quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O vazio


Eu já senti muitas coisas desde aquele dia, há 20 anos, quando dei o meu primeiro beijo. Já senti paixão arrebatadora, já senti uma amizade que eu queria muito que tivesse paixão, mas não tinha, já senti carinho com desejo, já senti desejo puro e simples.

Até mesmo pela mesma pessoa já senti coisas bem diferentes – como um amor imenso e depois uma total e triste indiferença, ou uma paixão sofrida e incompreensível que se tornou uma amizade linda e delicada.

Já senti dores profundas e felicidades extremas, uma paz calma que a gente quer que nunca termine, uma alegria doce, uma alegria tímida, êxtase puro e desprezo simples. Já senti raiva, mágoa, ternura, empatia, esperança, desilusão.

Na entanto, eu jamais havia experimentado desde aquele dia o vazio. É um vazio puro e simples, nem bom, nem ruim, apenas vazio.

Uma falta total de sentimentos relacionados a espécie masculina (claro que não estou falando do meu pai ou do meu irmão, nem do meu amigo). É uma ausência de expectativas, de vontade até mesmo de começar tudo outra vez, mas sem desilusão. É quase uma paz. É uma serenidade grande, que simplesmente deixa o vazio ficar ali, sem medo de alguma coisa estar errada.

Aí eu penso, talvez por hábito – alguma coisa está errada?  Pode alguém sentir paz no vazio, ou somos obrigadas a estar o tempo todo esperando alguma coisa ou alguém, desejando estar nos braços de uma pessoa, será que temos que ter nosso coração ocupado romanticamente falando, para sermos felizes?

Percebo que nosso coração não precisa necessariamente estar ocupado com um relacionamento. Ele pode estar cheio de esperanças de melhorias em diversos setores da vida, pode estar cheio de sonhos a se realizar, de metas, de objetivos, de amor, amor de diversas naturezas. Inclusive a romântica, sim, por que não?

Talvez o problema seja o pensamento de que é uma obrigação que você queira, tenha ou pretenda ter um relacionamento o tempo todo. Talvez nosso coração precise de pausas para se encher de outras coisas, ou para aprender a se encher de várias coisas sem que uma seja tudo.

E vejo então que, ao mesmo tempo que esse vazio me cai tão bem nessa hora, olhando para frente, penso que não há como se desejar o vazio para a vida toda. O vazio é calmo e dá segurança, mas não traz vida.


Exemplo: se você compra um apartamento, ele pode vir vazio, que representa uma segurança (um teto na sua cabecinha). Mas você não vai poder morar nele vazio.


Um copo vazio é útil apenas se um dia você pretende encher ele com alguma coisa.

 Um caderno vazio é apenas entulho.


Todo vazio, porém, é um mundo de possibilidades.

 Um apartamento vazio permite um mundo de ideias de decoração.



 Um copo vazio comporta mil possibilidades de preenchimento.


Um caderno vazio pode ser o começo de toda uma nova história.

Um coração cheio de apenas um sentimento por uma única pessoa é um grande desperdício. Então, em um grande coração, cabem muitas coisas. Milhões de possibilidades, milhões de sentimentos. E um coração “vazio” pode ser preenchido com calma, sem pressa, com tudo de melhor. Pode-se simplesmente optar por não colocar nele sentimentos ruins. E essa é a grande oportunidade do vazio.