sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Uma semana e meia de amor


Cheguei em casa batendo portas e esbaforida. Minha cabeça estava a mil. Isso porque o Stefano tinha acabado de me ligar confirmando que vinha. Nada mal para uma terça-feira.

Eu conheci o Stefano na noite, e eu já sei o que você vai dizer. “Boates não são lugares bacanas pra se conhecer caras legais.” Ok, eu concordo, mas não estava espertando conhecer um cara legal quando conheci o Stefano. Eu não estava esperando conhecer cara algum, pra dizer a verdade. Estava apenas na minha, querendo dar um jeito de voltar a viver, depois de um período de deprê total, e voltar a viver, você deve concordar, inclui dar uma saída básica com os amigos.

Pois lá estava eu, na minha saída básica com amigos, quando ele surgiu na minha frente. A cantada foi barata. Eu pisei no pé dele e pedi desculpas, e ele respondeu que só desculpava com um beijo, que eu, evidentemente não dei. Mas o papo fluiu e pimba! Ficamos.

A noite foi muito bacana e terminou num boteco já de manhã, no clássico estilo “adeus fase deprê”. Evidentemente, Stefano queria que eu prolongasse mais a noite, ou o dia, em alguma cama disponível, mas eu não tava a fim. Então me despedi de Stefano com pretensão zero de vê-lo outra vez na vida.

Isso porque ele não morava na mesma cidade que eu, estava apenas hospedado por uns dias num lugar próximo, a trabalho. Iria embora em seguida, e os dias que ainda ia ficar na Bahia seria em outra cidade, o que não deixava muita chance de nos encontrarmos outra vez. Como não trocamos telefone, me despedi com a sensação de uma noite muito bacana, de curtição sem expectativa.

Acontece que, dois dias depois, ele me achou no facebook (bendita tecnologia!!!), e agora ele estava fazendo uma pequena viagem de uma hora e meia pra passar a noite comigo e voltar às 5h da matina pra trabalhar.

Comecei a arrumar a casa, pois era evidente que eu não podia receber o cara com aquela bagunça, mas então me dei conta que eu não estava com a depilação 100%, e nem tinha tomado banho ainda. Decidi fazer uma lista de prioridades. O que era pior, a casa bagunçada ou meu corpo em condições precárias?

Depois dessa reflexão, entrei correndo no banho. Ao sair, com a etapa  depilação e higiene ok, comecei a analisar o que era mais importante, estar bonita ou com a casa arrumada?

Como resposta a esta pergunta, comecei a escolher uma roupa. Tinha que ser uma roupa com cara de “estou em casa”, mas que não fosse exatamente uma roupa do tipo shorts rasgado e blusa desbotada. Optei por um vestido solto, mas curto, estilo despojado, mas que deixava minhas pernas em evidência. Rasteirinha, um pozinho discreto pra esconder as olheiras, e um rímel de leve.

Só então começou a etapa casa, e eu conclui que o mais importante seria arrumar a cama, já que era nela, evidentemente, que passaríamos uma considerável parte da noite. Ainda consegui lavar a louça e dar uma varrida antes dele chegar.

Eu, que não estava esperando muita coisa desse encontro, mudei de ideia quando acordei com os cantos dos lábios pregados nas bochechas, depois de uma noite quase em claro, e fui para o trabalho, suspirando.

A noite tinha sido quase perfeita. A conversa (sexo é maravilhoso, mas todo mundo sabe que é a conversa que faz uma mulher se apaixonar por alguém ou não) tinha sido perfeita, leve, séria, profunda, despretensiosa e intensa. Acho que na verdade conversamos mais do que transamos. Mas isso não quer dizer que não transamos. Mas também falamos, falamos e rimos... e tudo foi incrível.

Comecei então, a percorrer o caminho clássico. Tudo começou com uma conversa comigo mesma:

- Ele vai embora em alguns dias, Patrícia. Isso encerra o assunto?

- Como assim encerra o assunto? Por acaso as pessoas só se apaixonam por quem mora perto de sua casa? Será que não se pode dar um jeito? Eu e o Pablo, por exemplo, demos um jeito.

- Exatamente, Patrícia, sua desmiolada. Você acabou de terminar um namoro à distância e vai querer começar outro?

- Não é que eu queira começar outro, dona Patrícia! É que as coisas acontecem sem a gente prever! Se nós nos apaixonarmos? Hein, hein? Se fugir do nosso controle?

- Patrícia quando você vai aprender! Você ficou com o cara duas vezes e já está falando em paixão! Você não sabe nada sobre a vida dele!

- O que você está querendo dizer?

- Você sabe se ele não tem uma namorada? Ou talvez até seja casado.

- Casado? Casado? Ele não é casado... Você acha que ele é casado?

- Pode ser.

