segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Vida de princesa


Imagine a situação. Você, princesa solitária, está caminhando na rua e pensando em homens, claro, de repente tropeça numa pedra, quebra o salto, leva o maior tombão, e cai estatelada no chão. Fica por alguns segundos ali pensando em quem vai tentar matar por isso ter acontecido, quando ouve uma voz linda, rouca e altamente máscula dizendo, enquanto uma mão forte e gentil e ajuda a levantar:

- Você está bem?

Você então volta seu rosto para ele. Ele é alto, tem os olhos verdes como esmeraldas, é loiro, pele bronzeada, lábios perfeitos, nariz másculo, sobrancelhas marcantes. Por um minuto você pensa: “Será que dei a sorte de ser socorrida pelo Brad Pitt?”, mas se dá conta que o Brad Pitt não poderia falar português sem sotaque algum, o que aumenta sua sorte já que sua concorrente direta não será a Angelina Jolie.

Pensando que deve estar amarrotada, empoeirada e completamente micada por cair como uma jaca podre no meio da rua, você recorre à primeira técnica feminina no caso de tombos completamente vexatórios na frente de homens lindos - faz charme.

- Ai, acho que machuquei meu pé... – diz fazendo cara de dor ao colocar o pé no chão.

Ele cai como um patinho, claro, todos os homens caem, ou talvez eles só sejam tão fingidos quanto a gente.

- Se apóie em mim – diz ele conduzindo-a até um degrau próximo onde você pode se sentar, e é então que você aproveita pra avaliar o resto e percebe que ele é forte, tem músculos definidos e parece ter um corpo realmente lindo, e, o que é melhor, está extremamente bem vestido. Ele se coloca à sua frente e pede pra você tentar mexer os dedinhos do pé e você se divide entre agradecer ao seu anjo da guarda por ter ido ao salão no dia anterior e especular se ele é médico.

- Acho que está tudo bem, foi só o susto. – diz você sorrindo seu melhor sorriso de menina meiga, enquanto mostra pra ele que consegue mexer seus dedinhos.

Ele também sorri e você vê que é dotado de um sorriso maravilhoso, de dentes brancos e perfeitos, tipo comercial de pasta de dentes. “Esse cara é viado”, conclui logo, ao imaginar que você não poderia ter tanta sorte de encontrar em cara maravilhoso daqueles e ter caído justamente na frente dele, e ele ter parado pra socorrê-la e ainda por cima não ter aliança em nenhum dos dedos (é claro que é dispensável dizer que essa foi a primeira coisa que você procurou ver assim que viu como ele era lindo).

- Você mora perto daqui? – pergunta ele, assim do nada, e você pensa “eu sabia que era falsificado. Será que já quer se convidar pra ir pra minha casa assim na luz do dia?”

- Moro – responde você com um olhar fulminante do tipo “cafajeste, eu não vou te convidar pra ir na minha casa não, viu?” – Por quê?

- Porque você vai ter que trocar de calçado – responde ele com um sorriso – posso te dar uma carona até sua casa e você troca, e depois, se for caminho, posso te levar onde você estava indo.

Você está certa de que isso é uma desculpa pra ele tentar subir no seu apartamento, e tentar obviamente levá-la para a cama e dar uma rapidinha no meio do dia, mas, olhando pra ele e vendo como ele é gato resolve arriscar.

- Mas não vai te atrapalhar? - pergunta com cara de inocente. Ele sorri e você pensa que ele realmente é um gatooo. Começa a ponderar a possibilidade de aproveitar, caso ele seja só um idiota procurando sexo.

- Não vai não, eu já estava indo pra casa. Venha, eu te ajudo. – ele lhe apóia novamente pra lhe levar até o carro, e então você contabiliza mais dois dados importantes a respeito dele. Um, é muito estranho que ele esteja indo pra casa às três horas da tarde. Dois, ele tem carro.

