quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O homem da sua vida



Faltavam 30 minutos pra começar o filme. A culpa era da Renata, claro, a dona do carro que nos trouxera até ali, e que, gaúcha incorrigível, sempre gostava de chegar bem antes nos compromissos. Isso nos deu tempo de sentar e tomar um café, antes do filme começar.

- Você está com uma carinha tão triste pra quem tem um namorado novo em folha! – comentei com Renata. 

Ela estava começando um relacionamento com um cara que parecia ser muito bacana. Digo parecia porque meus 30 anos na cara tinham me ensinado que, em relação a pessoas, não existem verdades absolutas.

Minha amiga soltou um suspiro, enquanto depositava seu café sobre a mesa.

- Ando meio estranha mesmo...

Disse, com ar vago. Eu e Alex trocamos um olhar. Renata costumava ser ainda mais complicada que eu, sempre pensando demais, sentindo demais, querendo demais. Reparei que ela estava com uma cara péssima. O que será que estava acontecendo?

- Mas o que foi que houve? Wagner não é legal? Ele fez alguma coisa?

Ela me encarou com seus olhos grandes e claros.

- Ele é muito legal, e tudo o que faz é estar do meu lado, sempre atencioso, querido, amigo...

- Mas... ?

- Mas eu não estou sentindo aquela coisa.

Eu e Alex soltamos um “ohhh” alarmado. Não sentir aquela coisa queria dizer que aquele relacionamento estava condenado. Afinal, nós três vivíamos procurando sentir aquela coisa. Éramos o tipo de pessoas que não procuravam um cara com X, Y e Z características, procurávamos um cara que nos fizesse sentir aquela coisa. Simples assim.

O problema todo é que, quando você procura uma sensação, e não uma pessoa, você pode se enganar por uma infinidade de motivos. Pior ainda quando a sensação em questão é algo que você nem sequer sabe o que é. Aquela coisa tem, na verdade, grandes chances de ser apenas um sonho, no qual você encaixa uma pessoa por motivos aleatórios. Você olha pra um cara e acha ele incrivelmente atraente, então deduz que ele é gentil, protetor, inteligente, perspicaz, leal, sincero e misterioso ao mesmo tempo, bom de cama e tudo mais o que deseje num homem. Aí você entende que sentiu aquela coisa, e começa e fazer de tudo para que aquele homem caiba naquele sonho, mesmo que ele tenha uma forma completamente contrária. Normalmente essa é uma boa fórmula pra quem deseja uma dose cavalar de sofrimento.

Naquele dia, antes do filme, porém, eu ainda não tinha pensado sobre tudo isso. Achava que aquela coisa era tipo um mistério divino, uma intuição de outras vidas sobre o seu grande amor.

- Meu Deus, mas será que, se você der uma chance, não pode vir a sentir aquela coisa mais tarde? Digo, quem sabe não aconteceu imediatamente, mas ainda pode acontecer. – arrisquei. Estava muito afim de ver minha amiga feliz com alguém, e de ver ela sorrir de novo, já que isso não acontecia muito nos últimos tempos.

Alex, O Cético, porém, não foi muito legal com Wagner.

- Não adianta. – Sacudiu a cabeça com ar de professor. – Se você não sentir aquela coisa logo no começo, é melhor nem arriscar.

Achei que era triste condenar uma relação de uma forma tão radical, mas, de certa forma, eu concordava com Alex. Olhei pro pão de queijo de Renata intocado sobre a mesa. Minha amiga tinha um problema com comer pouco, ou simplesmente não comer, que me preocupava bastante, mais ainda quando ela estava triste.

- Olha, você nem tocou no seu pão de queijo. Você está comendo direito? – Sei que parecia uma mãe ao dizer um negócio desses, mas acontece que nós costumávamos cuidar uns dos outros dessa forma. Renata suspirou de novo.

- Acho que eu queria era me alimentar de amor. – Disse minha amiga em fase romântica. Eu suspirei também.

- Bom amiga, pelo menos você tem do que se queixar. Eu nem mesmo tenho o nome de alguém para colocar defeito nesse momento. – Minha situação era grave. Vazia de amor, vazia de paqueras, um ser sem perspectiva de relacionamentos. Renata apertou minha mão, solidária com meu problema de falta crônica de paixonites.

Alex veio em meu socorro, apresentando seu problema, que evidentemente tinha que ser pior que o meu. Afinal de contas, é assim que as coisas são. Você diz: “estou com tal problema”, e seu amigo fala: “pior eu, que estou com tal problema ao quadrado”.

- Pior ainda sou eu, que estou com um problema gravíssimo. – Encaramos Alex na expectativa. Eu não sabia que ele estava com algum problema afetivo. O que podia ser? Ele nos olhou, segurando o suspense por alguns segundos, depois largou: - Meu vale alimentação tem um valor menor do que o que eu gasto para comer.

Ficamos em silêncio, até que eu arrisquei:

- Bom, mas o que isso tem a ver com amor?

Alex olhou pra mim.

- Nada, mas o assunto não era também alimentação? E se eu morrer de fome, vou poder encontrar o grande amor da minha vida?

- Que falta de romantismo! – declarou Renata.

- Isso é porque ele é um homem, mesmo sendo gay, não deixa de ser um homem. Eles são assim mesmo. – declarei.

- É revoltante. – Renata balançou a cabeça.

- Ora, não estávamos falando de problemas, comida e amor? Não sei por que tanta revolta. Meu problema é grave. Vou ter que comer menos do que preciso pra viver!

Eu me levantei, pegando a bolsa.

- Olha, já está na hora do filme. Vamos logo ver esse negócio. – Peguei o pão de queijo de Renata, entregando-o para Alex. – Tome. Pelo menos você garante um lanche fora do vale alimentação hoje.

- Ótimo! – disse Alex.

- Qual é mesmo o nome do filme? – Perguntou Renata, enquanto caminhávamos em direção à sala.

- Você vai conhecer o homem da sua vida – Respondeu Alex, de boca cheia.

Paramos os três na mesma hora, nos olhamos e caímos na risada. Parecia até piada. “Três amigos se sentam e falam sobre homens numa mesa de café. Qual o nome do filme?” Algo desse tipo.

- Vamos logo ver se alguém afinal vai achar esse “homem da vida”. – chamei, ainda rindo. 

No fim das contas, rir é sempre melhor do que lamentar.