domingo, 4 de novembro de 2012

O dia em que descobri que sou mal-educada


Eu descobri que sou mal-educada pela graça e favor de João Lucas, um homem sem rosto. Bom, na verdade é evidente que ele tem rosto, mas eu mesma não sei como ele é, porque nunca o vi pessoalmente.

João Lucas é um cara que me ligou um dia de um número que eu obviamente não conhecia e me disse as seguintes palavras:

- Oi Bianca. Eu espero que você não me ache muito ousado de estar te ligando, mas eu sou amigo do Tiago e te vi com ele na praia ontem. Eu achei você uma gata e queria muito que você aceitasse sair comigo.

Bem, você há de convir que esse tipo de coisa não acontece todo dia, pelo menos não comigo. E, no momento que aconteceu, eu estava complemente vulnerável a uma cantada desse tipo – ou talvez de qualquer tipo. Acontece que eu tinha acabado de sair de um namoro e, confesso tinha levado um chifre.

O pior é que nem foi um chifre desses que você fuça, fuça e descobre, finalmente, e depois o cara nega, nega e nega, até finalmente confessar. Essa parte de negação e confissão foi como manda o figurino, mas talvez o meu ex em questão tenha feito isso apenas pra manter a tradição, porque ele não tinha feito a menor questão de esconder que estava me traindo. E eu, tola, idiota, imbecil ao quadrado, apesar de todas as evidências, tinha docemente acreditado que se tratava apenas de uma amizade, até que a coisa caiu no meu colo.

Mas voltemos a João Lucas. Durante esse primeiro telefonema, eu fiquei apenas quieta, dando risinhos e murmurando “não sei”. É claro que eu não ia sair com um cara que vem com uma conversa maluca dessas. No mínimo eu tinha que checar se ele era mesmo amigo do Tiago, não tinha?

Então, eu enrolei, mas fiquei lisonjeada com a abordagem dele. Fiquei toda besta na verdade. Devemos ressaltar que a autoestima de uma mulher que acaba de ser traída na cara de todo mundo não é uma coisa que se diga: “ahhhh, que enorme!”. Então eu estava realmente precisando dum cara que me ligasse pra me dizer que eu era uma gata.

Logo que desliguei o telefone, liguei pro Tiago.

- Você deu meu telefone pra um tal de João Lucas? – perguntei e meu amigo riu do outro lado da linha.

- Eu dei. Fiz mal?

Eu fiquei na dúvida se brigava com ele ou agradecia.

- Bom, não faz diferença.  – Eu não estava em condições de perder tempo discutindo. – Quem é esse cara?

- É um cara que faz pós comigo. Eu não conheço muito bem na verdade...

Devo fazer uma pausa pra dizer que eu realmente odeio pessoas mal informadas. E normalmente os homens não sabem quase nada sobre seus amigos. O Tiago, por exemplo, só sabia que o tal João Lucas fazia pós na área de administração, que trabalhava numa empresa de telefonia e que era um “cara que não fala muito”. Grande ajuda. Ele não sabia nem mesmo o sobrenome do cara, pra que eu pudesse procurar o face dele, já que ele não estava no do Tiago.

No dia seguinte eu já tinha até me esquecido do episódio João Lucas quando ele ligou de novo. Dessa vez ele me colocou na parede. Me convidou pra jantar naquela noite. Eu dei uma desculpa qualquer, mas pedi o face dele. A realidade é que eu tinha algumas coisas a considerar:

1 – Seria um pouco arriscado sair sozinha com um cara que eu mal sabia quem era;
2 – Eu achava estranho o cara pedir meu telefone pro Tiago e ligar no outro dia, sendo que ele podia ter apenas vindo falar com ele na praia e aproveitado pra me conhecer;
3 – Eu estava desconfiada da espécie masculina em geral;
4 – Eu estava com um medo danado que o cara fosse um maluco;
5 – Eu estava com um medo danado que o cara fosse um feioso temível;

Por outro lado, porém, eu não estava em condições de desprezar a possibilidade de sair com um cara que estava afim de mim, porque isso não estava acontecendo muito nos últimos tempos. Isso por causa do “fenômeno do período invisível pós namoro”.

Eu explico: quando você termina um namoro, ocorre um fenômeno que faz com que você fique invisível por um tempo, para a espécie masculina. É algo sobre o que certamente deve haver algum estudo de cientistas de alguma universidade dos EUA, mas eu ainda não tive acesso a ele, então não sei por que acontece.

Para reduzir os efeitos externos do período de invisibilidade pós namoro, muitas mulheres – inclusive eu – utilizam uma técnica razoavelmente eficaz: fingimos que não estamos afim de ficar com ninguém. Estamos dando um tempo, explicamos para o mundo, um tempo pra ficar sozinha e arrumar o coração. 
Um tempo para nos dedicarmos apenas a nós mesmas. Um tempo para curtir ficar sozinha.