Quando ele começa a dirigir calmamente, depois de perguntar seu endereço, você procura discretamente indícios de que ele seja casado. Mas não tem cadeirinha de criança, chocalhos ou mamadeiras, brincos de mulher, adesivos femininos, casacos, nada que aponte uma condição “pai de família”. Também não há latinhas de cerveja, camisinhas, calcinhas, nada que insinue a condição “solteiro caído na buraqueira”.

- Você também mora por aqui? – pergunta você pra entrar em um assunto pessoal.

- Moro quase perto daqui. - diz ele rindo e contando que mora em um bairro perto do seu.

Vocês começam a conversar e ele conta que é diretor de uma conhecida ONG da cidade, e está de folga naquele dia (ou seja, é bonito, tem uma profissão, e ainda por cima é um cara consciente e que ajuda o mundo a ser melhor. MEU DEUS!!!), que é de fora e mora sozinho há 3 anos na sua cidade (ou seja, não é casado e de quebra não mora com a mamazinha!!!). Você também conta de seu trabalho, que mora com uma amiga... bla, blá, blá.

Chegam a frente da sua casa, ele estaciona e pergunta:

- Você está bem mesmo? Consegue caminhar?

“É agora que ele vai pedir pra subir”, pensa você.

- Consigo sim – “ele vai dizer que em todo caso é melhor me ajudar a subir.”

- Nesse caso vou esperar você aqui, tudo bem?

Você fica alguns segundos olhando pra ele meio apavorada, enquanto cogita outra vez a possibilidade de ele ser gay.

- Tudo bem – diz sorrindo.

Você então sobe, calça seus sapatos mais lindos, retoca a maquiagem, dá um gás na escova do cabelo e no perfume e só não muda de roupa pra não ficar estranho. Depois de 20 minutos volta pro carro pensando se ele não encheu o saco e foi embora, mas não, ele está lá e, quando pergunta se demorou, ele responde que não muito. “Com certeza é gay”, lamenta você, já imaginando que deve apresentá-lo pro seu amigo.

Ele então pergunta onde você estava indo, você diz que ao shopping, ele sorri e a leva até lá. Ao invés de dar apenas uma carona pergunta se você quer companhia e anda contigo por algumas lojas, carregando seus pacotes. Você tem tanta certeza que ele é bicha que liga pro seu amigo e diz que tem alguém muito especial pra apresentar pra ele, que fica empolgadíssimo.

Mas, enquanto vocês lancham no restaurante na frente do shopping (que foi uma sugestão dele, que, como você, detesta comer no meio do barulho das praças de alimentação de shoppings), você o analisa e pensa que ele realmente não parece viado. “Mas deve ser”, tenta se convencer. Quando ele lhe leva em casa, pára na frente do seu prédio e diz:

- Eu gostei muito de conhecer você.

Silêncio. Você sorri verdadeiramente encabulada, e responde:

- Eu também.

Então ele lhe olha com profundidade, mas não uma profundidade do tipo “quero te pegar todinha”, mas uma profundidade do tipo “você é muito especial”, e fala as palavras mágicas:

- Podemos nos ver de novo?

Você ainda desconfia que ele é viado enquanto trocam telefones, mas começa também a imaginar que talvez ele seja impotente.

No dia seguinte ele te liga pra dizer que pensou em você durante o dia, e marca um jantar na sexta-feira. Enquanto você se arruma toda empolgada, empilhando vestidos que te deixam gorda num canto do quarto, seu amigo gay avisa pra tomar cuidado porque não está convencido ainda de que ele não é uma bicha enrustida. Você, apesar de feliz, está ainda com o pé atrás e diz pro seu amigo não se preocupar porque está atenta a tudo.

E está mesmo, até a segunda hora do encontro, porque depois de conversar com ele, ver o sorriso dele, olhar nos olhos dele durante duas horas, você sabe que ele é o príncipe encantado. É ele, o homem pelo qual você esperou a vida toda, sua alma gêmea. Mas falta um detalhe muito importante. Como é o beijo?

