segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Amor! Amor. Amor? (final)



Mas enfim, eu conheci o Marcos, e não me dei conta que o “apego” dele por mim era exagerado, e sai com ele naquela noite. Eu gostaria, ou melhor, considerando o fim da história, eu não gostaria, mas eu poderia dizer que foi uma noite fantástica, mas não seria verdade.

A verdade mesmo é que ele era um cara inteligente, gentil, do tipo que você conversa sobre coisas difíceis de um homem querer falar, como sentimentos, sonhos e ideias pra mudar o mundo. Mas o beijo não fechava. Simples assim. Quem é mulher, sabe do que estou falando. Não era aquele beijo que você dá e quer continuar por horas e horas, e parece que está em outro planeta. O beijo de Marcos me deixava de olhos abertos, com vontade de fugir a todo momento.

Para ser justa com ele, apesar dele obviamente não merecer, eu estava me sentindo assexuada naquele momento. A verdade é que meu namoro tinha acabado só no papel, porque dentro de mim eu só tinha espaço pro Rafael, meu ex. Não conseguia imaginar nada sexual com outro homem, e só de pensar em alguém que não fosse ele me tocando eu sentia calafrios.

Logo, minha saída com Marcos não teve sexo, nem nada parecido. Apenas conversa e beijos. No dia seguinte, porém, meu e-mail era um rosário de mensagens dele, falando do quanto eu era fantástica, como a vida dele estava mudando por me conhecer, como ele estava feliz, etc, etc, etc.

Olhei praquilo tudo e me senti lisonjeada, mas desanimada também. Ele parecia ser um cara tão legal e parecia também tão interessado em mim. Será que com o tempo eu não poderia gostar dele? Será que ele poderia me ajudar a esquecer o Rafa?

Bom, eu não sabia. E fiquei realmente apavorada quando vi que o facebook de Marcos tinha mudado de “solteiro” para “namorando”. Será que aquilo era comigo? A resposta é que era sim, porque tinha um pedido para me marcar.

Aí eu decidi que tinha que manter a honestidade e correção que eu sempre desejava dos homens, mas nunca tinha. Não era porque eu nunca recebia de volta, porém, que eu ia começar a não oferecer aquilo que eu achava que era o certo.

Mandei um e-mail pro Marcos explicando que eu achava que aquilo tudo era rápido demais pra mim e que eu não me sentia namorando, nem pretendia, na verdade, naquele momento. Falei que gostava da companhia dele, mas que eu estava muito a fim de dar um tempo de relacionamentos naquele momento. Etc, etc, etc.

Bom, como você pode imaginar, Marcos não recebeu bem a ideia.  Foram ligações, e-mails, conversas mil durante o curso. E eu devo dar a ele o seu mérito – a verdade é que Marcos não desistiu. Ele tentou, mudou de tática, fez o amigo interessado, ouviu meus problemas, apoiou, convidou para programas fabulosos, se dedicou de forma tão desinteressada a me entender e, o mais importante, a me ajudar a me entender.

Foi meigo e generoso em momentos difíceis pra mim, foi esperto e sensível em momentos de confusão, e soube agradar – me convidou pra fazer uma viagem com ele, pra um congresso na área de economia em Natal. Eu não conhecia Natal, e sempre quis conhecer, mas eu tive que declinar do convite.

Não seria muito legal da minha parte me encostar num cara que eu sabia que não tinha muita grana, e seria bastante desonesto sair com um cara de quem eu não estava afim só por causa de uma viagem.

Mas meses e meses se passaram, o curso acabou e Marcos nunca me abandonou. Ele foi um amigo dedicado, uma orelha pacienciosa até mesmo pra ouvir eu falar do meu ex. E foi num dia que eu estava completamente no lixo que eu resolvi dar uma chance pra ele, quase um ano depois de nos conhecermos.

Pensando hoje, acho que foi a bonequinha. O coração de uma mulher tem gavetas que podem nunca ser abertas na vida. Mas a bonequinha abriu uma gaveta qualquer em meu coração.

O que aconteceu é que era meu aniversário, e eu estava arrasada porque meu ex nem sequer passou a mão no telefone pra me mandar um sms. Além disso, eu tinha perdido o emprego. E mais: meus amigos estavam todos viajando. Quer mais? Minha mãe esqueceu e não me ligou.

