quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Amor! Amor. Amor? (parte 1)


Nós mulheres deveríamos ser proibidas de nos relacionarmos quando estamos magoadas e desiludidas. Digo isso com base nas péssimas experiências que observei e vivi em momentos de desilusão. Uma delas aconteceu logo que eu terminei um namoro, um daqueles namoros, das quais a gente sai destruída, quase sem lembrar quem somos.

Foi bem nesse momento terrível da vida feminina que eu conheci o Marcos. Eu estava fazendo um curso sobre economia nessa época, um desses de uma semana, que todo mundo quer aproveitar o máximo pra compensar a mega grana que você investiu em algo que não vai te dar um diploma.

Estava eu tão concentrada com todas as minhas forças na aula que não percebi que estava sendo observada. Literalmente. Logo nos primeiros dias do curso, todos os colegas trocaram e-mail, no intuito de nos comunicarmos, trocar material, essas coisas. Um belo dia eu recebi um e-mail do Marcos, que era um dos referidos colegas.

A mensagem em si nada dizia de incrível ou comprometedor. Era apenas um material que, segundo ele, tinha a minha cara. O incrível, porém, é que o tal texto tinha mesmo tudo a ver com minhas crenças profissionais, digamos assim. Eu respondi agradecendo educadamente e recebi como resposta um e-mail elogiando um texto que eu tinha publicado recentemente.

Acontece que eu não tinha comentado sobre minhas publicações na aula, e ele não tinha como saber daquele texto, a não ser que tivesse procurado. E isso, convenhamos, é um pouco comprometedor. E eu, claro, fiquei lisonjeada com o elogio.

Seguiu-se então nova resposta educada, novo e-mail com resposta e e-mail, e mais resposta, até que isso chegou num e-mail, saído da caixa dele, mais ou menos assim:

“Estou controlando minha vontade de dar F5 a cada dois minutos no e-mail. Acho que estou ficando viciado em você.”

Bom, quando li essa eu fiquei levemente corada, ri alto e chamei a atenção da minha colega de apartamento, Maria.

- Que foi, Duda? – perguntou ela que trabalhava no computador diante do meu.

Eu devo ter feito aquela cara de abestalhada que quer dizer: “Está rolando uma paquera”. Mas respondi:

- Ah, um colega aqui do curso que me mandou um e-mail...

Maria ficou me olhando com uma cara séria.

- E que tipo de e-mail deixa as pessoas vermelhas? Você está tendo alguma coisa com esse cara! – acusou ela.

- Não estou! – me defendi. – Mas acho que ele está querendo... Não sei, acho que talvez... – reconheci.
Maria deu um pulo da cadeira.

- Deixa eu ver esse e-mail. – Ordenou ela em tom de capitão do exército.

Eu não tive outra alternativa a não ser deixar. Ela leu todo o histórico de e-mails trocados e começou a pegar no meu pé:

- Hummmmmm “eu estou viciado em você”. Uiiiii! Que romântico, Eduarda! Ahaha. É claro que você está tendo alguma coisa com ele.

- Não estou! – repeti obstinada.

- Não estava, você quer dizer. A partir de hoje à noite vai estar.

Eu dei uma risadinha besta.

- Tá, mas o que eu respondo agora? Não sei o que dizer depois disso que ele escreveu...
Seguiu-se um esforço coletivo para a redação do e-mail de resposta a Marcos. Começou assim:

- Diz que você também está dando F5 a cada cinco minutos no e-mail, esperando a resposta dele. – sugeriu Maria.

- Mas eu não estou. Estou trabalhando e tentando me concentrar, mas toda hora chega um e-mail dele, aí eu tenho que responder.

Maria me lançou um olhar enviesado.

- Certo, mas falar isso não seria muito romântico. É só pra agradar o bofe, Duda!
Eu pensei por um momento, mas não gostei realmente da ideia.

- Acho que falar isso seria encher muito a bolinha dele. Você não acha? – perguntei à minha amiga, que pensou por um momento.

- Está certa, nunca é bom deixar um homem se achar demais. Responde então que você também está gostando de receber os e-mails dele.

- Certo. Mas escrevo como? “Eu também estou gostando de receber seus e-mails.” ?

- Não, assim é muito simples. Diz alguma coisa mais elaborada.

- Tipo o que?

Ela me olhou e colocou as mãos na cintura, parecendo meio brava.

- Ora, você é a escritora aqui!

- Certo, mas eu escrevo sobre economia, não respostas de e-mails românticos. Você é mais experiente que eu em namoros virtuais. Você namora um cara que mora nos EUA!

- Bom, mas a gente não começou a namorar quando ele estava lá, e sim no carnaval, com muitos beijos e conversinhas ao pé do ouvido.

Eu dei um longo suspiro.

- Tá bom, tá bom, mas o que eu escrevo mesmo?

A redação final ficou assim, depois de uma meia hora de tentativas:

“Não posso negar que, apesar de estar aqui trabalhando, quando vejo o alerta de um e-mail novo na caixa fico torcendo que seja seu...”

Simples e verdadeiro. Marcos respondeu com um “Ufa, você demorou tanto pra responder que pensei que tinha dito algo que não devia. Mas estou muito feliz em saber que você também sente o que sinto. Isso quer dizer que você aceita beber um vinho depois da aula?
Depois de quase nos mijarmos de rir pensando o que Marcos diria se soubesse que eu demorei pra responder porque estava pensando em como responder, eu e Maria decidimos que eu deveria aceitar o convite. Afinal, ele não era o tipo de homem que chama atenção pela beleza, mas parecia inteligente e tinha feito uma abordagem interessante.

Depois que eu respondi dizendo que sim, Marcos me enviou mais uns três e-mail, do tipo “mal posso esperar a hora de te ver”. Eu devia ter percebido isso como um sinal de alerta, mas mulher desiludida é foda. No meu estado normal, eu teria pensando: “acho que esse cara é grude”, e talvez até “acho que esse cara não é sincero”, considerando a rapidez com que ele se encantou comigo. Mas, no estado desiludida ferrada, eu pensei apenas: “acho que essa cara não é um filho da p... como o meu ex”. É bem assim que é.