domingo, 14 de outubro de 2012

Um dia sem fim (final)


Fiquei parada na fila e minha paciência foi chegando ao limite zero quando a mulher que estava na minha frente lembrava a cada minuto de mais uma coisa que ela ia querer, fazendo com que a minha vez nunca, jamais chegasse. Me encostei no balcão, com os nervos em frangalhos, quando vi um vulto ao meu lado.

Voltei os olhos pra ele. Tratava-se de um homem de 30 e poucos anos, alto, moreno, de olhos cor de mel, cabelos castanhos, extremamente bem apessoado. Tá, sejamos honestos, o cara era um gostoso. Eu, porém, um caco humano, não tinha a menor condição de paquerar, por isso tentei passar despercebida.

Mas ele já tinha notado meu olhar e me olhou também. Vi seu olhar bater em mim, se fixar, transcorrer o percurso entre meu rosto e minhas pernas e... parar nos pés. Não, ele não era um desses caras que têm fetiche por pés. Acontece que eu, com meu vestido vermelho e o resto de dignidade que me restava, estava até bem bonitinha, ou pelo menos não me jogaria fora.

Só que meus pés eram duas bolas de lama. Ou seja, lá estava eu, de cabelão comprido solto, um resto de maquiagem ainda digno no rosto, alta, de vestido vermelho muito elegante e até sensual, e tomada de barro até as canelas. Vi os olhos do gatão ficarem por tempo demais nos meus pés, e vi suas sobrancelhas se alçarem levemente num gesto de estranheza, depois vi ele voltar seu olhar pro meu rosto. E não pude me conter:

- O que você queria? - falei. Ele pareceu confuso.

- Eu? - perguntou. Percebi que seus olhos tinham pestanas longas que os deixavam ainda mais bonitos.

- É, você mesmo. Garanto que você passou o dia no seu trabalho bacana que te paga bem, depois entrou no seu carrinho, e quando passou aqui na frente percebeu que não estava com vontade de comer nenhum dos tipos de pão que tem em casa, por isso resolveu descer e comprar algo diferente. Se você tivesse passado o dia ouvindo desaforo num trabalho que te paga mixaria, depois gastado o dinheiro da luz num táxi, esperado mais de uma hora por uma consulta de terapia que não te ajudou nada, encarado a chuva, se atolado na lama e sacudido num bus lotado pra ainda se dar conta que não tinha um grão de arroz em casa pra comer, você não ia gostar que os outros fizessem cara feia por fato de você estar enlameada e ridícula.

Bom, não me perguntem por que eu disse aquilo tudo, porque eu não sei, mas o fato é que me arrependi no mesmo minuto que fechei a boca, claro. Ele ficou me olhando, com ar entre divertido e chocado, e depois disse:

- Eu acho que não fiz cara feia pros seus sapatos, apenas fiquei curioso, e estou grato porque agora entendi como uma gata como você pode estar tão arrumada e linda e, ao mesmo tempo, cheia de lama. Obrigada por me contar seu dia.

- Por nada. – disse eu, dando o assunto por encerrado. Era a minha vez de pedir.

Sai da padaria e pensei em como devia ter parecido louca praquele cara. Só esperava nunca mais encontra-lo. Foi nesse minuto que percebi que tinha alguém atrás de mim. Diante de tudo que tinha passado naquele dia, me virei pronta pra dar um soco na cara de qualquer ladrão que viesse tentar evitar que eu finalmente chegasse em casa, mas dei com os olhos cor de mel do bonitão da padaria. Ai meu Deus! O que ele podia querer¿ Bom, não importava. Nada me impediria de chegar em casa. Me virei e continuei andando, mas ele emparelhou comigo.

- O que você quer? - perguntei, quase em pânico.

- Só queria falar com você.

- Eu estou ouvindo.

- Olha – disse ele, quase correndo pra acompanhar meus passos – sei que você teve um dia ruim, mas quem sabe ele não pode ficar melhor¿

Nesse ponto eu parei de andar e olhei pra ele. Era só o que me faltava agora, ele querer me passar uma cantada de quinta. Considerando o dia que eu tinha tido, nem pensei quando abri a boca e disse:

- Olha aqui, eu não vou dar pra você, tá legal? Inclusive estou naqueles dias, se você quer saber. Agora adeus, foi um prazer e tchau.

Ele caiu na gargalhada.

- Vai rir da minha cara agora? Podia ter rido logo na padaria e me poupado de falar tanto.

- Não! – Ele fez um gesto de desculpa. Tinha lábios bem desenhados e mãos grandes. – Não estou rindo da sua cara, mas você há de convir que fala umas coisas muito engraçadas. Parece a versão feminina do super sincero.

Eu dei um leve sorriso. Eu estava mesmo parecendo a versão feminina do super sincero.

- Ok, tá bom, eu sou mesmo hilária. Agora seja super sincero comigo e me diga o que quer, considerando que eu não retiro o que disse, ou seja, não vou dormir com você. – Pensei em acrescentar “pelo menos não hoje”, mas achei melhor parar com aquela coisa de super sincera.

Ele fez uma cara fofa e pensou por alguns instantes.

- Olha, eu apenas achei você uma gata e também muito autentica e interessante.

- Eu sou tudo isso, mas também sou problemática, pobre e meio doida.

- Ainda assim eu quero te conhecer... – disse ele em voz baixa.

- Você tem certeza? Pode se arrepender dessas palavras. – eu já estava entrando no clima. Afinal, é claro que um cara lindo como aquele não ia querer casar com uma doida cheia de lama, mas ele parecia uma diversão bem interessante.

- Eu estou plenamente certo disso, dona....

- Jéssica.

Ele sorriu. Tinha um sorriso encantador.

- Jéssica. Prazer, sou Arthur.

E foi assim. Não diga “ah, para, eu sei que não foi”. Não diga isso porque foi, e foi exatamente assim. Hoje ainda eu e Arthur rimos muito quando lembramos do dia que nos conhecemos. Foi o pior dia da minha vida, e também o melhor, e, se você quer saber como foi o fim, vai ficar querendo. Isso porque ele não teve fim. 

O fato é que eu e Arthur hoje moramos juntos, algumas coisas na minha vida mudaram, outras ainda não estão do jeito que eu quero, e outras eu nem quero mais.

O fato, é que não tem fim. As coisas não acabam – elas apenas se modificam. E as vezes elas voltam, tornam a ir embora, se renovam, mas o fim não existe. Isso quer dizer que eu e Artur vamos ficar juntos pra sempre, como nos contos de fada? Isso eu não sei. O que eu sei de verdade é que o fim não existe. O que existe mesmo é a mudança, e se resistirmos a ela, será nosso fim.