Essa pergunta te acompanha até a hora que ele te convida pra ir até a beira do mar olhar a lua, e vocês ficam em silêncio olhando pro céu com cara de bobos, pra não dizer que saíram logo se agarrando. Ele fala sobre o céu, você fala sobre a lua, ele fala sobre as estrelas, e depois vira o rosto pra você. Você olha pra ele, que segura de leve sua nuca, sorri e fala alguma coisa que você nunca vai lembrar antes de encostar os lábios nos seus e você constatar que aquele é o melhor beijo que já deu na vida. Chega a ser indecente de tão bom, ao mesmo tempo que não é um beijo do tipo “vou te sugar pela boca”, e também não é um beijo do tipo “vou te beijar delicadamente porque você parece de cristal”. É um beijo. Um beijo apenas, um beijo com desejo, com carinho, com vontade, com ternura, com paixão, com... tudo.

Enquanto você caminha pelas nuvens, vocês continuam saindo, ele é cada vez mais maravilhoso, você entra em êxtase e é a mulher mais feliz do mundo, depois entra em crise e tem certeza que ele está te enganando, depois vem a TPM e você chora lembrando do seu cachorro que morreu atropelado quando você tinha 3 anos, pra no outro dia gritar com ele no telefone dizendo que não vai sair de jeito nenhum porque está tão gorda que não caberia no carro. Ele entende tudo, conversa com você depois do seu ataque, faz as pazes e te leva pra sair.

Aí vem o dia derradeiro, e, depois de uma noite romântica e maravilhosa ele te convida pra passar o fim de semana em uma praia. A viagem é linda, e o sexo é tão perfeito quanto o beijo. Mas aí vem a prova mais crucial.

Ele te deixa em casa, vocês se despedem com um longo beijo e aquele diálogo clássico:

- Adorei o fim de semana – diz ele querendo dizer na verdade que adorou o sexo.

- Eu também - responde você com cara de pastel, querendo dizer que também gostou do sexo.

Aí vem o dia terrível e a prova final. Você acorda já querendo que seja umas 10h pra já ser possível ele ligar, mas são apenas 7h da manhã. Passa o tempo até o meio-dia e nada. Claro que ele não ia ligar de manhã, né? Tudo bem.

Você almoça correndo e graças a Deus já é de tarde. O relógio se arrasta. Tic-tac, tic-tac, e nada de telefone tocando. Tudo bem ele está trabalhando. Sabe que você também está. Não ia ligar no meio do trabalho, ia? Tudo bem.

Seis horas. Seis e dez. Seis e quinze. Mas que droga! Ele sabe que você sai às seis. Ele também sai às seis. Por que não ligou ainda? Você vai pra casa sacolejando no ônibus e limpando discretamente as lágrimas. Sabia que ele não ia ligar. Era fatal. Fim de semana maravilhoso de sexo=dia posterior sem ligação. Agora está tudo perdido. Um dia ele vai ligar de novo, claro. Quando estiver meio a perigo e não tiver um nome mais interessante na lista, vai ligar e dizer que o cachorro comeu seu celular, que teve que entrar em contato com a operadora, subornar várias pessoas, e assim conseguiu seu telefone outra vez...

Você anda do ponto até seu prédio como se estivesse com um piano nas costas. A solução é colocar um pijama horrível, pedir inúmeras tele-entregas e ligar pro seu amigo gay que vai discorrer sobre como ele só faz isso com as mulheres porque na verdade é uma bicha enrustida. Mas quando você chega na porta do prédio, eis a surpresa. Você pensa que é uma miragem, esfrega os olhos, mas não é. Ele está lá, paradinho, com um buquê de rosas vermelhas nos braços e sorrindo. Quando você chega perto, ele fala que não resistiu, tinha que vê-la. Depois de mentalizar fortemente que não pode desmaiar você se recupera. E sorri, radiante.

Daí pro altar é um pulo. Numa linda tarde de sábado vocês fazem uma perfeita festa de casamento, à beira mar, com direito a vestido branco, arroz e Ave Maria. Logo você, que achou que estava irremediavelmente encalhada!!! Quando você joga o buquê suas amigas se matam tentando pegar, pra ver se pegam com ele um pouco da sua sorte, mas ele acaba parando nas mãos do seu amigo gay.

