem pelo qual você esperou a vida toda, sua alma gêmea. Mas falta um detalhe muito importante. Como é o beijo?

Essa pergunta te acompanha até a hora que ele te convida pra ir até a beira do mar olhar a lua, e vocês ficam em silêncio olhando pro céu com cara de bobos, pra não dizer que saíram logo se agarrando. Ele fala sobre o céu, você fala sobre a lua, ele fala sobre as estrelas, e depois vira o rosto pra você. Você olha pra ele, que segura de leve sua nuca, sorri e fala alguma coisa que você nunca vai lembrar antes de encostar os lábios nos seus e você constatar que aquele é o melhor beijo que já deu na vida. Chega a ser indecente de tão bom, ao mesmo tempo que não é um beijo do tipo “vou te sugar pela boca”, e também não é um beijo do tipo “vou te beijar delicadamente porque você parece de cristal”. É um beijo. Um beijo apenas, um beijo com desejo, com carinho, com vontade, com ternura, com paixão, com... tudo.

Enquanto você caminha pelas nuvens, vocês continuam saindo, ele é cada vez mais maravilhoso, você entra em êxtase e é a mulher mais feliz do mundo, depois entra em crise e tem certeza que ele está te enganando, depois vem a TPM e você chora lembrando do seu cachorro que morreu atropelado quando você tinha 3 anos, pra no outro dia gritar com ele no telefone dizendo que não vai sair de jeito nenhum porque está tão gorda que não caberia no carro. Ele entende tudo, conversa com você depois do seu ataque, faz as pazes e te leva pra sair.

Aí vem o dia derradeiro, e, depois de uma noite romântica e maravilhosa ele te convida pra passar o fim de semana em uma praia. A viagem é linda, e o sexo é tão perfeito quanto o beijo. Mas aí vem a prova mais crucial.

Ele te deixa em casa, vocês se despedem com um longo beijo e aquele diálogo clássico:

- Adorei o fim de semana – diz ele querendo dizer na verdade que adorou o sexo.

- Eu também - responde você com cara de pastel, querendo dizer que também gostou do sexo.

Aí vem o dia terrível e a prova final. Você acorda já querendo que seja umas 10h pra já ser possível ele ligar, mas são apenas 7h da manhã. Passa o tempo até o meio-dia e nada. Claro que ele não ia ligar de manhã, né? Tudo bem.

Você almoça correndo e graças a Deus já é de tarde. O relógio se arrasta. Tic-tac, tic-tac, e nada de telefone tocando. Tudo bem ele está trabalhando. Sabe que você também está. Não ia ligar no meio do trabalho, ia? Tudo bem.

Seis horas. Seis e dez. Seis e quinze. Mas que droga! Ele sabe que você sai às seis. Ele também sai às seis. Por que não ligou ainda? Você vai pra casa sacolejando no ônibus e limpando discretamente as lágrimas. Sabia que ele não ia ligar. Era fatal. Fim de semana maravilhoso de sexo=dia posterior sem ligação. Agora está tudo perdido. Um dia ele vai ligar de novo, claro. Quando estiver meio a perigo e não tiver um nome mais interessante na lista, vai ligar e dizer que o cachorro comeu seu celular, que teve que entrar em contato com a operadora, subornar várias pessoas, e assim conseguiu seu telefone outra vez...

Você anda do ponto até seu prédio como se estivesse com um piano nas costas. A solução é colocar um pijama horrível, pedir inúmeras tele-entregas e ligar pro seu amigo gay que vai discorrer sobre como ele só faz isso com as mulheres porque na verdade é uma bicha enrustida. Mas quando você chega na porta do prédio, eis a surpresa. Você pensa que é uma miragem, esfrega os olhos, mas não é. Ele está lá, paradinho, com um buquê de rosas vermelhas nos braços e sorrindo. Quando você chega perto, ele fala que não resistiu, tinha que vê-la. Depois de mentalizar fortemente que não pode desmaiar você se recupera. E sorri, radiante.

