domingo, 9 de novembro de 2014

Dança a dois

Eu sempre quis dançar a dois, mesmo quando eu nem sabia que assim tinha que ser.

Um dia, eu descobri com quem eu queria, mas tinha tanto medo dele não querer que nem deixei transparecer.

Depois desse momento, alguém me convidou para dançar, mas eu estava em tormento, achando que não podia querer.

Passados esses conflitos de criança, eu mantive viva a esperança de que o salão teria para mim a sua vez.

E a vez chegou, e eu dancei, uma valsa deslumbrada, cheia de floreios, de viradas, bailando tonta pelas rodas, uma alegria de chorar. Com olhos fechados de deslumbre, não pude ver que meu par estava imune ao meu contentamento de amor. Sozinha eu rodava a saia, e a dança foi perdendo a graça, até que triste e meio tonta eu desisti de te puxar.

Depois de experimentar o sonho dos giros inconsequentes, eu estava, porém, bem ciente de que sem eles não poderia mais ficar. Como quem se atira em algodão, eu aceitei sem nem pensar o convite de outro par. E foi num rock meio louco que eu me perdi e balancei e nem liguei ao me dar conta que estava tão sozinha como antes, já que aquelas mãos me seguravam, apenas para logo me soltar.

Cansei de toda essa história e fui dançando sorridente, fingindo não estar carente, sempre me fazendo de independente como se a liberdade impedisse em algo o amor. Mas sabendo que amar é o mais ser livre, alimentava inconsequente a esperança inocente de encontrar aquele par.

E um dia achei que ele chegara, mas, ainda desconfiadamente, fui pé por pé para o salão. Ele dançava um ritmo quente, cheio de giros imprudentes, e gargalhei de puro ardor. Naquela salsa sensual, me descobri como nunca igual, em braços de puro fogo. Eu não sabia que de verdade haveria o momento que não poderíamos mais jogar aquele jogo. Isso porque o fogo apaga e quando depois não sobra nada, é porque não havia ali amor. Foi muito bom e envolvente, mas se foi incoerente eu assumi a minha dor.


Desisti daquela dança e de todas que conhecera, me entregando ao silêncio. Um segundo de resguardo, e eu queria caminhar sem nenhum passo diferente. Fui andando pela vida, mas eu sabia que escondida no aconchego dos meus sonhos eu suspirava ainda em acordes que me vinham de repente.

Quando eu o vi me estender a mão, não tive dúvida, não tive medo, apenas caminhei altiva para aquele tango comovente. Entre ganchos e esses eu tentava acompanhar os teus giros e viradas. Toda nota era emocionada, com uma dor envolvente que tomou conta de toda gente. E assim ficamos tão deslumbrados com nossos próprios passos que não percebemos que estávamos dançando sempre a mesma música. Falta eu sinto ainda, das tuas mãos me guiando, das pernas, olhares e sussurros, da emoção que me tomava, e sei que ao deixar o salão, ele ficou com um pouco de mim. As vezes ainda volto, confesso, impaciente, talvez pra me sentir de novo inteira, talvez por uma crença costumeira de que amor tem alguma coisa de dor. Nossa pitada de tragédia me envolveu nessa novela em que o fim é sempre protelado, tentando explorar outros passos, pra tentar ainda prender nossa atenção. Porém, o cansaço que tomava a gente deixava indícios evidentes de que nossa coreografia já não falava ao coração.

Cansada de pensar nos passos subsequentes, foi com leveza e alegria que me atirei nesse forro. Dancei bonito e fácil, sorrindo quase sempre, mas passageiro a gente sabia que ele seria, e num São João ele ficou. Deixou lembranças e o aprendizado de que arriscar novos passos pode semear também o amor.



Mas a verdade que eu sabia, e nem sempre escondia é que nos meus sonhos mais bonitos o som era sempre em um só ritmo. E eu posso dizer sem covardia que a vontade que eu tinha era de dizer por um segundo que eu vim pra esse mundo para dançar esse bolero. E hoje, as vezes, quando acordo, ainda entontecida, eu me recordo agradecida de quando dançamos por aqueles segundos. Lembro dos giros tão delicados, do teu rosto, tão alegre e do meu sorriso, tão da alma. E me toma aquela calma de saber que ainda um dia, nem que seja na outra vida nos teus braços dançarei. Um bolero tão perfeito, dançado assim desse jeito em que tudo apenas flui. Os corpos se conversam, as mãos entendem cada verso e se um erro acontece, apenas continuamos, procurando o passo certo. A dança a dois mais singela, dançada com a certeza que eu quero, de que como o amor, ela evolui.