segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Loucura pouca é bobagem

Sábado, 22h, Gabriela está em casa ouvindo uma música de meditação (pra ver se a ajuda a dentro de instantes ter um sono fatal e se conformar melhor com a ideia de que não vai sair) e dando uma olhada no face (pra ver que outros infelizes como ela estão sem programação num sábado), quando seu telefone toca. 

O coração quase salta pela boca, e ela se permite um instante de deliciosa expectativa. Será Pablo, o paquera número 1, arrependido de ter brigado com ela por um motivo besta, só pra poder ir no show do Aviões do Forró (eca!) sozinho com os amigos¿ Será Vitor, o paquera número 2, que depois de 2 anos só aparecendo em dias de semana resolve dar as caras num sábado¿ Será Angelo, uma possível novo paquera¿ Ou será algum paquera do passado, ressurgido em pleno sábado¿

Gabriela não conseguia decidir o que deseja mais, mas resolve atender logo o telefone quando se deu conta que podia ser sua mãe, ou alguma ligação de telemarketing, já que eles estavam cada vez mais ousados, ligando até mesmo nos sábados. Com alguma esperança de salvar sua noite, ela pega o aparelho e constata que o X será marcado em “nenhuma das alternativas anteriores”, pois era Sabrina. Possivelmente, porém, isso poderia salvar seu sábado, já que, apesar de estar namorando, a amiga podia ter se lembrado dela, e 

Gabriela estava num ponto tal que aceitaria de boa sair segurando vela. 
- Alo! 

- Oi Gabi! Você está podendo falar¿

Ela riu. Estava podendo fazer qualquer coisa, já que não tinha absolutamente nada para fazer.

- Sim, estou. Que houve¿

- Olha, eu não aguento mais! Isso é insuportável!  - uma pausa dramática se fez, ao término da qual Sabrina continuou. – Eu não tenho condições de aguentar uma coisa dessas. Por que¿ Me diga por que esse tipo de coisa acontece comigo¿

Gabriela não estava entendendo nada, mas ficou imaginando se Pedro, o novo namorado de Sabrina, teria aprontado alguma. Ele, porém, era tão apaixonado por ela e tão fofo, delicado e querido que Gabi não queria acreditar que pudesse ter aprontado. Seria tipo o fim das esperanças. 

- O que houve amiga¿  - repetiu a pergunta.

- É o Pedro! – disse Sabrina, e Gabi sentiu seu coração gelar. – Eu não suporto mais!

- O que ele fez¿ - perguntou Gabi, desanimada. A última coisa que queria era descobrir que Pedro era alguma espécie de galinha, disfarçado de bom moço, ou algo pior, mas não podia deixar de ouvir a amiga.

- Não, tu não vai acreditar! Olha, é demais, demais! Eu realmente penso que tipo de pecado eu estou pagando, por que não pode ser que eu mereça isso!

Nesse ponto, Gabi já estava se perguntando se Pedro seria um assassino em série ou um pedófilo.

- Sim, mas o que foi que ele fez, afinal¿ - perguntou, dando um tom levemente autoritário à voz, na tentativa de fazer a amiga parar com aquele ataque e falar logo.

- Olha, é tudo, tudo!  - começou Sabrina. – Tu pode acreditar que ele me liga todos os dias¿ TODOS! Sem falta, pelo menos uma vez por dia. As vezes até duas ou três!

Gabi ficou completamente perdida. Isso não era o que ela, Sabrina e todas as suas amigas desejavam constantemente¿ Não tinha sido a própria Sabrina que dissera um dia, aos choramingos, se referindo a Breno, seu último ficante: “ele podia pelo menos mandar uma mensagem de celular por dia. Isso é pedir muito¿”.

- Bom, mas qual é o problema nisso¿ - perguntou Gabi. 

- O problema é que é um SACO! – bradou Sabrina. – Ele não liga pra falar nada especial, liga só pra “saber como eu estou”. Ora, ele não me dá nem tempo de mudar de humor, pois liga toda hora. Eu respondo: “estou do mesmo jeito que estava quando você me ligou da última vez, pois não passou nem 24h.” E mesmo assim ele não se toca. Continua ligando e as vezes manda sms só pra dizer que está pensando em mim. Ele não deve pensar em mais nada na vida! 

Gabi não sabia o que dizer, mas Sabrina também não deu muita oportunidade, pois continuou tagalerando:

- E não é só isso. Ele me manda e-mails com mensagens fofas! Qual é o homem que faz um negócio desses¿

- Pois é – tentou Gabi – realmente não é qualquer homem que faz um negócio desses, mas sim um que gosta de você.

- Mas precisa gostar tanto¿ E o pior é que ele quer me ver toda hora! Mas toda hora mesmo! Eu não tenho mais um final de semana pra mim. Ele quer sair TODOS os finais de semana, sexta, sábado e domingo, e ainda durante a semana, pelo menos uma vez. Isso não é o cúmulo do sufocamento¿

- Amiga, você sempre reclamava que o Breno nunca te chamava pra sair nos finais de semana...

- Sim, tudo bem, eu quero sair no fim de semana, mas precisa ser em TODOS¿ E fora o fato de que ele não é capaz de sair com os amigos sozinho. Sempre quer que eu vá junto, e que eu conheça todo mundo, e me integre com todos. Quer ainda que eu conheça a família dele, olha que absurdo!