Daí pro altar é um pulo. Numa linda tarde de sábado vocês fazem uma perfeita festa de casamento, à beira mar, com direito a vestido branco, arroz e Ave Maria. Logo você, que achou que estava irremediavelmente encalhada!!! Quando você joga o buquê suas amigas se matam tentando pegar, pra ver se pegam com ele um pouco da sua sorte, mas ele acaba parando nas mãos do seu amigo gay.

A noite de núpcias é perfeita, a lua de mel é um sonho pela Europa, e você é a mulher mais feliz do universo. Voltando da lua de mel, como o combinado, vocês vão morar na casa dele, previamente reformada e adaptada para receber a esposa tão especial.

No primeiro dia de casados em casa mesmo, você acorda depois de uma longa noite de sexo maravilhoso e se espreguiça enquanto vê ele entrando com uma bandeja de café da manhã. Você realmente é a mulher mais sortuda do universo. Será que tem mais coisa além do universo pra você ser ainda mais sortuda?

Ele sorri, e senta na cama para tomar café com você, depois se arruma enquanto você ainda rola na cama, admirando seu lindo marido, já que ainda está de férias. Ele vem e a beija nos lábios, dizendo que a ama e vai voltar correndo pros seus braços no final do dia. Você se vira na cama pensando em dormir e sonhar com sua vida de princesa, quando o controle remoto da TV cai no chão. Você preguiçosamente tateia embaixo da cama, mas como não acha nada coloca a cabeça pra fora e espia. Fica horrorizada. Apavorada. Respira e fecha os olhos fortemente, mas quando os abre ele ainda está lá.

Há um penico embaixo da cama. Um penico, e pior, um penico cheio de xixi. Meu Deus, pensa você, como pode? Em todo esse tempo de namoro jamais vi esse penico! Não o penico certamente não é dele. O problema é o xixi... se o penico não é dele, de quem é o xixi? Apavorada você passa o dia angustiada. Pensa em ligar pra ele e perguntar sobre o penico, mas seu amigo gay acha que isso não é uma boa idéia. Melhor é você fingir que está dormindo e ver se ele vai usar o penico no meio da noite.

E é isso que você faz. Ele te acha estranha quando chega, pergunta se está tudo bem, e você resmunga: “está”. No jantar você quase não fala, fica imaginando se ele levanta e faz xixi no penico ou se senta no penico pra fazer xixi. O que seria pior?

Ao deitar, você inventa a famosa dor de cabeça pra evitar o sexo. Não poderia transar com o penico na cabeça. Ele fica morrendo de pena, traz um remédio pra você, se deita ao seu lado, faz conchinha e dorme fofamente te abraçando. Você quase nem respira. Quando pensa que vai passar a noite em claro em vão, ele se mexe na cama. Senta, olha pra você que finge dormir, depois abre um olho no escuro. Ele então tateia embaixo da cama, encontra o que procurava, segura o penico, mira e .... você ouve o fatal barulho:

Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

Como diria meu amigo Rico: Acorda Cinderela!!!

É hora da vida real. Não existe conto de fadas. Não existe príncipe encantado. Você também não é nenhuma princesa.

A verdade é que todo mundo têm defeitos, maus hábitos, e aquela baita gato ali do lado pode ter bafo sim. E talvez, ainda assim, ele seja sua cara metade e lhe faça muito feliz. Ninguém é perfeito, e a vida está aí pra nos provar isso a cada dia. Se nós ficarmos esperando esse príncipe ou essa princesa maravilhosos, é muito provável que passemos nossas vidas sozinhos e tristes pela frustração de não achar. E o pior, é bastante possível um dia nos darmos conta que deixamos de lado pessoas reais e incríveis, que podiam nos dar muita coisa boa, só não podiam nos dar a perfeição.

Então, é hora de acordar, mesmo que o príncipe não venha te beijar pra que isso aconteça. Esse sapinho aí do seu lado, com todos os seus defeitos, pode ser muito mais divertido que um sonho.

