domingo, 30 de setembro de 2012

Coisas de cabeça e cotovelo (final)



É Lucas quem fala, já que eu perdi a voz:

- Posso entrar, Ana?

"Pode", digo num sussurro de morta-viva.

E ele entra, aceitando meu convite afônico pra se sentar. Eu tropeço nas tiras soltas da sandália e quase me espatifo no chão, antes de me irritar e chutar os sapatos pra fora dos pés, parecendo uma louca. Ele fica ali, parado, me olhando.

- Você vai sair?

Pergunta ele. "Eu vou sair?", penso eu. Até me dar conta que estou com cara semi-rebocada de base, e com um vestido de noite curtíssimo.

- Não vou mais - digo eu, sem pensar.

“Como assim não vai mais? Estava indo atrás de mim?” Certamente foi isso que ele pensou, e tinha toda razão claro, mas fez o favor de não comentar. Ele, aliás, está vestido com calças jeans e uma camisa pra fora da calça, mas uma camisa, que delatou que ele realmente estava pensando na farra, aquele grande filho da mãe. Será que veio me contar que ia pra farra? O que ele quer afinal?

- Bom - digo eu com ar prático - você esqueceu alguma coisa aqui, foi?

Ele me oferece um olhar profundo, com aqueles olhos azuis sem-vergonha, que me amolece por dentro.

- Esqueci, eu acho...

Desgraçado! Desgraçado! Desgraçado! Desgraçado! Veio pegar o que? Uma maldita camisinha que não usamos de manhã?! Que raiva. Veio apenas pegar alguma coisa que esqueceu, e eu pensando que tinha vindo se reconciliar! E ainda falei que não ia mais sair! Que raiva!!!

- Ana - diz ele, levantando e ficando parado em pé na minha frente, se projetando quilômetros acima de mim e me fazendo inclinar a cabeça pra poder olhar no seu rosto de sem-vergonha - eu esqueci...

Calou-se.

- Esqueceu o que?

- Esqueci de dizer...

Novo silêncio.

-Esqueceu de dizer O QUE? - grito, perdendo a linha.

- Esqueci de dizer que amo você.

Um minuto gravação, que vou apertar na tecla pra repetir a mensagem. O que foi que ele disse? Ah, ele disse que me ama... não, eu devo ter entendido mal. De manhã o desgraçado brigou comigo só porque eu sem querer falei o nome do meu ex-namorado e saiu me xingando de infantil pra baixo. E agora vem altas horas da noite, vestido pra festa e diz que me ama? Jesus apaga a luz!

- O que você disse?

- Que eu amo você, Ana. - repete ele, sério. - Amo... - ele se aproxima, me puxa pela cintura e me tasca um beijo. Assim na cara dura. E pior, eu me amoleço até a alma e beijo ele também.

- Por que você me disse todas aquelas coisas? - digo eu, imbecilmente chorando - Eu não falei por mal, foi apenas uma coisa que...

- Que? - faz ele.

- Sei lá, disse achando que não tinha mal!

- Ana, você disse que seu ex-namorado tinha uma bunda linda - ele me solta, mas parece calmo ainda. Eu não tinha me dado conta do absurdo que tinha dito, até ele me jogar isso na cara agora - Você acha que eu não tinha motivo pra ficar brabo sendo que você resolve conversar comigo sobre a linda bunda do seu ex?

É, foi mal... putz e agora? Sou uma idiota completa.

- É que eu acho que não foi bem assim... – falo com cuidado.

- Não? – pergunta Lucas.

- Eu disse que você tinha uma bunda linda, certo?

- Certo, foi assim que começou...

- E continuei falando que sua bunda era a mais perfeita que já tinha visto, não foi?

- É, foi - diz ele com cara de quem puxa a memória. É uma carinha muito fofa.

- E então conclui dizendo que mesmo o bumbum do meu ex, que também era lindo, não se comparava com o seu. Eu estava dizendo que você é melhor que ele. E você não me deixou concluir. Eu ia dizer que a bunda era só um extra. Que você é mais bonito que ele em tudo, e, melhor que isso, que é querido, inteligente, simpático, bem-humorado e bom de cama, coisas que ele não era. Ainda ia finalizar acrescentando que deve ser por isso que você foi o único cara que amei na vida.

Ele me olha de forma profunda.

- Acho que eu fui um idiota ciumento.

- E eu fui uma idiota falastrona. Não precisava comparar você com ele pra dizer que te amo.

Ficamos nos olhando como duas crianças que pedem desculpas por uma travessura. De repente eu me lembro que ele está prontinho pra noite. "Me ama, mas bem que ia cair na balada, né?"

- Você ia sair? - pergunto tentando um ar casual que sai como um ar de policial.

- Não - ele responde sereno - eu sai. Fui até um bar com o pessoal, pretendendo entrar na boate e ver se você estaria lá com seu ex, ou com outro cara. Na verdade, morrendo de medo que isso acontecesse. Mas aí não vi você lá, fiquei maluco pensando onde você estava e resolvi vir pra cá e não deixar que outro cara se aproxime de você.

Ele faz uma carinha de Brad Pitt. Sabe aquela carinha que o Brad Pitt faz quando chora nos filmes? É essa carinha. Meu coração vira uma água e escorre pelo tapete.

- Você ia sair? - pergunta ele olhando para meu vestido curtíssimo.

- Não - respondo eu, mas me corrijo - Na verdade ia. Ia atrás de você, pra ver se você estaria com alguma outra mulher...

Rimos. Primeiro uma risadinha meio besta, depois caímos na gargalhada, até rolar pelo chão. Quando paramos, ele se arrasta sensualmente pelo tapete, até ficar bem perto de mim e tocar meu rosto.

- Por que somos idiotas?

- Porque nascemos assim? - brinco, sorrindo docemente pra ele, que também sorri. E me beija. E me pega pela cintura. E me rola no tapete se deitando sobre mim.

Antes de perder toda a noção de qualquer coisa que não seja ele, penso que é realmente uma benção que Laurin nunca leve a chave quando sai de casa.

- O que é essa... essa tinta no seu rosto, amor? - a voz de Lucas é um sussurro quando ele para um minuto de me beijar e me olha entre louco de paixão, surpreendido e divertido.

- Nada, amor, nada - digo eu puxando ele de novo pra cima de mim.

E nada mais existe. Melhor amor aqui mesmo do que dor de cotovelo em Paris.