quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Um dia sem fim (parte 1)


Era apenas o meio da tarde e o dia já estava sendo terrível. Um cliente tinha acabado de insinuar que eu era incompetente, meu telefone não parava de tocar com 5 mil demandas diferentes e eu ainda estava naqueles dias, o que significa dor nas pernas, nas costas, cólicas e humor negro.

Controlei meu instinto de sair esbravejando e dizendo que aquele não era o meu dia simplesmente porque isso me tiraria minutos preciosos que eu precisava para terminar tudo que tinha pra fazer, caso não quisesse ter que ficar até mais tarde e faltar à terapia outra vez.

O que eu estava longe de saber, porém, é que o meu dia horroroso estava apenas na metade, ou seja, tinha muito mais pra acontecer.

Terminei o trabalho e tive que pegar um táxi pra chegar a tempo na terapia, usando um dinheiro que evidentemente eu não tinha e pensando em como ia fazer pra pagar a conta de luz naquele mês.

O pior foi que, apesar de eu ter me exposto ao risco de passar a metade do mês aprendendo como é viver sem energia elétrica, isso de nada adiantou, porque eu peguei um trânsito infernal e me atrasei de qualquer forma. A parte mais trágica foi que o motorista era muito falante e estava de ótimo humor (uma pausa para uma análise: você já percebeu que, quando está fudida e mal paga e com o humor próximo de grau negativo sempre tem alguém extremamente bem humorado que faz questão de querer ser seu amigo¿).

Enquanto eu olhava pra frente, bufando e em desespero, tecendo mínimos comentários pra mim mesma no estilo “merda de trânsito”, o motorista me contou alegremente um terço de sua vida, discorreu sobre o cenário político na Bahia e ainda ficava me fazendo perguntas sobre a minha opinião.

Chegando na clínica, minha gentil terapeuta tinha passado outro paciente na minha frente, embora eu estivesse apenas 15 minutos atrasada e desconsiderando o fato de que até o final da sessão, o horário era meu. Mas são coisas que quem não tem grana pra fazer terapia e recorre aos profissionais do plano de saúde passa com frequência.

Pra tudo ficar ainda mais legal, o paciente falou mais do que devia e, além dos 30 minutos da sessão dele que estava acontecendo no meu horário e dos 15 que faziam parte da sessão dele, ele ainda me tomou mais 20 minutos, totalizando 1h05 de espera. Isso já seria ruim o bastante mesmo se eu não estivesse em um bairro perigoso, escuro e vazio, e não fosse ter que ficar num ponto sozinha por séculos até o ônibus aparecer.

A terapia poderia ter sido um alívio, pelo menos, um momento pra eu colocar tudo aquilo pra fora, chorar talvez, gritar, socar as paredes e sair mais leve. Acontece que naquele dia parecia que minha terapeuta super gente boa não estava muito afim de mim, além de eu ter ficado com a viva impressão de que ela estava sofrendo de algum problema grave de falta de concentração no que eu dizia.

A sessão foi mais ou menos assim:

- Eu estou me sentindo muito mal hoje. Não sei, estou me questionando sobre tudo... as vezes penso que nada mais me agrada, meu trabalho, meu dia a dia, meu apartamento, minha vida toda parece vazia. – Comecei eu. – Nem mesmo consegui me animar a pensar em ter um cachorro, como falamos na última sessão.

Ela deu uma coçadinha no nariz e falou:

- Jéssica, eu acho que pegar esse cachorro foi um grande passo. Pode parecer pequeno, mas é uma responsabilidade, uma ação. Você precisa se comprometer, deixar de ter medo de ter um compromisso. Não pode passar a vida toda sem ter elos.

Depois dos cinco minutos de boca aberta tentando entender o que ela estava falando, eu disse:

- Olha, mas eu já disse que ainda não peguei o cachorro....

Ela pareceu abismada.

- Não¿

- Não.

- Bom, isso não é importante. O que realmente importa é você ter esse compromisso, entende¿

Eu já estava pensando em como seria bom ter desmarcado aquela sessão.

- Mas que compromisso¿ - perguntei, em desespero.

- Qualquer um! Você ter um compromisso é o importante.

E por aí foi. Quando sai, estava me sentindo o lixo dos lixos. Eu realmente era uma fracassada. Estava num trabalho que me sugava a alma e não tinha dinheiro nem pra pegar um táxi. Tinha que me submeter a esperar mais de uma hora pra fazer terapia e ainda por cima nem conseguia fazer a terapeuta prestar atenção em mim. Fora o fato de que ainda ia ter que encarar um bus pra chegar em casa, caminhar um bocado, isso tudo pra chegar em um apartamento vazio e enfrentar minha solidão habitual.

Eu poderia ter chorado no trajeto de elevador do 10º andar ao térreo, se não estivesse me cagando de medo do fato de ser tão tarde e ter que ficar sozinha no ponto naquela escuridão.

Quando coloquei o pé pra fora do prédio, vi que a situação era muito pior do que eu imaginava, porque estava chovendo. Eu abençoadamente tinha uma sombrinha dentro da bolsa, mas os problemas persistiam mesmo assim.

Em primeiro lugar, a chuva fazia com que o lugar parecesse mais escuro e estivesse ainda mais vazio. Em segundo, eu usava um vestido vermelho e solto, chamativo e parecendo um convite para um estuprador ou bandido de qualquer natureza. Pra completar, o trajeto até o ponto era de chão batido e tinha virado lama, o que me fez ter que chapinhar até a parada de ônibus com meus scarpins enfiados naquela nojeira.

Óbvio que o bus levou um século pra chegar, evidente que estava cheio, e é claro que eu fiquei em pé. Àquela altura, porém, eu já estava tão na merda que fiquei ligeiramente grata a Deus por não ter aparecido nenhum bandido e não ter me acontecido nada pior. Eu ia pra casa, afinal. “Dane-se a solidão, eu quero meu apartamento. Danem-se os sapatos estragados, eu quero meu chinelo. Dane-se ficar em pé no bus, daqui a pouco terei minha cama.”

Minha sorte pareceu mudar com esse pensamento, porque naquele instante um cara se levantou, e eu pude finalmente me sentar. Meu coração foi se acalmando no balanço do busão (que poético) e logo eu estava no meu ponto.

Saltei, feliz, pensando em banho, comida e ca... Epa. Peraí. Eu tinha comido o último pão que havia em casa no café da manhã. Miojo, ovo, um copo de leite. Todas essas opções passaram pela minha cabeça, mas eu não tinha nada daquilo em casa. Ou seja, ia ter que voltar duas quadras, em vez de me direcionar a meu prédio, que eu já avistava da esquina, para passar na padaria. Droga, droga, mil vezes droga!

Fui tomada de uma sensação de que eu era uma criança quase agarrando o doce quando alguém me tirou ele das mãos. Mas não tinha jeito. Eu estava varada de fome e tinha que me alimentar. A opção jejuar não estava disponível.

Voltei quase correndo, querendo apenas entrar, comprar meu pão, pagar e correr pra casa. Atravessei a porta da padaria que nem um raio, mas tive que esperar pra pegar meu tão sonhado pãozinho. Tinha fila. Claro. Se não tivesse eu ia desconfiar que o pão poderia estar envenenado, a julgar por tudo que tinha acontecido naquele dia. (,,,)