E se vocês querem saber o que aconteceu com nossa amiga princesa, ela e seu príncipe fizeram um trato. Ele não usa mais o penico em cima da cama e acorda antes que ela pra despejar e lavar, e ela nunca mais olha embaixo da cama e nem toma conhecimento do penico. E eles ainda vivem felizes. Se é pra sempre, ninguém sabe.

sábado, 22 de setembro de 2012

Vênus e Marte


Podem dizer que mulher gosta é de pegada, de puxões de cabelo e palavras de "baixo-calão" sussurradas ao pé do ouvido, mas isso é uma tremenda abobrinha. Quem é mulher sabe. É bem verdade que isso tudo tem seu valor em certos momentos, mas o que mulher gosta de verdade são palavras de amor, atitudes bobamente fofas e de um cafuné depois do sexo.

O que todas nós queremos é ouvir ele dizer que nenhuma outra é igual a gente, que adora ficar assim bem coladinho só falando bobagem, que somos a única mulher do mundo aos olhos dele. É evidente que esse tipo de coisa só acontece quando ele está querendo algo em troca. Aí vai das coisas mais absurdas, tipo um par de meias novo ou um ménage à trois. Depende de cada casal. Mas a verdade é que os homens, no geral - fora aqueles insuportavelmente bonzinhos – não são muito dados a declarações de amor, carinho e fofice. E é por isso que fica tão difícil se entender - um quer do outro aquilo que o outro não sabe dar. 

Aqueles que são espertos, porém, e que normalmente também são bem canalhas, e que geralmente são ainda os melhores, já sabem que não existe nada mais funcional pra convencer uma mulher de alguma coisa do que falar umas três frases bonitinhas por dia, jurar que ela é a única mulher que ele enxerga na frente - bem, as outras são só sexo - e fazer mais umas duas ou três bobagens, tipo levar num restaurante caro ou pra tomar coco na praia e andar de mãos dadas - aí vai ao gosto da freguesa. Pronto, a satisfação de todos os seus desejos está garantida! Não é preciso ser muito inteligente pra saber quando um homem desse tipinho está adulando você pra, na sequencia, te pedir alguma coisa absurda, e como a maioria de nós é inteligente, a gente sempre percebe. 

Quando eu tinha uns 20 anos e acreditava que um dia um príncipe ia bater na minha porta em um cavalo branco eu fingia pra mim mesma não entender esses sinais. Ficava inventando coisas do tipo: "ele se apaixonou por mim".

Quando eu tinha uns 25 anos e achava que um dia o príncipe ia chegar, ainda que a pé e meio esfarrapado, tentava acreditar que em alguns casos os ataques de fofice masculinos podiam não significar a necessidade de um "pagamento". Ficava me desgastando tentando avaliar quando a coisa era verdadeira ou não, e perdi um tempo danado com isso.

Quando eu fiz uns 28 anos e comecei a sair por aí como uma louca caçando um príncipe, fiquei revoltada com todos esses simulacros de príncipe que vinham tentar me fazer de boba. Jogava na cara deles o quanto eu era esperta e não ia cair na deles. Fazia questão de deixar bem claro minha descoberta sobre seus ataques de paixão, e foi uma nuvem tão grande de sapos e príncipes correndo de perto de mim que quase deu manchete no jornal.

Quando eu fiz 30 anos e fiquei mais esperta, imaginando que talvez um dia eu encontre o príncipe assim sem cavalo, sem coroa e sem roupa real, parecendo apenas um homem qualquer, numa esquina qualquer, percebi que uma vida sem um pouco de ilusão não tem a menor graça. Então, quando acontece um "ataque de fofice", fico bem quietinha, na minha, aproveitando bem e ainda faço biquinho. Afinal, não é só isso que a gente quer? Um pouco de carinho, tesão, paixão, amor e companheirismo, tudo misturado e bem batido no liquidificador? E se durar apenas um tempo e não a vida toda, deixa de valer? Nem a vida dura pra sempre. Então, melhor viver como se hoje fosse o último dia da vida...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Uma semana e meia de amor


Cheguei em casa batendo portas e esbaforida. Minha cabeça estava a mil. Isso porque o Stefano tinha acabado de me ligar confirmando que vinha. Nada mal para uma terça-feira.

