sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Coisas de cabeça e cotovelo (Parte 2)


Depois do momento auto-piedade divertida misturada com besteirol para fugir do assunto, caio de novo na fase neura. Onde será que está este desgraçado do Lucas? Sábado de noite, uma hora dessas... certamente está se preparando pra entrar numa boate bem inferninho, depois de ter enchido a cara num boteco com aqueles amigos festeiros. E é claro que lá dentro ele não vai perder a oportunidade de arrumar rapidinho uma mocreia bem vadia e levar alguém diferente pra cama hoje, depois de tanto tempo só comigo. Ou talvez ele já estivesse me traindo, e eu que achava que era só comigo... talvez ele já leve sua nova namoradinha junto com ele pra boate inferninho.

Pior! Talvez ela não seja uma vadia. Talvez seja uma princesinha doce com cara de Barbie e voz de menininha que não foi pra cama com ele e ainda vai demorar pra ir, como manda a cartilha das meninas com cara de Barbie, e ele esteja com ela num restaurante romântico, ao som de violinos. Esta cena me leva à loucura. Desgraçado. Ele nunca contratou violinos pra mim! Começo a chorar arrasada por ele ter se apaixonado tão perdidamente pela Barbie. Como isso pode acontecer? Como posso competir com ela? Eu não tenho cara de Barbie, e nem demorei nada pra ir pra cama com ele. Na verdade, só não fui de primeira porque estava naqueles dias. Que mulher fácil eu sou. Como poderia querer que ele namorasse uma criatura que nem eu. Sou um nada perto da doce Barbie.

Aninho a cabeça nos braços e choro me odiando por uma eternidade.

Sabe do que mais - penso, dando um pulo da cama e derrubando as barras de chocolate que estava me dedicando a devorar compulsivamente - não vou ficar aqui engordando, enquanto esse cafajeste barato se diverte com a primeira que encontra na esquina. Ele vai ter que olhar na minha cara. Pode ficar com a Barbie, ou com a mocreia, mas vai ter que ser na minha frente, enquanto eu encaro ele, com um olhar superior de "não estou nem aí pra você, seu besta". Nem que eu tenha que me tornar digna de ganhar o Oscar pra conseguir fazer este olhar.

Melhor! Vou ficar com outro na cara dele. Mesmo que não seja nenhum Brad Pitt, não sendo nenhum drogado atirado na porta do bar pedindo um troco pra converter instantaneamente em crack, ele vai se morder com qualquer um que eu apareça. Todo homem se morde. É isso. Vou colocar aquele vestido preto tão curto que por pouco não deixa o bumbum de fora, uma maquiagem de boneca de porcelana pra esconder essas drogas de marcas de lágrimas, um perfume doce e saltos altos, e quero ver se não arrumo um idiota pra fazer ciúmes. Ele pode ficar com a mocreia boa de cama ou com a Barbie inocente, mas não vai ficar sem aquela lembrancinha de me ver com outro cara agulhando a cabeça dele.

Não que ele goste de mim. Certamente nunca gostou. Prefere, é claro, se intercalar entre uma Barbie e uma mocreia, e não uma criatura tão sem sal como eu. Será que ele vai mesmo se importar se eu ficar com outro? Bom, não sei, mas pelo menos EU vou ficar me sentindo melhor.

Passo o vestido-preto-tomara-que-eu-arrume-um-idiota-pra-fazer-ciúmes pela cabeça, calçando os sapatos, enquanto vou pegando uma base carinhosamente conhecida como reboco. Quando estou começando a espalhar aquela massa compacta no rosto, com manchas de base apenas de um lado, toca a campainha. "Droga", digo pra mim mesma, "a Laurin nunca leva essa droga de chave". E saio arrastando as tiras da minha super sandália até a sala, onde, de uma só vez escancaro a porta, já me virando pra voltar ao quarto.

Mas me dou conta que a pessoa parada na porta é muito, muito mais alta que Laurin. Viro novamente e dou de cara com um homem muito bonito, de olhos azuis escuros, pele morena, e cabelos meio crescidos caindo de forma displicente pelo rosto. Ele é lindo. Nossa como é lindo! E ele também é o Lucas. Parado ali na minha frente, na porta da minha casa, sem nenhuma Barbie e sem nenhuma mocreia ao seu lado. (...)