domingo, 24 de fevereiro de 2013

Confusões de adolescente

De verdade, eu era apaixonada pela Kiko. Só que o Kiko, além de ser um sacana indeciso, tinha viajado por três meses inteiros, e é claro que você pode entender que não tinha a menor condição de ficar esperando ele, mais ainda porque a gente não tava namorando.

Então eu conheci o Leo. E o Leo também não tava muito afim de nada sério, mas eu só descobri isso bem depois. Então no começo, ele era um fofo e passou semanas me cercando até que eu fiquei com ele. E foi bem legal ficar com ele, aquelas duas semanas antes de, sem aviso, o Kiko voltar.

O problema todo foi que, como saudades é uma droga, o Kiko voltou cheio de amor pra dar e atacou com vontade, sem fazer ideia, aliás, de que eu estava tendo um lance com o Leo. É dispensável, eu suponho, dizer que eles se conheciam, já que todo mundo era da mesma turma.

Enfim, na balada daquela noite, depois de me cercar o dia todo na praia e até aparecer na minha casa, o Kiko não tava entendendo muito bem porque eu fugia dele o máximo que podia, e partiu pra cima de mim com tudo.

Mas o Leo, que não sabia que eu já tinha ficado com o Kiko, veio crente que tava tudo normalzinho e já de cara me deu um beijão quando me encontrou na pista de dança. Eu beijei ele, ainda não completamente decidida se eu queria mesmo ficar com ele, mas beijei e fiquei lá dançando com Leo, o que decidia tudo por si só. Eu tinha ficado com o Leo, assunto encerrado. Só lamento, Kiko.

Acontece que o Kiko tava lá fora e não me viu com o Leo e continuava sem saber qualquer coisa sobre nós dois. Então quando o Leo disse que ia no banheiro e deu uma sumida, eu fiquei de saco cheio de esperar por ele e fui pro bar, tomar alguma coisa. Peguei a bebida e fui em busca da minha amiga que estava sumida desde a hora que eu tinha começado a me agarrar com o Leo lá na pista. 

Como não achei a Sabrina, fui até lá fora e me sentei numa mesa, sozinha, sabendo que logo alguém ia aparecer, já que eu conhecia até os porteiros da balada. Mas quem apareceu rapidinho e se sentou quase no meu colo foi o Kiko. Eu tentei, juro, pensar no que eu devia fazer, mas ele nem me deu chance. Me segurou pela nuca do seu jeito cafajeste, e um instante depois eu estava aos beijos com ele.

Na minha cabeça uma voz ficava retumbando algo sobre eu ter ficado com o Leo, sobre eu não poder fazer aquilo, e depois de um tempo eu tomei coragem e empurrei o Kiko. Ele parou de me beijar e alguém surgiu do lado dele o que distraiu sua atenção, mas a mão confiante que ele depositava na minha perna me dizia que pra ele estava tudo resolvido: estávamos juntos naquela balada. Afinal, eu tinha acabado de beijar ele.

Quando eu estava ali sentada deliberando sobre o que eu devia fazer – fugir dali com o Kiko, antes que o Leo me visse com ele, ou dar um mega fora no Kiko e procurar o Leo -, este último em pessoa apareceu na minha frente.

Ele sorriu pra mim e sentou do meu lado, me oferecendo o copo que tinha na mão. Eu, com os olhos grandes como bolas de beisebol e sem dizer uma palavra, bebi, tentando esconder minha cara no copo. Leo começou a falar comigo todo derretido, em um tom natural de “acabamos de ficar”.

Foi então que Kiko, que estava entretido na sua conversa, se deu conta que tinha alguém do meu lado. Ele se virou e ficou claro nos seus olhos que tinha percebido algo estranho. Cumprimentou Leo, que retribuiu, com plena normalidade, sem perceber nada. Então Leo falou comigo de forma derretida, e Kiko se espinhou todo.

- O que tá acontecendo aqui? – perguntou olhando pra mim. Eu fiquei muda.

- Eu que pergunto. – respondeu Leo, começando a entender que alguma coisa estava errada (ele era meio lentinho, tadinho).