Eu conheci o Stefano na noite, e eu já sei o que você vai dizer. “Boates não são lugares bacanas pra se conhecer caras legais.” Ok, eu concordo, mas não estava espertando conhecer um cara legal quando conheci o Stefano. Eu não estava esperando conhecer cara algum, pra dizer a verdade. Estava apenas na minha, querendo dar um jeito de voltar a viver, depois de um período de deprê total, e voltar a viver, você deve concordar, inclui dar uma saída básica com os amigos.

Pois lá estava eu, na minha saída básica com amigos, quando ele surgiu na minha frente. A cantada foi barata. Eu pisei no pé dele e pedi desculpas, e ele respondeu que só desculpava com um beijo, que eu, evidentemente não dei. Mas o papo fluiu e pimba! Ficamos.

A noite foi muito bacana e terminou num boteco já de manhã, no clássico estilo “adeus fase deprê”. Evidentemente, Stefano queria que eu prolongasse mais a noite, ou o dia, em alguma cama disponível, mas eu não tava a fim. Então me despedi de Stefano com pretensão zero de vê-lo outra vez na vida.

Isso porque ele não morava na mesma cidade que eu, estava apenas hospedado por uns dias num lugar próximo, a trabalho. Iria embora em seguida, e os dias que ainda ia ficar na Bahia seria em outra cidade, o que não deixava muita chance de nos encontrarmos outra vez. Como não trocamos telefone, me despedi com a sensação de uma noite muito bacana, de curtição sem expectativa.

Acontece que, dois dias depois, ele me achou no facebook (bendita tecnologia!!!), e agora ele estava fazendo uma pequena viagem de uma hora e meia pra passar a noite comigo e voltar às 5h da matina pra trabalhar.

Comecei a arrumar a casa, pois era evidente que eu não podia receber o cara com aquela bagunça, mas então me dei conta que eu não estava com a depilação 100%, e nem tinha tomado banho ainda. Decidi fazer uma lista de prioridades. O que era pior, a casa bagunçada ou meu corpo em condições precárias?

Depois dessa reflexão, entrei correndo no banho. Ao sair, com a etapa  depilação e higiene ok, comecei a analisar o que era mais importante, estar bonita ou com a casa arrumada?

Como resposta a esta pergunta, comecei a escolher uma roupa. Tinha que ser uma roupa com cara de “estou em casa”, mas que não fosse exatamente uma roupa do tipo shorts rasgado e blusa desbotada. Optei por um vestido solto, mas curto, estilo despojado, mas que deixava minhas pernas em evidência. Rasteirinha, um pozinho discreto pra esconder as olheiras, e um rímel de leve.

Só então começou a etapa casa, e eu conclui que o mais importante seria arrumar a cama, já que era nela, evidentemente, que passaríamos uma considerável parte da noite. Ainda consegui lavar a louça e dar uma varrida antes dele chegar.

Eu, que não estava esperando muita coisa desse encontro, mudei de ideia quando acordei com os cantos dos lábios pregados nas bochechas, depois de uma noite quase em claro, e fui para o trabalho, suspirando.

A noite tinha sido quase perfeita. A conversa (sexo é maravilhoso, mas todo mundo sabe que é a conversa que faz uma mulher se apaixonar por alguém ou não) tinha sido perfeita, leve, séria, profunda, despretensiosa e intensa. Acho que na verdade conversamos mais do que transamos. Mas isso não quer dizer que não transamos. Mas também falamos, falamos e rimos... e tudo foi incrível.

Comecei então, a percorrer o caminho clássico. Tudo começou com uma conversa comigo mesma:

- Ele vai embora em alguns dias, Patrícia. Isso encerra o assunto?

- Como assim encerra o assunto? Por acaso as pessoas só se apaixonam por quem mora perto de sua casa? Será que não se pode dar um jeito? Eu e o Pablo, por exemplo, demos um jeito.