Gabriela respirou fundo. Aquilo era a coisa mais surreal que já ouvira na vida. E olha que em termos de coisas surreais ela era bem tarimbada.

- Sabrina você não gosta desse cara. Ele faz exatamente tudo que nós sempre dissemos desejar dos homens, a questão é que você não gosta dele.

Seguiu-se um silêncio, ao cabo do qual Sabrina disse, em tom irritado.

- Você não está entendendo nada do que eu disse¿ - perguntou, sem dar chance de Gabi responder.  – Eu poderia gostar dele, mas é claro que desse jeito não vou gostar. Ele está estragando tudo! Eu estava gostando dele, estava mesmo, mas ele está me sufocando de uma maneira tal que eu estou deixando de gostar. É o fim do mundo. Ele parece que não tem vida, que eu sou tudo que ele tem.

- Não é isso. Ele apenas quer que você entre na vida dele. 

- Sim, mas precisa ser assim correndo¿ E ele ainda quer conhecer minhas amigas, falou até em viajar comigo pra conhecer minha família! Veja que absurdo!

- Ele apenas quer fazer parte da sua vida...
Sabrina continuou, feito um trem descarrilhado:

- E ainda tem a questão do rótulo. Ele quer porque quer que eu chame ele de namorado. Ele não entende que podemos ter uma relação com cumplicidade, com fidelidade até, mas que não precisamos desse título de namorado. 

Gabriela estava com vontade de entrar pelo telefone e sacudir a amiga, ou desligar na cara dela. Respirou fundo, porém, e tentou ter paciência.

- E qual o problema de ter um título de namorado¿ O que muda a maneira como você chama o relacionamento¿ O que importa não é o que vocês sentem¿

- Mas é isso que eu tento explicar pra ele, mas ele quer que eu chame ele de namorado. Dia desses ele ficou todo chateado porque eu encontrei uma amiga na rua e o apresentei como um amigo. Ele não entende que não precisa desse rótulo!

- Não entendo. Não entendo porque você não quer dar o rótulo. As coisas são assim, elas têm nome. Se você tem um cara que vive com você, ouve seus problemas, ri das bobagens que você faz e te liga toda hora, ele é um amigo. Se, além disso tudo, ele faz sexo com você, ele é um namorado.  – Gabi achou melhor não relembrar a amiga de que ela ficou puta da vida quando Breno levou-a pra jantar com um casal de amigos dele e a apresentou como “amiga”. 

- Mas é apenas um rótulo! Eu não quero dar rótulos. Ele não entende que pode ter tudo, menos o título¿

- Mas por que o título é tão importante pra você¿

- Pra mim não é, é pra ele!

- Não mesmo, se você se nega tanto a chamar ele de namorado é porque não dar esse título a ele é importante pra você.

- Ora Gabi, você está chata demais! Por que fica defendendo o Pedro¿ Já é um horror que eu não tenha um espaço pra respirar sem ele me ligando pra dizer que eu sou linda e maravilhosa e que pensa em mim toda hora. 

- Se você se sente assim, termine com ele.

Sabrina pareceu chocada.

- Mas será possível que ele é tão besta que não pode entender que basta ele mudar um pouco de postura que podemos ter uma relação bem legal, sem rótulos e sem precisar estar toda hora juntos¿ 

Gabi suspirou. Não havia jeito de tentar fazer Sabrina entender. E ela sabia disso porque estava se vendo, em tantas relações passadas, quando estava na posição de Pedro, querendo um namoro, e o cara na posição de Sabrina, querendo sabe-se lá o que. Uma garrafa sem rótulo, possivelmente, pra beber quando não tivesse nada melhor pra fazer. Ela pensou que talvez, pelo menos, pudesse salvar sua noite. Pois se Sabrina não ia sair com Pedro, quem sabe ela topasse dar uma voltinha...

- Quem sabe a gente sai pra fazer alguma coisa e aí falamos melhor sobre isso¿ - convidou, alegre. Melhor passar a noite falando sobre aquela maluquice do que em casa rezando pra que bastante gente estivesse no face, deixando mensagens pra parecer feliz enquanto estava em casa num sábado à noite. 

- Ah! – fez Sabrina com um longo suspiro. – Impossível. Eu estou acabada. Tu acredita que ontem Pedro me submeteu a uma verdadeira maratona de sexo¿ Não, é inacreditável! Umas 2h transando sem tomar água! É realmente insuportável o que eu estou passando.

Gabi teve vontade de dar um soco na amiga. 

- Sim, é insuportável. Estou morrendo de dó, amiga. Compartilho da sua dor, mas agora preciso desligar, pois é fundamental que eu durma cedo num sábado à noite. 

- Por que¿

- Recomendações médicas. – disse Gabi, cansada.

- Oh, amiga! Você está doente¿ O que você tem¿ Quer que eu vá praí¿

- NÃO! – apressou-se em responder. Se passasse mais um tempo falando com Sabrina, possivelmente ia ficar doente de verdade. - Amanhã nós conversamos melhor. Vá descansar.

- Ok, eu vou. Mas ainda não entendo porque eu mereço passar por tudo isso... enfim. A vida não é justa.

Gabi riu:

- Não é mesmo.  – disse, por fim.