No meio dessa merda federal, Marcos ligou me convidando pra sair. Eu estava no lixo, e não tinha como recusar um convite mesmo que fosse de um babaca, e o Marcos não era um babaca. Bom, eu pelo menos achava que não.

Eu achava que ele não sabia que era meu aniversário, mas, quando chegou em minha casa pra me pegar, ele apresentou um pacotinho. E dentro dele tinha uma bonequinha. Era uma boneca que se transformava em duas. Se você virasse de um lado, ela era de um jeito, mas se colocasse de cabeça pra baixo, ela era outra.

- É você – disse ele com um sorriso calmo – uma bonequinha de humores variáveis.

Eu sorri. Era eu.

E foi assim que eu acabei ficando com ele novamente, e decidi que, apesar de não sentir por ele nada parecido com paixão, ia namorar com Marcos. Afinal, não dizem que amor é muito diferente de paixão? Não dizem por aí que amor se constrói com o tempo? Bom, eu decidi que ia construir um amor com Marcos.

A primeira pessoa que eu contei foi a única das minhas relações que conhecia Marcos – Ana. Ela era uma amiga muito boa, que eu tinha conhecido no curso, o mesmo no qual tinha conhecido Marcos.

- Sabe aquele cara que fez o curso com a gente? O Marcos?

Ela me olhou atentamente.

- Sim, eu me lembro dele.

- Então... eu to namorando com ele.

Ana me encarou assustada.

- Namorando? Como assim? De onde saiu esse namoro?

Eu contei. Contei tudo, que nós tínhamos ficado durante o curso, as tentativas constantes dele, aquele ano todo de persistência, até chegar na bonequinha. E a todas essas, minha amiga ficou quieta, me encarando. Quando eu terminei, ela disse, um tanto quanto hesitante.

- Olha amiga, não sei se eu deveria, mas me sinto na obrigação de te contar uma coisa. Eu também já fiquei com Marcos.

Não nego que foi um susto. Como assim, já tinha ficado? No entanto, quando pensei um pouco, percebi que não tinha muito problema nisso. Afinal, fazia um ano que eu e Marcos tínhamos ficado. Era bem possível que nesse período ele tivesse encontrado Ana e, sem saber que era minha amiga, eles tivessem ficado. É óbvio que tinha sido isso.

- Nossa, que coisa. Mas você ainda gosta dele? Você tá afim dele?

- Não, não... só ficamos uma vez. Ele ficou no meu pé e eu acabei saindo com ele.

Eu conhecia aquela história. Dei uma risada nervosa.

- Bem, ele é meio grudento mesmo. Mas quando foi que vocês ficaram? Me conta como foi?

Ana estava com uma cara ruim.

- Então – falou devagar – foi durante o curso.

Bom, naquele dia eu e Ana descobrimos o quando pode ser proveitoso guardar e-mails. Isso porque, comparando os milhares de e-mails que Marcos tinha mandado pra nós duas, foi possível verificar que ele não era muito criativo. Possivelmente ele tinha textos prontos, e mudava apenas o nome que colocava sobre eles ao mandar e-mails.

Eram as mesmas palavras, as mesmas declarações de admiração, afeto, amor. Os mesmos convites, os mesmos clichês para nossas confusões, os mesmos conselhos, inclusive. Me perguntei se ele teria dado uma bonequinha pra ela, mas não chegou a tanto.

Isso porque ela saiu com ele mais ou mesmos no quarto mês de insistência. E transou com Marcos. E ele milagrosamente largou do pé dela. Aceitou com facilidade que ela não queria mais e sumiu do mapa. O que possivelmente teria acontecido comigo também, se eu tivesse chegado a ir pra cama com ele.

A parte boa é que, pelo que Ana me contou, eu podia ficar bem tranquila em relação ao fato de não ter ido pra cama com ele, se é que você me entende. Se você não entende, esclarecerei dizendo que, conforme minha amiga, ele não era muito bom do negócio. Coisas da vida. Talvez por isso ele precisasse ficar um ano mandando e-mails e fazendo agrados mil pra levar alguém pra cama.