- Exatamente, Patrícia, sua desmiolada. Você acabou de terminar um namoro à distância e vai querer começar outro?

- Não é que eu queira começar outro, dona Patrícia! É que as coisas acontecem sem a gente prever! Se nós nos apaixonarmos? Hein, hein? Se fugir do nosso controle?

- Patrícia quando você vai aprender! Você ficou com o cara duas vezes e já está falando em paixão! Você não sabe nada sobre a vida dele!

- O que você está querendo dizer?

- Você sabe se ele não tem uma namorada? Ou talvez até seja casado.

- Casado? Casado? Ele não é casado... Você acha que ele é casado?

- Pode ser.

- Mas nada na conversa dele demonstrou que ele tenha algum compromisso. Ele falou o tempo todo dos planos dele, da vida, como se ele fosse uma pessoa livre.

- É, mas você viu o recadinho suspeito no face dele, não viu?

Foi o recadinho estranho que estragou minha alegria. Isso porque eu tinha visto sim. Era um recadinho de um cara que chamava Stefano de cunhado. Eu tinha visto, mas supus que o cara fosse casado com a irmã dele. Afinal, ele não estava como casado no face. Nem como namorando, nem como nada. Então era óbvio que se tratava do marido da irmã dele, não era?

Só que a pulga ficou dando mordidas nada discretas atrás da minha orelha. E como eu queria fazer ela parar, fui fuçar no face dele. E quem procura acha, e eu achei. Achei uma “amiga” dele chamada Flávia, que tinha no perfil uma foto com ele. Lá estavam os dois abraçados e sorrindo. Pra não facilitar as coisas pra mim, a desgraçada tinha um face todo fechado pra não amigos. Mas eu não pude deixar de reparar que o sobrenome dela era Alves. E, pasmem, o nome do filho da puta era Stefano Alves. Que nota vamos dar pra isso?

Caso isso deixasse alguma dúvida, do tipo “pode ser a irmã dele”, o outro sobrenome da Flávia era o mesmo que o do cara que chamou o Stefano de cunhado. Pra deixar claro: o nome do cunhado era Alexandre Freitas, o nome do Stefano era Stefano Alves, e o nome da excelentíssima esposa era Flávia Freitas Alves.

Ao céu e ao inferno em menos de 12h. Meu estado de espírito era tão confuso que fui obrigada a chamar Edson. Edson é o meu mega-super-hiper-amigo-do-trabalho. É muito bom contar com ele, embora não seja uma pessoa muito presente na minha vida fora do trabalho, mas toda vez que eu sofro de uma incapacidade temporária de me manter no trabalho, e que poderia me levar e simplesmente pegar a bolsa e ir embora, sem dar uma explicação, e evidentemente ser demita, eu chamo Edson e ele segura a barra. Contei meu drama pra ele. E fiquei realmente chocada quando lágrimas começaram a escorrer grossas pelo meu rosto.

- Você vai chorar por causa desse cara, Pati? Aí eu vou ser obrigado a duvidar da sua inteligência.

Foi o que Edson me disse, e pode parecer que foi apenas um clichê, mas isso me fez lembrar que a minha inteligência estava sendo solicitada por umas 25 demandas diferentes naquele momento, e que eu ia ter que deixar pra me surpreender com o descaso dos homens em relação aos seus casamentos mais tarde.

Só que eu realmente me surpreendo com isso. Fiquei me sentindo meio estranha, como se eu não tivesse razão pra fazer drama, mas honestamente, eu fico chocada com uma coisa desse tipo. Desculpem os moderninhos desacreditados da vida de plantão. Mas eu acho sinceramente que é muita sacanagem você, na primeira oportunidade que tem, sair pela noite caçando uma transa, e passar horas na companhia de outra mulher, falando de sua vida, trocando confidências e transando, como se não tivesse uma pessoa que você jurou respeitar achando que você tá trabalhando e morrendo de saudades dela.