A noite de núpcias é perfeita, a lua de mel é um sonho pela Europa, e você é a mulher mais feliz do universo. Voltando da lua de mel, como o combinado, vocês vão morar na casa dele, previamente reformada e adaptada para receber a esposa tão especial.

No primeiro dia de casados em casa mesmo, você acorda depois de uma longa noite de sexo maravilhoso e se espreguiça enquanto vê ele entrando com uma bandeja de café da manhã. Você realmente é a mulher mais sortuda do universo. Será que tem mais coisa além do universo pra você ser ainda mais sortuda?

Ele sorri, e senta na cama para tomar café com você, depois se arruma enquanto você ainda rola na cama, admirando seu lindo marido, já que ainda está de férias. Ele vem e a beija nos lábios, dizendo que a ama e vai voltar correndo pros seus braços no final do dia. Você se vira na cama pensando em dormir e sonhar com sua vida de princesa, quando o controle remoto da TV cai no chão. Você preguiçosamente tateia embaixo da cama, mas como não acha nada coloca a cabeça pra fora e espia. Fica horrorizada. Apavorada. Respira e fecha os olhos fortemente, mas quando os abre ele ainda está lá.

Há um penico embaixo da cama. Um penico, e pior, um penico cheio de xixi. Meu Deus, pensa você, como pode? Em todo esse tempo de namoro jamais vi esse penico! Não o penico certamente não é dele. O problema é o xixi... se o penico não é dele, de quem é o xixi? Apavorada você passa o dia angustiada. Pensa em ligar pra ele e perguntar sobre o penico, mas seu amigo gay acha que isso não é uma boa idéia. Melhor é você fingir que está dormindo e ver se ele vai usar o penico no meio da noite.

E é isso que você faz. Ele te acha estranha quando chega, pergunta se está tudo bem, e você resmunga: “está”. No jantar você quase não fala, fica imaginando se ele levanta e faz xixi no penico ou se senta no penico pra fazer xixi. O que seria pior?

Ao deitar, você inventa a famosa dor de cabeça pra evitar o sexo. Não poderia transar com o penico na cabeça. Ele fica morrendo de pena, traz um remédio pra você, se deita ao seu lado, faz conchinha e dorme fofamente te abraçando. Você quase nem respira. Quando pensa que vai passar a noite em claro em vão, ele se mexe na cama. Senta, olha pra você que finge dormir, depois abre um olho no escuro. Ele então tateia embaixo da cama, encontra o que procurava, segura o penico, mira e .... você ouve o fatal barulho:

Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

Como diria meu amigo Rico: Acorda Cinderela!!!

É hora da vida real. Não existe conto de fadas. Não existe príncipe encantado. Você também não é nenhuma princesa.

A verdade é que todo mundo têm defeitos, maus hábitos, e aquela baita gato ali do lado pode ter bafo sim. E talvez, ainda assim, ele seja sua cara metade e lhe faça muito feliz. Ninguém é perfeito, e a vida está aí pra nos provar isso a cada dia. Se nós ficarmos esperando esse príncipe ou essa princesa maravilhosos, é muito provável que passemos nossas vidas sozinhos e tristes pela frustração de não achar. E o pior, é bastante possível um dia nos darmos conta que deixamos de lado pessoas reais e incríveis, que podiam nos dar muita coisa boa, só não podiam nos dar a perfeição.

Então, é hora de acordar, mesmo que o príncipe não venha te beijar pra que isso aconteça. Esse sapinho aí do seu lado, com todos os seus defeitos, pode ser muito mais divertido que um sonho.

E se vocês querem saber o que aconteceu com nossa amiga princesa, ela e seu príncipe fizeram um trato. Ele não usa mais o penico em cima da cama e acorda antes que ela pra despejar e lavar, e ela nunca mais olha embaixo da cama e nem toma conhecimento do penico. E eles ainda vivem felizes. Se é pra sempre, ninguém sabe.