O requinte do absurdo foi que descobrimos que ele convidou nós duas pra ir pra Natal. A data do e-mail dele pra mim, fazendo o convite, era 05 de julho. A minha recusa foi no mesmo dia. A insistência dele foi até dia 07. No dia 08, ele aceitou minha recusa. No mesmo dia, ele convidou Ana. E dois dias depois ele aceitou a recusa dela, depois da fase insistência. E possivelmente então convidou alguma outra. Analisando agora, penso que ele devia ter uma reserva financeira para comprar mulheres com viagens pra Natal.

Foram mil as vinganças que eu e Ana articulamos. Não que nós nos importássemos verdadeiramente com Marcos, mas era claro que ele não podia sair impune, certo?

Assim, ficamos mais ou menos umas 2 horas elaborando planos pra deixar ele em maus lençóis. Pensamos que eu podia ligar pra ele e marcar num motel, e mandar um garoto de programa. Ou talvez convidar ele pra uma viagem pra Natal e deixa-lo esperando no aeroporto, depois dele comprar as porras das passagens. As ideias eram muitas. Depois de rir um bocado, elaborando muitos planos, Ana me encarou. Ficamos nos olhando em silêncio, sorrindo.

- Que horas nós vamos sair hoje? – perguntei.

- Lá pelas dez? Podemos ir pro Hangar. Hoje é sexta, e na sexta aquele gatinho do Edgar está sempre lá... – disse ela cheia de malícia. Eu pulei.

- Hummm. E aquele amigo gostoso dele que beija super bem vai estar junto!

Ana deu um tapa na minha bunda.

- Então vá logo pra casa se arrumar. Eu passo lá às 21h30.

A verdade é que o Marcos não merecia nada de nós duas, além de pena. Era realmente muito triste um homem ter que agir assim, pra ter sexo, ou sabe-se lá o que ele queria com aquilo. E, por isso, nós duas não fizemos absolutamente nada pra nos vingar dele.

E quando eu estava me arrumando pra cair na noite, recebi um sms do Marcos.

“Olá minha flor. Vamos onde hoje?”

Foi só aí que lembrei que eu era teoricamente namorada dele. Então liguei e disse:

- Marcos, me desculpe, mas eu não estou apaixonada por você. Por isso, não posso ficar com você.

Ele, claro, insistiu, implorou, encheu o saco, mas eu apenas fiquei na minha. E um dia ele sumiu, como fazem todos os babacas.


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Amor! Amor. Amor? (parte 1)


Nós mulheres deveríamos ser proibidas de nos relacionarmos quando estamos magoadas e desiludidas. Digo isso com base nas péssimas experiências que observei e vivi em momentos de desilusão. Uma delas aconteceu logo que eu terminei um namoro, um daqueles namoros, das quais a gente sai destruída, quase sem lembrar quem somos.

Foi bem nesse momento terrível da vida feminina que eu conheci o Marcos. Eu estava fazendo um curso sobre economia nessa época, um desses de uma semana, que todo mundo quer aproveitar o máximo pra compensar a mega grana que você investiu em algo que não vai te dar um diploma.

Estava eu tão concentrada com todas as minhas forças na aula que não percebi que estava sendo observada. Literalmente. Logo nos primeiros dias do curso, todos os colegas trocaram e-mail, no intuito de nos comunicarmos, trocar material, essas coisas. Um belo dia eu recebi um e-mail do Marcos, que era um dos referidos colegas.

A mensagem em si nada dizia de incrível ou comprometedor. Era apenas um material que, segundo ele, tinha a minha cara. O incrível, porém, é que o tal texto tinha mesmo tudo a ver com minhas crenças profissionais, digamos assim. Eu respondi agradecendo educadamente e recebi como resposta um e-mail elogiando um texto que eu tinha publicado recentemente.

Acontece que eu não tinha comentado sobre minhas publicações na aula, e ele não tinha como saber daquele texto, a não ser que tivesse procurado. E isso, convenhamos, é um pouco comprometedor. E eu, claro, fiquei lisonjeada com o elogio.

Seguiu-se então nova resposta educada, novo e-mail com resposta e e-mail, e mais resposta, até que isso chegou num e-mail, saído da caixa dele, mais ou menos assim:

“Estou controlando minha vontade de dar F5 a cada dois minutos no e-mail. Acho que estou ficando viciado em você.”