Isso que eu não estou nem considerando o fato dele não ter mencionado pra mim que era casado, não me dando a escolha de sacanear ou não uma pessoa que eu nem conheço. Mas se ele não tem respeito pela própria esposa, como eu poderia esperar que tivesse por uma estranha, não é mesmo?

Enfim, a vida continuou, e na quinta ele me chamou no face. Eu não respondi, sai fora, sem saber o que fazer, porque não achei que ele fosse dar as caras de novo. Depois pensei que queria falar com ele mais uma vez. Não pessoalmente. Eu nunca mais queria ver a cara do Stefano na minha frente. Estava com um nojo tão grande dele que lavei a toalha que ele usou, troquei lençóis e passei álcool no copo que ele bebeu.

Mas queria falar com ele no face ou no telefone, e poder dizer casualmente:

- Ah, uma pergunta. Você é casado?

Só queria ver se ele ia dizer sim ou não. Só isso. Um pequeno teste para medir o tamanho da cara de pau dele.

Por isso dei uma cordinha. Repondi o recado dele do face perguntando se ele já estava em SP ou se ainda ia ficar mais na Bahia. Ele não estava on.  Me respondeu depois que ficava mais uns dias na Bahia.

Deixei o assunto em suspenso por um acaso do destino, esse ingrato. Estava eu voltando de uma reunião, caminhando perto do trabalho, quando ouço alguém gritar meu nome, de dentro de um carro. E quando olhei, era nada mais nada menos que ELE.

Evidentemente que ELE não era Stefano. ELE, assim mesmo, em letras maiúsculas, é ELE. Aquele cara que é o seu grande problema. Aquele cara que quando aparece não tem pra ninguém. Aquele cara com quem você tem uma história que tem começo, mas depois disso tudo é meio e fim, e meio e fim de novo, e meio de fim outra vez, só pra depois voltar pro meio. É aquele cara que faz seu coração disparar, e o meu coração disparou quando eu vi Alessandro dentro do carro, me olhando com uma cara de quem não sabia se eu ia xingá-lo, abrir um sorriso ou sair correndo, e eu sai correndo.

Gritei um oi-tudo-bom, virei as costas e sai dali. Nós estávamos num momento fim, mas na hora que ele gritou meu nome, nós voltamos mais uma vez pro meio.

Pouco depois da minha fuga, começaram as mensagens do estilo não-me-conformo-que-perdi-você, de ambas as partes. Coisa do tipo: “Meu coração disparou quando te vi”, e daí até o clássico: “Vamos conversar pessoalmente sobre isso?”.

E eu respondi sim. Estava chorando, em pleno trabalho, as lágrimas transbordando dos meus olhos, e eu secando, tentando ser discreta, mas nem o Edson podia me salvar. O destino tinha trazido ELE de volta e eu estava chutando o balde.

Acontece que o meu momento chuta-balde não deu certo. Isso porque quando eu respondi sim, ele me rebateu um “que ótimo, no domingo nos vemos pra conversar então”. Veja bem. Analise com calma a situação. Era uma sexta-feira. E ele, depois de apelar pro coração disparado pra me convencer a falar mais uma vez sobre nós dois, queria passar o fim de semana inteiro fazendo sei lá o que, e me pegar pra conversar no domingo.

O triste é que hoje em dia não existe mais romantismo. Nada de atitudes súbitas, alucinadas, imediatas. Tudo programado, preferencialmente pra depois da farra. É um saco.

Naquela noite, eu me encontrei novamente com a depre. Fazer o que?

Eu tentei não fazer isso, fui pra farra com os amigos do trabalho, ri, me diverti, mas eu já tinha me perdido. Toda hora minha angustia dava uma fisgada no peito, e quando eu cheguei em casa, lá estava a depre me esperando, e eu cai nos braços dela e chorei. Chorei e chorei, e em meio às lágrimas eu abri o face e deixei um recado pro Stefano dizendo que ele não devia me procurar mais, porque eu não ficava com homens casados. Ele que fosse pro inferno que eu não estava nem aí. Porque meu problema de verdade era o Alessandro.