- Mas nada na conversa dele demonstrou que ele tenha algum compromisso. Ele falou o tempo todo dos planos dele, da vida, como se ele fosse uma pessoa livre.

- É, mas você viu o recadinho suspeito no face dele, não viu?

Foi o recadinho estranho que estragou minha alegria. Isso porque eu tinha visto sim. Era um recadinho de um cara que chamava Stefano de cunhado. Eu tinha visto, mas supus que o cara fosse casado com a irmã dele. Afinal, ele não estava como casado no face. Nem como namorando, nem como nada. Então era óbvio que se tratava do marido da irmã dele, não era?

Só que a pulga ficou dando mordidas nada discretas atrás da minha orelha. E como eu queria fazer ela parar, fui fuçar no face dele. E quem procura acha, e eu achei. Achei uma “amiga” dele chamada Flávia, que tinha no perfil uma foto com ele. Lá estavam os dois abraçados e sorrindo. Pra não facilitar as coisas pra mim, a desgraçada tinha um face todo fechado pra não amigos. Mas eu não pude deixar de reparar que o sobrenome dela era Alves. E, pasmem, o nome do filho da puta era Stefano Alves. Que nota vamos dar pra isso?

Caso isso deixasse alguma dúvida, do tipo “pode ser a irmã dele”, o outro sobrenome da Flávia era o mesmo que o do cara que chamou o Stefano de cunhado. Pra deixar claro: o nome do cunhado era Alexandre Freitas, o nome do Stefano era Stefano Alves, e o nome da excelentíssima esposa era Flávia Freitas Alves.

Ao céu e ao inferno em menos de 12h. Meu estado de espírito era tão confuso que fui obrigada a chamar Edson. Edson é o meu mega-super-hiper-amigo-do-trabalho. É muito bom contar com ele, embora não seja uma pessoa muito presente na minha vida fora do trabalho, mas toda vez que eu sofro de uma incapacidade temporária de me manter no trabalho, e que poderia me levar e simplesmente pegar a bolsa e ir embora, sem dar uma explicação, e evidentemente ser demita, eu chamo Edson e ele segura a barra. Contei meu drama pra ele. E fiquei realmente chocada quando lágrimas começaram a escorrer grossas pelo meu rosto.

- Você vai chorar por causa desse cara, Pati? Aí eu vou ser obrigado a duvidar da sua inteligência.

Foi o que Edson me disse, e pode parecer que foi apenas um clichê, mas isso me fez lembrar que a minha inteligência estava sendo solicitada por umas 25 demandas diferentes naquele momento, e que eu ia ter que deixar pra me surpreender com o descaso dos homens em relação aos seus casamentos mais tarde.

Só que eu realmente me surpreendo com isso. Fiquei me sentindo meio estranha, como se eu não tivesse razão pra fazer drama, mas honestamente, eu fico chocada com uma coisa desse tipo. Desculpem os moderninhos desacreditados da vida de plantão. Mas eu acho sinceramente que é muita sacanagem você, na primeira oportunidade que tem, sair pela noite caçando uma transa, e passar horas na companhia de outra mulher, falando de sua vida, trocando confidências e transando, como se não tivesse uma pessoa que você jurou respeitar achando que você tá trabalhando e morrendo de saudades dela.

Isso que eu não estou nem considerando o fato dele não ter mencionado pra mim que era casado, não me dando a escolha de sacanear ou não uma pessoa que eu nem conheço. Mas se ele não tem respeito pela própria esposa, como eu poderia esperar que tivesse por uma estranha, não é mesmo?

Enfim, a vida continuou, e na quinta ele me chamou no face. Eu não respondi, sai fora, sem saber o que fazer, porque não achei que ele fosse dar as caras de novo. Depois pensei que queria falar com ele mais uma vez. Não pessoalmente. Eu nunca mais queria ver a cara do Stefano na minha frente. Estava com um nojo tão grande dele que lavei a toalha que ele usou, troquei lençóis e passei álcool no copo que ele bebeu.

Mas queria falar com ele no face ou no telefone, e poder dizer casualmente:

- Ah, uma pergunta. Você é casado?

Só queria ver se ele ia dizer sim ou não. Só isso. Um pequeno teste para medir o tamanho da cara de pau dele.

Por isso dei uma cordinha. Repondi o recado dele do face perguntando se ele já estava em SP ou se ainda ia ficar mais na Bahia. Ele não estava on.  Me respondeu depois que ficava mais uns dias na Bahia.

Deixei o assunto em suspenso por um acaso do destino, esse ingrato. Estava eu voltando de uma reunião, caminhando perto do trabalho, quando ouço alguém gritar meu nome, de dentro de um carro. E quando olhei, era nada mais nada menos que ELE.

