segunda-feira, 25 de março de 2013

Da TV do vizinho

Estava eu escrevendo um conto, quieta, na minha, quando de repente o som insuportável de um programa de TV que acho ridículo entrou na minha inspiração. Este é o ônus da vida em sociedade – eu tenho um vizinho com problemas auditivos, e péssimos hábitos televisivos. Logo, ele ouve essa porcaria de programa todos os domingos, em um volume tão alto que dá vontade de se morder e arrancar os cabelos.




Sou então obrigada a ser uma expectadora contrariada dessa porcaria, porque tenho pena do senhorzinho. Ele é um vizinho legal, e não tem culpa de ter problemas de audição. Então finjo que nada é nada e faço uma meditação zen, repetindo um mantra por mil e uma vezes antes de começar a escrever: 


“Eu consigo me abstrair dessa televisão. Esta televisão não vai atrapalhar minha inspiração.”



Admito que quase nunca isso da certo, porque, sendo eu altamente dispersa, a televisão quase sempre acaba com minha produção textual do dia.

Nesse domingo, porém, estava concentrada no meu mantra e escrevendo um conto sobre uma história que conheço, relativa a um certo carnaval em Salvador, quando, de repente, não mais que de repente, a televisão entrou de vez no meu assunto.

E estranhamente, vejo agora que ela não acabou com minha inspiração – na verdade, ela fez nascer uma inspiração.

Bom, devo dizer, respeitando as pessoas que assistem o programa em questão, que não vou citar o nome porque sou uma fofa delicada, que eu, particularmente, mas aceitando o direito de outros não pensarem como eu, acho essa atração televisiva uma coisa abaixo da bunda do cavalo do bandido. 



Ou seja, um cocô, literalmente.


E as besteiras que me chegaram aos ouvidos agora a pouco, então, foram impossíveis de aguentar calada. Tratava-se de um quadro ridículo, no qual psicólogos ou especialistas em relações humanas, sei lá, pessoas comuns e atores


Peraí, atores?



(sim, atores) discutem e dão palpite na vida de pessoas que contam histórias de como foram cornas, largadas, abandonadas ou como são sacanas, filhas da p e pouco dignas de confiança. E sei lá porque, essas pessoas falam isso na televisão.

Se existe um pagamento pra se fazer um papelão desses, eu quero deixar claro para todos os produtores televisivos que eu estou aqui, com a mente fervilhando de criatividade, comunicativa, fotogênica e super disponível pra ganhar dinheiro pagando esse mico. Desde que seja muito dinheiro, claro.

Bom, voltando pelo milésima vez ao assunto que comecei lá em cima, me indignei primeiramente com a história duma criatura que pegou o marido, namorado ou coisa que o valha, com a melhor amiga. Bem, possivelmente com a melhor inimiga, nesse caso, mas ela só descobriu isso depois que a cornidão já estava efetivada.

Bom, a criatura contou sua infeliz história, e os outros ficaram palpitando. Mas o que mais me intrigou no primeiro momento foi que ela contou a história e conclui com o grande conselho:



- Então eu quero dizer pra vocês que se vocês tem um marido, não dá pra ter uma amiga muito perto.

Algo desse gênero. Você tem que considerar que eu estava apenas ouvindo a TV do vizinho, e algo pode ter me chegado com ruído, digamos assim. Eu estava chocada por ter acabado de ouvir que as relações humanas chegaram a tal ponto que você tem que escolher ter apenas uma. Se você quiser ter alguém pra cuidar de você na infância, vai ter que ter um pai OU uma mãe. Se tiver os dois, pode descobri-los dando de mamar a um bebê qualquer na rua enquanto você se esgoela chorando de cólicas.

Depois dessa brilhante observação, porém, a pessoa completou sua colocação com uma pergunta. Sim, porque esse é o objetivo das pessoas contarem suas frustrações na TV: pedir conselhos. Não podia ser pros amigos, ou numa terapia bem reservada, não. Tem que ser para o público em geral, um terapeuta que você nunca viu e, claro, atores.

A pergunta foi mais ou menos essa:

- Eu quero saber das mulheres aí se elas costumam apresentar os namorados às colegas de trabalho e amigas.