No sábado, quando finalmente coloquei a fuça pra fora de casa, no fim de tarde, eu estava com cara de choro. Olhos inchados, nariz vermelho. Mas melhorei olhando pro mar e pensando. Eu não podia ficar daquele jeito, podia?

Senti uma ânsia imensa por me libertar de todos esses caras babacas que não sabem o que querem ou que pior, querem sacanear os outros. Ao mesmo tempo, pensei: “e eu sou o que? Estou sacaneando a mim mesma aqui parada, chorando por uma história que já morreu há séculos. Ou eu vejo essa história como aquilo que ela é de verdade – uma curtição – ou acabo com ela de uma vez por todas”.

Então, mais calma, fui pra casa e escrevi tudo que eu tinha vontade de falar pro Alessandro. Escrevi, escrevi e pedi, no final que ele não me procurasse mais. Não falei apenas coisas horríveis pra ele, pelo contrário. Falei do quanto ele tinha coisas maravilhosas e por isso me apaixonei por ele, mas também falei das coisas que não gostava e não dava pra conviver.

E mandei.

Detalhe sórdido: quando acabei de mandar o e-mail dei um f5 casual no meu face e lá estava a reposta do Stefano pro meu recado. “Ok, sem problemas”. Simples assim. Quem dera eu também fosse assim tão descomplicada.

Algumas vezes na vida – umas três – eu tive a experiência de fazer  um grande e-mail, dizendo a um dos meus ELEs coisas sobre nossa relação e terminar pedindo o fim. E o fim sempre me foi dado de uma maneira tão direta e simples quanto o “Ok, sem problemas” do retardado do Stefano – o silêncio. Nenhuma resposta. Nada. Nadinha. Dói, porque parece que você não merece nem um “ok, sem problemas”.

Mas com o Alessandro foi diferente. Ele passou a segunda-feira me mandando mil recados de resposta, nos quais dizia muitas coisas, mas duas frases me chamaram a atenção: “eu te amei de verdade” e “eu nunca vou te esquecer”. Me chamaram a atenção por diversos motivos. Porque eu realmente gostei de ler, porque eu podia dizer o mesmo sobre ele, e porque ele era tão cara de pau que eu não podia deixar de rir.

E na terça-feira seguinte à minha grande noite de princesa com Stefano, Alessandro em pessoa estava tocando o interfone da minha casa. E subiu. E nós voltamos mais uma vez para o meio.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Entre surtos e beijos

Eu senti uma mão grande, áspera e quente subindo pela minha canela, escorregando pela panturrilha e chegando até atrás do joelho. Estava de olhos fechados, e tive medo de abrir e descobrir que era o cachorro me lambendo, mas fiquei mais confiante quando lembrei que eu não tinha cachorro. Abri os olhos rapidamente e, para meu espanto e êxtase, ele estava bem ali. Era o Leo Santana, todo sarado, todo lindo e sentado na beira da cama, sorrindo pra mim.

Ele estendeu um pouco o caminho de sua mão até a minha coxa, olhou profundamente dentro dos meus olhos, sorriu com aquela carinha de menino sem vergonha, abriu sua maravilhosa e promissora boca e começou a cantar:

- No rebolation, no rebolation chan chan...

Abri meus olhos para dar de cara com meu quarto abarrotado de coisas, minha cama de solteira e a luz de um poste da rua batendo na minha cara. Mas que droga! Será que eu não podia nem mesmo ter um sonho decente? Como as pessoas normais, eu poderia sonhar que estava fazendo sexo animal, mas até no sonho tinha que ter algo patético. No rebolation! Sinceramente!

Fechei os olhos e tentei me concentrar no Leo Santana, com a boca bem fechada, claro, mas não foi possível. Percebi que o sono não ia voltar e me rendi ao pior dos companheiros de insônia do mundo - o msn.

