quarta-feira, 3 de abril de 2013

A primeira vez


A primeira vez a gente nunca esquece. E darei pra vocês o privilégio de, em primeira mão, saber como foi a minha. Tudo começou há vinte e poucos anos atrás. Eu era criança, e como todas as crianças, sofria de uma danada falta de senso crítico e uma mania abobalhada de achar que tudo que os outros faziam devia ser copiado. Especialmente se "os outros" se tratasse de minha irmã mais velha, a Dandara. 


Então, eu achava que tudo que Dandara fazia era o máximo. E se ela estava apaixonada pelo vizinho do prédio da frente, e ficava na janela paquerando com ele, eu certamente devia fazer a mesma coisa. 



Sabe, eu me tornei uma pessoa razoavelmente inteligente depois que cresci um pouco. Talvez até um pouco acima da média, creio. No entanto, naquela época eu devia ser a burrice em pessoa, porque entendi que se ia copiar a Dandara, tinha que ser literal. Não podia pensar “vou paquerar o vizinho do lado”. Claro que não! Se o que a Dandara fazia era o máximo, e eu tinha que copiar, eu tinha que me apaixonar pelo mesmo vizinho que ela estava apaixonada. Ah e tinha que paquerar ele na mesma janela que ela paquerava. 



Achou engraçado? Vai se guardando. Porque eu tinha também que paquerar ele na mesma hora que ela paquerava (não era pra fazer o que ela fazia, porra!), ou seja, com ela do lado. Deve ser a herança portuguesa.

Ela paquerava ele, e eu ficava do lado também fazendo caras e bocas. É, ainda bem que a vida faz a gente se tornar mais esperta. Se eu tivesse hoje a esperteza que tinha aos sete anos, possivelmente não estaria aqui contando essas histórias ridículas pra vocês, pois possivelmente não poderia ter sido alfabetizada.


O nome dele era Renato. Então, eu não me lembro exatamente o que acontecia naquela janela, vocês vão ter que me perdoar a falta de riqueza de detalhes, mas é que eu tinha uns sete anos. Mas tem um dia em especial que eu lembro como se fosse hoje. 

Eu tinha perdido um dentinho. Um dente de leite, apenas, não precisa pensar que sou banguela. Mas na minha ilusão, pensei que o Renato não observaria este detalhe da minha pessoa, já que ele estava no prédio da frente, razoavelmente longe. 

Devo dizer que a Dandara bem que tentou me avisar. 


Você vai aparecer pra ele sem um dente?

Mas eu não ouvi. Devia ter ouvido. Talvez toda minha história fosse diferente se eu tivesse seguido seu sábio e experiente conselho. Mas eu fui na janela. 



Creio que como recurso para ver quem o Renato realmente queria das duas irmãs, resolvemos fazer um pequeno revezamento naquele dia. Dandara foi a primeira. Ela apareceu na janela, com seus longos e lisos cabelos castanhos, seu sorriso de cinco mil dentes e sua cara de menina que vai ter sorte no amor.

E não deu outra. Renato gritou, lá do outro prédio:


Liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinda!!!

Bom, ponto pra ela. Era minha vez. Apareci na janela do alto de meus sete anos, com meus cabelinhos curtinhos à moça penico, minha carinha acanhada e meu dentinho faltando. E o que ele disse?



 - Desdentadaaaaaaaaa!!!

Pronto. Quem mandou cobiçar o homem da próxima?

Estava feita minha primeira desilusão amorosa. 



Bom, a primeira de que me lembro. Eu não duvidaria nada que, no berçário, um bebê de olhos profundos tenha virado pra mim e me passado uma cantada cafajeste, prometido me amar pela vida toda...



 ´... e depois tenha saído de braços dados com a bebê que nasceu logo em seguida. 



Estou falando sério, eu não duvidaria. Mas eu realmente não tinha uma capacidade muito grande de fixar fatos nessa época. Então, considero que Renato foi a minha primeira dor de amor. E a primeira, a gente nunca esquece.