A verdade verdadeira, porém, é que ninguém chega na gente nas festas, nenhum cara parece te enxergar e todos os idiotas que viviam dando em cima quando estávamos namorando, desaparecem como que por magia. É o período de invisibilidade.

O segredo é ter paciência, porque um dia, como que por milagre, você fica visível novamente.

Como, apesar de estar no período de invisibilidade, João Lucas tinha conseguido me avistar, eu não estava em condições de simplesmente desprezar o fato sem avaliar a situação.

O face dele, porém, não me ajudou em quase nada, só a ficar com mais medo. Poucos amigos, poucos posts, pouca interação. Duas fotos, nas quais ele estava sozinho e em nenhuma delas dava pra ver ele direito.

Resolvi que não dava pra sair com aquele cara. Afinal, ele parecia ser meio estranho. Sei lá, ele podia ser uma pessoa perfeitamente normal, mas me parecia meio... vago.

Acontece que ele me ligou de novo. E de novo, e de novo e mais uma vez. E em todas elas eu recusei os convites dele, mas ele ficou conversando comigo mesmo assim. Me contou sobre a vida dele, o trabalho, eu falei de mim... No fim, tínhamos criado uma certa intimidade.

Foi no dia anterior ao meu aniversário que João Lucas me ligou novamente. Eu estava meio depre, já que ia ter que encarar o primeiro aniversário em três anos sem meu ex. Não estava afim de fazer festa, então só combinei um barzinho com os amigos mais chegados.

Quando eu estava lá, no meio da farra, João me ligou.

- Oi! – disse ele alegremente.

- Oi, João. Olha, eu estou num barzinho, está meio barulhento aqui.

- Tudo bem, eu só queria te fazer um convite.

- Que convite?

- Eu vi no face que amanhã é seu aniversário. Se você não tiver nada melhor pra fazer, eu gostaria de te levar na ilha dos Frades. Podemos pegar uma escuna às 9h, e vamos com os grupos de turistas que saem todos os dias pra lá. O que você acha?

Fiquei tocada. Isso porque é claro que ele tinha feito esse convite por saber que eu amava praia, e também eu tinha comentado com ele o quanto gostava de passear no mar. Era um convite delicado, numa data especial. Poxa, ele estava me convidando pra passar meu aniversário com ele! Além disso, indo num grupo, de escuna, estaríamos rodeados de pessoas, e seria bastante seguro pra mim.

Topei o programa. Combinamos então de João me pegar às 8h30. Meus amigos foram aos céus quando contei. Hummm, sair com um gatinho no dia do aniversário! Hummmm, passeio de escuna! Hummmm, Ilha dos Frades! Foi um alvoroço.

Eu não estava com grandes expectativas em relação a João Lucas. Não por uma questão estética, porque eu nem sabia se ele era feio ou bonito, mas porque, pelas nossas conversas no telefone, eu sempre me sentia falando com um amigo. Não era alguém que tivesse papos interessantes e despertasse vontades de falar por horas.

No entanto, meu ex era esse tipo de cara e olha no que dera. Por isso, esperei bonitinha e arrumadinha chegar 8h30 no dia seguinte. E chegou. E passou. Deu 9h. Deu 9h30. A todas essas, nada de João Lucas. Eu teria ligado pra ele, mas achei que era um desaforo.

Ah, poxa! Ele tinha insistido por mais de um mês pra sair comigo e depois me dava um cano no dia do meu aniversário! Era o cúmulo. Pensei com certa culpa na possibilidade dele ter sofrido um acidente (mulheres sempre tentando achar desculpas para os homens), mas decidi que, se fosse isso, eu ia ter que lidar com a culpa, já que possivelmente ele só tinha me dado um bolo mesmo.

Sai com meus amigos e tive que contar a humilhante verdade que tinha levado um bolo. Mas eu não ia ficar sozinha, escondida no dia do meu aniversário só porque tinha levado um bolo. Afinal, se havia alguém que não tinha culpa disso era eu. Assim, passei bons momentos na praia com os amigos e risquei João do caderninho.

É claro que teve aquele momento: “caraca, eu devo ser mesmo uó!” e “por que sou tão azarada no amor?”, mas ele veio, deu, passou e tudo bem. Faz parte da vida.

Acontece que, no dia seguinte, no fim de tarde, quando eu já tinha até esquecido que existia um João Lucas, chegou um torpedo dele, com a seguinte mensagem:

“Desculpa por ontem, mas tive uma dor de garganta horrível. Que tal sairmos amanhã?”

Eu refleti seriamente sobre a possibilidade de responder algo tipo: “conheço um ótimo remédio pra dor de garganta. É só enfiar um pepino no r... que passa na hora” ou o simples e sempre funcional “vá se foder!”. No entanto, achei que João Lucas não valia os 0,25 centavos de crédito que eu ia gastar pra fazer isso, então apenas não respondi.

