sábado, 9 de agosto de 2014

Sobre amores e canecas

Então, de repente, a caneca caiu. Simplesmente caiu e se quebrou em muitos pedaços. Instantes antes ela existia, completamente inteira, útil, tão cheia de café, e pouco depois ela simplesmente se transformou em lixo problemático, daqueles que você não sabe o que fazer com ele.

Na verdade, porém, caso você queira se ater a uma análise mais detalhista, posso confessar que a queda, quebra e transformação em fragmentos sem utilidade da caneca não foi assim, tão inesperada.

A realidade é que muitas vezes eu já tinha pensado que ela poderia cair. Algumas vezes tinha me pego olhando para a caneca cheia de corações vermelhos e dizeres fofinhos e pensando: “acho que essa caneca pode cair”.

Isso porque eu, no fundo, não consegui fugir à verdade óbvia de que ela nunca se ajustou bem àquele escorredor de copos. Era grande demais para ele, eu acho. Ficava um pouco instável, mal acomodada, como que querendo encontrar uma posição.

Eu, apesar das vezes que me peguei olhando para a caneca preocupada, sempre preferi fechar os olhos. Não posso mentir aqui. Quando me dava conta que estava analisando como aquele objeto estava mal ajustado, eu desviava o pensamento. Dizia para mim mesma: “ela não vai cair. Não vai”.

Então, eu fazia meus esforços para encaixá-la, tentando achar uma posição mais cômoda para a caneca, o que não foi possível. Passei a evitar colocar outros copos perto dela para que sobrasse mais espaço. E num esforço final, evitei usar a caneca para que ela pudesse não cair, não quebrar, não se partir e simplesmente deixar de existir para mim.

Contudo, a caneca não era algo que pudesse apenas ficar ali para que eu olhasse e sentisse o conforto de saber que ela existia. Por um tempo, confesso, isso foi o bastante. Ela não mais fazia parte da minha vida, não estava no café da manhã, não dividia noites de trabalho ou insônia comigo, não estava nas minhas mãos antes de deitar. Mas estava ali. Existia, e isso era um conforto tão grande que eu me permiti desfrutar dele, embora soubesse que não seria o bastante.

Um dia, porém, eu tive que colocar a caneca de volta em seu lugar - na minha vida. Era onde ela devia estar. Então eu a peguei para o café da manhã, eu a usei no trabalho, eu desfrutei daquilo que era a razão de um dia você ter me dada aquele simples, mas tão bem recebido presente.

Mas não dava para ajustar. As coisas estavam fora dos seus lugares. Você estava fora de mim, perdido em palavras e nos seus sonhos, e eu me agarrava a você, presa no meu próprio sonho mais profundo, que era simplesmente aquele no qual nós éramos felizes por todos os dias de nossas vidas, juntos. Sempre juntos. 

Os nossos sonhos e desejos, porém, não se ajustavam, exatamente como a caneca não se ajustava no escorredor. Ficava um espaço vazio, que nós tentamos, como eu tentei com a caneca, arrumar de alguma forma.

Mas não havia forma. E então tudo caiu, se quebrou e se acabou, até mesmo a caneca. E quando isso aconteceu, eu senti uma tristeza profunda, uma vontade de colar aqueles cacos, fugir da realidade que a caneca nunca mais poderia ser o que um dia fora.

E depois, bem depois, eu senti um grande alívio de não ter que ficar me esforçando, pensando estratégias, tentando e me frustrando diariamente, porque, apesar de todos os meus esforços, aquilo não se encaixava. Senti alívio porque ao cair e quebrar, a caneca poderia ter me ferido ou ferido outras pessoas, mas nada disso aconteceu. Ela apenas caiu, virou cacos, e depois de um tempo, a dor acabou. Sinto falta da caneca. Ela era a testemunha de um momento só nosso, e tinha um significado que só eu posso entender. Mas as lembranças não se quebram.