Entrei e vi que o Felipe estava on. Eu estava realmente ficando preocupada com meu amigo. Ele sempre estava on quando eu entrava, às 8h da manhã, e ficava quando eu saia, e agora eu estava concluindo que possivelmente ele seguia pela madrugada na internet. Chamei ele. Talvez eu até pudesse dar um sermão sobre o risco do vício em internet - perder o convívio social, deixar de fazer sexo normal, etc - e ganhar minha noite com um ato caridoso.

"Perdeu o sono, foi?" - (Foi isso que ele me respondeu.)

"Sim"  - (concordei)

"kkkkk. Eu já tava saindo" - (mentiu descaradamente Felipe)

"O que vc tá fazendo?"  - (perguntei sem rodeios)

"Falando com vc. Pq vc está off line?"

"Estou evitando a fadiga"

"O que??"

"É que não quero que todos os paqueras chatos fiquem me chamando. Eles me cansam. Estou evitando a fadiga"

"Ora Luiza deve estar mt cheio de paqueras essa hora da madrugada no msn, sua maluca..."

"Vc não está considerando que quase todos os meus paqueras são músicos"

"Que tem isso?"

"Músicos não dormem de noite. Só de dia"

"kkkkkkkkkk"

"Vc está no chat? Fala a verdade"

"Não estou mesmo, é sério. Há 3 dias não entro. Estou me sentindo como no AA, de 24 em 24 horas"

"hahahahahahahah. Eu não vou conseguir dormir. Sonhei com o Leo Santana"

"Achei que esse seria um caso pra não conseguir acordar..."

"Seria se ele não tivesse começado a cantar o Rebolation na hora H"

"kkkkkkkk Mas será que nem um sonho decente, ou melhor indecente vc consegue ter Luiza?"

"Muito obrigada pelo apoio, eu não tinha percebido até vc falar..."

"Luiza vc devia fazer com os músicos a mesma coisa que eu estou fazendo com os chats. Comece com 24h, depois mais 24. Até se livrar do vício"

"Mas eu estou fazendo isso. Tem 2 meses que não fico com nenhum músico"

"Pra ser preciso faz 2 meses que vc não beija na boca"

"É a mesa coisa!"

"Claro que não. Vc tem que ficar com alguém pra conseguir largar os músicos"

"Então vc está dizendo que o alcóolatra deve começar a cheirar pó pra largar a bebida?"

(Ele demorou um tempo pra responder essa.)

"Olha, se eu não entrar mais no chat, mas nunca mais sair nem conhecer ninguém, vc diria que me curei do vício?"

"Claro que não!"

"Então inverta isso pra sua situação e vc terá a mesma resposta que me deu"

(Eu demorei um tempo pra responder essa)

“Vamos brincar de príncipe encantado?

“Tá bem. Como é seu príncipe encantado?

“Humm... A cara do Leo Santana”

“O Leo Santana é músico, esqueceu?

“Mas que droga, se meu príncipe não pode ter a cara dele não quero mais brincar disso”

“Ok, revoltada. Você está mesmo na fase surto.”

“O que é ‘fase surto’?

“Nós vivemos em duas fases. A fase surto e a fase em que estamos ficando com alguém.”

“É verdade. Entre surtos e beijos. É assim que nós vivemos”

“Filosofia barata na madrugada. Kkkkkkk”

“kkkkkkkkkk”

“Vamos dormir. Desliga seu MSN que eu desligo o meu”

“Não mesmo. Você desliga primeiro”

“E como vou saber se você não vai entrar on, pra deixar que teus paqueras músicos te chamem¿”

“Ok. Vamos sair juntos. Durma bem e seja forte.”

“Vc também. Caso perceba que vai ter uma recaída me ligue.”

“Vc tb, amigo.”

Voltei pra cama e apaguei a luz. Antes de fechar os olhos, porém, eu pedi pro meu anjo da guarda me ajudar a sonhar com o Leo Santana, sem que ele abrisse a boca dessa vez. Tudo bem que ele é músico, mas sonho é sonho e nos sonhos até os músicos podem se tornar bons paqueras. E quem sabe até, nos sonhos, o amor seja menos complicado.