Eu tinha até esquecido que tinha adicionado ele no msm, porque nunca tínhamos nos falado por esse meio, mas eu tinha. E no dia seguinte, João Lucas me chamou e ficou me alugando horas. Ele estava bastante alarmado pelo fato de eu não entender que ele tinha ficado com dor de garganta fulminante, mas eu me dei o trabalho de explicar que pouco me importava se a garganta dele estava verde ou amarela, mas o fato de ele marcar comigo e não me avisar que não ia era algo que eu realmente não ia poder superar.

Eu já sabia que João era insistente pelo tempão que ele ficou me ligando pra sair, mesmo após eu recusar várias vezes, mas naquele dia descobri que ele era realmente maluco. Isso porque ele achava de verdade que ia me convencer que não tinha acontecido nada demais. A conversa no msn seguiu:

“Eu não te liguei porque estava sem voz de tanta dor de garganta.” (tentou ele)

“E quanto ao seu dedo?” (perguntei inocente)

“Dedo?”

“Sim, por que a dor de garganta te impediria de mandar um sms?”

“Achei que seria muito indelicado desmarcar por sms.” (apelou o educado João Lucas)

“Ah claro, agora entendi. As pessoas educadas simplesmente não aparecem, sem avisar.”

João Lucas continuou enchendo o saco, mas eu estava cheia de trabalho e já tinha gastado tempo demais com ele, por isso sai deletei ele do msn. Em seguida sai pra uma reunião.
Eu estava lá no meio da minha reunião, com clientes, diretores, enfim, rodeada das pessoas que pagam meu salário, quando meu telefone tocou. É claro que eu não ia atender e procurei atrapalhada o telefone, mas meu chefe disse, numa voz que queria dizer o contrário:

- Pode atender.

Na verdade eu tinha que ter deligado o celular antes de entrar na reunião, era isso que meu chefe queria dizer. “Pode atender” tinha como tradução “Já que não desligou, atenda”. E eu atendi, sem nem sequer ver o número. E era João Lucas.

- Olha, sei que você está chateada, mas por que não saímos e conversamos sobre isso?

Sem comentários sobre o tamanho da cara de pau dele, porque eu realmente não podia falar. Então, em vez de mandar ele à merda, como eu queria, tive que dizer um rápido:

- Não posso falar agora, estou numa reunião.

E desliguei o telefone.

Depois da minha reunião, liguei novamente o aparelho e tinha nada menos que sete chamadas de João Lucas. Eu estava tão arrependida de um dia ter dado bola pra ele! Devia ter seguido o óbvio e percebido que um cara que enxerga uma mulher no período de invisibilidade não podia ser normal.

Coloquei o telefone no silencioso e deixei ele ligar. Na hora de dormir, naquela noite, fiquei um tanto quanto depre. Poxa, eu já estava preparada pro período de invisibilidade, quando acreditei que não ia passar por ele, e que podia até curtir uma história legal. Aí levei um bolo fenomenal no dia do aniversário e ainda assim não me queixei. Mas encarar um maluco? Essa eu realmente estava convencida que não merecia.

No dia seguinte João Lucas parou de me ligar, e eu fiquei feliz da vida, já que minhas preces tinham sido ouvidas. Quando eu cheguei no trabalho, porém, o inacreditável aconteceu. João Lucas tinha me enviado um e-mail. Que dizia exatamente o seguinte:

“Olha, você não devia agir assim com as pessoas. Eu expliquei que estive doente, mas você não quer entender. Tudo bem que errei por não ter avisado que não ia dar pra ir, mas eu sempre fui educado com você. Agora sinceramente, me deletar do msn, desligar o telefone na minha cara, e não atender as ligações, isso é o fim! É realmente muito triste ver uma mulher tão bonita ser tão mal educada! Uma pena, mas não estou acostumado com mulheres assim. Fui muito bem educado pela minha família e não tenho esses hábitos. Logo, não vou mais te ligar. Nossa história acaba aqui.”

Com o queixo caído no chão, eu pensei que pelo menos minhas preces tinham sido ouvidas mesmo. Ele tinha largado do meu pé. Pra garantir, porém, resolvi fazer uma coisinha. Cliquei no botão responder e escrevi:

“João Lucas,

Estou realmente arrasada por você estar terminando nossa história. Eu nem tenho palavras pra expressar minha dor, mas, tem uma coisa que eu preciso te dizer antes do fim:

VÁ SE FODER, SEU MALUCO DE MERDA!!!

É isso,

Att, Bianca.”

Eu me senti bastante aliviada depois disso. Na verdade eu ri. E ri de novo. Minutos depois, veio a resposta de João.

“É lamentável. Detesto mulheres que falam palavrão. Ainda bem que terminamos, pois nunca ia dar certo. Boa sorte pra você.”

Diante disso eu fiz um som tipo assim uma bufada. E não me aguentei e comecei a gargalhar. Quando o pessoal do escritório começou a me olhar com curiosidade, eu tive que chama-los pra mostrar os e-mails, foi impossível aguentar.

Eu fico imaginando o que João Lucas teria pensado de mim se ele soubesse que eu também sou o tipo de mulher que chama os amigos pra rir da cara de malucos.