Bom, quando li essa eu fiquei levemente corada, ri alto e chamei a atenção da minha colega de apartamento, Maria.

- Que foi, Duda? – perguntou ela que trabalhava no computador diante do meu.

Eu devo ter feito aquela cara de abestalhada que quer dizer: “Está rolando uma paquera”. Mas respondi:

- Ah, um colega aqui do curso que me mandou um e-mail...

Maria ficou me olhando com uma cara séria.

- E que tipo de e-mail deixa as pessoas vermelhas? Você está tendo alguma coisa com esse cara! – acusou ela.

- Não estou! – me defendi. – Mas acho que ele está querendo... Não sei, acho que talvez... – reconheci.
Maria deu um pulo da cadeira.

- Deixa eu ver esse e-mail. – Ordenou ela em tom de capitão do exército.

Eu não tive outra alternativa a não ser deixar. Ela leu todo o histórico de e-mails trocados e começou a pegar no meu pé:

- Hummmmmm “eu estou viciado em você”. Uiiiii! Que romântico, Eduarda! Ahaha. É claro que você está tendo alguma coisa com ele.

- Não estou! – repeti obstinada.

- Não estava, você quer dizer. A partir de hoje à noite vai estar.

Eu dei uma risadinha besta.

- Tá, mas o que eu respondo agora? Não sei o que dizer depois disso que ele escreveu...
Seguiu-se um esforço coletivo para a redação do e-mail de resposta a Marcos. Começou assim:

- Diz que você também está dando F5 a cada cinco minutos no e-mail, esperando a resposta dele. – sugeriu Maria.

- Mas eu não estou. Estou trabalhando e tentando me concentrar, mas toda hora chega um e-mail dele, aí eu tenho que responder.

Maria me lançou um olhar enviesado.

- Certo, mas falar isso não seria muito romântico. É só pra agradar o bofe, Duda!
Eu pensei por um momento, mas não gostei realmente da ideia.

- Acho que falar isso seria encher muito a bolinha dele. Você não acha? – perguntei à minha amiga, que pensou por um momento.

- Está certa, nunca é bom deixar um homem se achar demais. Responde então que você também está gostando de receber os e-mails dele.

- Certo. Mas escrevo como? “Eu também estou gostando de receber seus e-mails.” ?

- Não, assim é muito simples. Diz alguma coisa mais elaborada.

- Tipo o que?

Ela me olhou e colocou as mãos na cintura, parecendo meio brava.

- Ora, você é a escritora aqui!

- Certo, mas eu escrevo sobre economia, não respostas de e-mails românticos. Você é mais experiente que eu em namoros virtuais. Você namora um cara que mora nos EUA!

- Bom, mas a gente não começou a namorar quando ele estava lá, e sim no carnaval, com muitos beijos e conversinhas ao pé do ouvido.

Eu dei um longo suspiro.

- Tá bom, tá bom, mas o que eu escrevo mesmo?

A redação final ficou assim, depois de uma meia hora de tentativas:

“Não posso negar que, apesar de estar aqui trabalhando, quando vejo o alerta de um e-mail novo na caixa fico torcendo que seja seu...”

Simples e verdadeiro. Marcos respondeu com um “Ufa, você demorou tanto pra responder que pensei que tinha dito algo que não devia. Mas estou muito feliz em saber que você também sente o que sinto. Isso quer dizer que você aceita beber um vinho depois da aula?
Depois de quase nos mijarmos de rir pensando o que Marcos diria se soubesse que eu demorei pra responder porque estava pensando em como responder, eu e Maria decidimos que eu deveria aceitar o convite. Afinal, ele não era o tipo de homem que chama atenção pela beleza, mas parecia inteligente e tinha feito uma abordagem interessante.

Depois que eu respondi dizendo que sim, Marcos me enviou mais uns três e-mail, do tipo “mal posso esperar a hora de te ver”. Eu devia ter percebido isso como um sinal de alerta, mas mulher desiludida é foda. No meu estado normal, eu teria pensando: “acho que esse cara é grude”, e talvez até “acho que esse cara não é sincero”, considerando a rapidez com que ele se encantou comigo. Mas, no estado desiludida ferrada, eu pensei apenas: “acho que essa cara não é um filho da p... como o meu ex”. É bem assim que é.