Bom, não consigo ver que utilidade saber isso poderia ter para os problemas afetivos da nossa amiga, e as respostas foram à altura da pergunta – trivialidades de quem não tem nada o que dizer. Mas para a minha admiração, quando a pouca importância do assunto estava quase deixando eu me concentrar de novo no meu texto, o psicólogo ou sei lá o que, que estava lá como profissional, disse algo mais ou menos assim:




- É preciso observar aí que antes de ter um marido que traiu e uma amiga “fura olho”, isso aconteceu porque você fechou os olhos para alguma coisa aí. Então não dá apenas pra ficar focada na amiga que fura o olho, mas ver que você fechou o olho.


Eu poderia ter respondido a isso com o fato lógico de que, se o olho estivesse fechado, ele não seria furado. Cada um que entenda isso como quiser.

Embora eu não seja nenhuma ingênua a ponto de pensar que uma traição não envolve culpa ou falha do traído, acho que dizer, com um tom um tanto quanto arrogante, em rede nacional, que a mulher que levou um chifre do marido e uma punhalada da melhor amiga é culpada por isso não é muito simpático. Se não é simpático, é menos ainda produtivo – terapia é um momento íntimo, e se o profissional, em nome de promoção, faz o papel de dar opiniões sobre questões que deveriam ser tratadas em consultório diante do grande público, ele tem pelo menos que preservar a pessoa que está ali. Afinal, ele nada sabe sobre a história de vida dela, as circunstâncias, os sentimentos, frustrações e problemas.

Poderíamos dizer que a pessoa que está se expondo não tem bom senso e tem mais que se danar, mas prefiro achar que se muitas pessoas não tem bom senso, um psicólogo deveria ter.

Mas a coisa não parou por aí, acreditem. Eu perdi um pedaço da história porque voltei a tentar me concentrar na escrita, mas quando me dei conta, estava ouvindo um cara com voz de babaca (não sei se a cara correspondia à voz) falar de mulheres que usam chapinha, saia curta, dançam até o chão e usam maquiagem terrivelmente forte. Bom, pegando assim no meio, achei que se tratava de algum conservador que estivesse criticando o comportamento dessas mulheres “horríveis”, mas então ele disse:



- A maquiagem é tão forte que quando você acorda de manhã nem reconhece a mulher...

Depois dessa, eu tive que prestar bem atenção. Até então, eu podia achar que ele odiava essas mulheres que se maquiam e usam chapinha, mas de repente ele disse que acorda com elas? Se acorda é porque dorme, então...

Comecei a não entender mais nada, mas o cara continuou.

- As vezes nem precisa amanhecer, na madrugada, no meio da noite, você já olha e pensa: “o que eu to fazendo com essa mulher”.

Bom só faltou ele ser mais específico, dizendo algo do tipo: “depois que você 'termina', pensa, quero que você caia fora, piriguete”.

Sim, porque foi isso que ele quis dizer. Eu juro! Pra completar, ele finalmente fez sua pergunta, que eu estava louca pra saber qual seria, e foi essa, acreditem:




- Eu quero saber se eu devo me conformar que eu gosto de piriguete, ou mudar, procurar uma mulher direita, pra casar...?

Eu não ouvi o resto, muito menos as respostas, porque resolvi que eu mesma ia responder. Bem didaticamente:




1 – Amigo, você não precisa se preocupar. Você não gosta de piriguete. Mesmo que ela não seja piriguete, mesmo que ela seja apenas uma mulher que segue moda e gosta de dançar, ainda assim você não gosta. Na verdade, você odeia;

2 – Existem profissionais especializadas que podem resolver o seu problema e ir embora antes da maquiagem se desfazer, sem transtornos, sem chateações, sem problemas de espécie alguma, diante de um justo pagamento por aguentar a sua chatice e, possivelmente, a sua inutilidade na cama;

3 – Não procure uma mulher para casar, pelo amor de Deus. Aliás, nunca, jamais se case. Se isso acontecer, vamos ter em breve mais uma nesse quadro patético falando sobre os chifres que levou do marido. Ou então, você vai voltar pra falar do fora que levou da sua mulher, quando essa coitada descobrir a besteira que fez;

4 – Vá tomar no seu... 




É, bem lá.