Evidentemente que ELE não era Stefano. ELE, assim mesmo, em letras maiúsculas, é ELE. Aquele cara que é o seu grande problema. Aquele cara que quando aparece não tem pra ninguém. Aquele cara com quem você tem uma história que tem começo, mas depois disso tudo é meio e fim, e meio e fim de novo, e meio de fim outra vez, só pra depois voltar pro meio. É aquele cara que faz seu coração disparar, e o meu coração disparou quando eu vi Alessandro dentro do carro, me olhando com uma cara de quem não sabia se eu ia xingá-lo, abrir um sorriso ou sair correndo, e eu sai correndo.

Gritei um oi-tudo-bom, virei as costas e sai dali. Nós estávamos num momento fim, mas na hora que ele gritou meu nome, nós voltamos mais uma vez pro meio.

Pouco depois da minha fuga, começaram as mensagens do estilo não-me-conformo-que-perdi-você, de ambas as partes. Coisa do tipo: “Meu coração disparou quando te vi”, e daí até o clássico: “Vamos conversar pessoalmente sobre isso?”.

E eu respondi sim. Estava chorando, em pleno trabalho, as lágrimas transbordando dos meus olhos, e eu secando, tentando ser discreta, mas nem o Edson podia me salvar. O destino tinha trazido ELE de volta e eu estava chutando o balde.

Acontece que o meu momento chuta-balde não deu certo. Isso porque quando eu respondi sim, ele me rebateu um “que ótimo, no domingo nos vemos pra conversar então”. Veja bem. Analise com calma a situação. Era uma sexta-feira. E ele, depois de apelar pro coração disparado pra me convencer a falar mais uma vez sobre nós dois, queria passar o fim de semana inteiro fazendo sei lá o que, e me pegar pra conversar no domingo.

O triste é que hoje em dia não existe mais romantismo. Nada de atitudes súbitas, alucinadas, imediatas. Tudo programado, preferencialmente pra depois da farra. É um saco.

Naquela noite, eu me encontrei novamente com a depre. Fazer o que?

Eu tentei não fazer isso, fui pra farra com os amigos do trabalho, ri, me diverti, mas eu já tinha me perdido. Toda hora minha angustia dava uma fisgada no peito, e quando eu cheguei em casa, lá estava a depre me esperando, e eu cai nos braços dela e chorei. Chorei e chorei, e em meio às lágrimas eu abri o face e deixei um recado pro Stefano dizendo que ele não devia me procurar mais, porque eu não ficava com homens casados. Ele que fosse pro inferno que eu não estava nem aí. Porque meu problema de verdade era o Alessandro.

No sábado, quando finalmente coloquei a fuça pra fora de casa, no fim de tarde, eu estava com cara de choro. Olhos inchados, nariz vermelho. Mas melhorei olhando pro mar e pensando. Eu não podia ficar daquele jeito, podia?

Senti uma ânsia imensa por me libertar de todos esses caras babacas que não sabem o que querem ou que pior, querem sacanear os outros. Ao mesmo tempo, pensei: “e eu sou o que? Estou sacaneando a mim mesma aqui parada, chorando por uma história que já morreu há séculos. Ou eu vejo essa história como aquilo que ela é de verdade – uma curtição – ou acabo com ela de uma vez por todas”.

Então, mais calma, fui pra casa e escrevi tudo que eu tinha vontade de falar pro Alessandro. Escrevi, escrevi e pedi, no final que ele não me procurasse mais. Não falei apenas coisas horríveis pra ele, pelo contrário. Falei do quanto ele tinha coisas maravilhosas e por isso me apaixonei por ele, mas também falei das coisas que não gostava e não dava pra conviver.

E mandei.

Detalhe sórdido: quando acabei de mandar o e-mail dei um f5 casual no meu face e lá estava a reposta do Stefano pro meu recado. “Ok, sem problemas”. Simples assim. Quem dera eu também fosse assim tão descomplicada.

Algumas vezes na vida – umas três – eu tive a experiência de fazer  um grande e-mail, dizendo a um dos meus ELEs coisas sobre nossa relação e terminar pedindo o fim. E o fim sempre me foi dado de uma maneira tão direta e simples quanto o “Ok, sem problemas” do retardado do Stefano – o silêncio. Nenhuma resposta. Nada. Nadinha. Dói, porque parece que você não merece nem um “ok, sem problemas”.

Mas com o Alessandro foi diferente. Ele passou a segunda-feira me mandando mil recados de resposta, nos quais dizia muitas coisas, mas duas frases me chamaram a atenção: “eu te amei de verdade” e “eu nunca vou te esquecer”. Me chamaram a atenção por diversos motivos. Porque eu realmente gostei de ler, porque eu podia dizer o mesmo sobre ele, e porque ele era tão cara de pau que eu não podia deixar de rir.

E na terça-feira seguinte à minha grande noite de princesa com Stefano, Alessandro em pessoa estava tocando o interfone da minha casa. E subiu. E nós voltamos mais uma vez para o meio.