Kiko lançou um longo olhar pra ele e disse uma coisa inacreditável:

- Essa mulher é minha.  – determinou assim, sem a minha participação, como se eu fosse uma cerveja. 

A pior parte foi que eu não fiz nada, como enfiar o dedo na cara dele e dizer: “você que pensa!”. Eu não fiz foi nada. Nadinha.

Leo me encarou com serenidade.

- Você é? – perguntou apenas.

Eu abri a boca inutilmente, já que, para se dizer alguma coisa é preciso que o cérebro funcione antes, e o meu estava paradinho.

Leo se levantou, mas não foi embora, ficou ali me avaliando, vendo se eu ia sair com ele ou ficar, o que seria resposta suficiente pra pergunta que me fizera. E eu estava paralisada, sentada como se meu bumbum estivesse colado na cadeira.

Foi nesse segundo derradeiro que Sabrina apareceu e, me olhando, compreendeu tudo rapidamente como uma gênia e ordenou severamente:

- Carolina, se levante daí!

Eu dei um pulo da cadeira e me coloquei ao lado de Leo, que passou o braço pelos meus ombros, lançando um último olhar pro Kiko, antes de me tirar dali.

Foi uma noite bem legal com Leo, apensar de tudo que tinha acontecido, mas no outro dia, quando eu dei de cara com Kiko na praia, lá estava ele cercado de mulheres, fazendo seus desenhos (sim, ele era pintor).

Eu fiquei tensa na hora, imaginando se ele viria falar comigo, se ia me cobrar alguma coisa, se ia fazer um escândalo, mas ele me acompanhou com o olhar, com um ar divertido.

Depois de um tempo que eu já estava lá deitada ao sol, fingindo ser a mais serena das pessoas, ele finalmente veio na minha direção e se sentou na areia ao meu lado.

- Cadê seu namorado? – perguntou rindo.

- Se você está falando de Leo ele está surfando.

- Hum, então você não tem certeza de quem é seu namorado?

Eu abri os olhos e me sentei.

- Olha aqui deixa de ser babaca, tá legal? Eu e Leo estamos ficando, ele não é meu namorado, mas está sendo legal. Você nunca me deu bola quando eu gostava de você, agora vê se me deixa em paz. – 

Despejei logo isso tudo de uma vez. Kiko continuava sorrindo.

- Gostava? Não gosta mais?

Eu fiquei meio engasgada, mas achei voz pra dizer, meio baixo:

- Não.

- Tá bom então, eu te deixo em paz. – disse Kiko, depois de ficar me encarando com uma cara sacana um tempão. – Mas não esquece duma coisa...

Num instante, ele estava bem perto de mim, me segurando pelos cabelos perto da nuca.

- Você é minha.  – sussurrou no meu ouvido e me encarou, com o rosto perto do meu.

- Eu não sou. – rebati, mas ele riu.

- Se não fosse – disse num sussurro – não teria me dado aquele beijo ontem.

Eu pensei que fazia muito sentido, mas é claro que não ia dizer isso, então falei:

- Me deixa em paz.

- Eu deixo. – ele largou minha nuca e se levantou, mas olhou pra trás antes de sair, cheio de marra. –Por entanto, gata.

O problema todo é que o jeito canalha dele me deixava toda besta, quase sem cérebro. Enquanto eu ainda rezava pra ele voltar e me agarrar bem ali na praia, Leo saiu todo molhado e bronzeado do mar, sacudindo os cabelos pra espirrar água em mim, que ri, protestando. Ele sentou do meu lado e me deu um beijo.

- Acordou bem? – perguntou.

- Sim... – respondi sem saber o que dizer mais. Começamos a conversar, como se nada tivesse acontecido de estranho na noite anterior. O bom de Leo era que, além de ser um gato, ele era fofo e divertido, embora não tivesse o charme sacana de Kiko.

Era uma pena que eu não pudesse ficar com os dois, pensei, distraída. Mas nessa hora um surfista lindo, que eu nunca tinha visto, saiu do mar todo perfeito, loiro e musculoso, e eu pensei que talvez o melhor fosse eu ficar um tempo sem ninguém. Pelo menos na teoria.