quinta-feira, 25 de junho de 2015

O Animal e o Humano

    Foto: Lennette Newell

Existe a teoria de que o homem, por trás de suas boas maneiras à mesa e sua suposta civilidade, esconde um animal, que age só por instintos, que é amoral e tem os desejos mais obscuros. Por medo deste ser irracional armazenado em nosso interior, viveríamos sob uma fachada de decência e princípios.

Mas será mesmo? Qual é a grande mudança que representa assumir este “animal” interior? Simplesmente voltaríamos então aos, já conhecidos por nossos ancestrais, tempos das cavernas, onde agiríamos por instintos, vivendo sob a lei do mais forte.

Claro que isso seria o fim de nossa tão bela (bela mesmo?) sociedade organizada, mas o que me pergunto é, se chegamos a esta sociedade, se ganhamos sentimentos, razão e ocorreu toda essa evolução na espécie humana, será que tudo isso foi apenas uma brincadeira do Criador e o certo mesmo é regredir ao passado?


Tenho uma outra teoria. O desconhecido é sempre o que causa medo. Não tememos o que já conhecemos. E, seja por uma memória registrada em genes, seja pela teoria das vidas passadas, já conhecemos aquela época das cavernas. O que não conhecemos é um mundo onde as pessoas se deixem reger por seus sentimentos, e possam se utilizar da razão para ponderar isso.Não
conhecemos um mundo onde chorar não seja considerado fraqueza (a não ser que seja de alegria), onde falar a verdade não represente criar inimizades, onde as diferenças sociais, políticas, ideológicas e religiosas sejam respeitadas. Não conhecemos um mundo no qual as pessoas tenham o verdadeiro hábito de pensar no outro e evitar magoá-lo por uma bobagem.

Não conhecemos o mundo sem egoísmo, sem individualismo. Não conhecemos um mundo no qual um mendigo possa entrar no shopping sem causar alvoroço (será ele menos gente que a gente??), não conhecemos um mundo no qual seja natural que alguém, tendo tanto dinheiro que não poderá gastar em uma vida, compartilhe dele com os outros menos favorecidos sem se tornar um às da piedade (não seria um ato normal dar aquilo que nem vou usar?). 

Não conhecemos um mundo no qual não se tenha medo de dizer: eu te amo e me comprometo em tentar fazer tudo que puder pra que você seja feliz. Aliás, não conhecemos um mundo no qual possamos nos comprometer sem ficar sempre com receio de estar perdendo a liberdade. Só que a verdade é que não conhecemos a liberdade.

Nesse sentido, acredito que escondemos não nosso “animal” interno, mas sim nosso humano interno. Afinal de contas, tendo estes dois lados, qual deles é o frágil, o passível de arrependimento, de lágrimas, o que pode ser magoado pelo outro?

Porque esconderíamos um lado que pode viver por si só, sem necessidade do outro? Temos medo sim é do “humano”, aquele que ama, odeia, ri e chora, que depende de amigos, amores, e família para ser feliz. Temos medo desse ser que necessita de carinho, de elogios, de apoio, e que também pode dar tudo isso, mas teme que o outro não queira receber. Ainda não sabemos como viver em um mundo onde todos estarão interligados pela sua condição humana, onde a dor de um semelhante é minha
também, onde o pobre não é diferente do rico, o negro é igual ao branco, o católico é tão bom quando o muçulmano. E eu acredito, com todas as minhas forças, que é para este mundo que estamos evoluindo. Mas temos que deixar de ter medo.

Não estou defendendo que as pessoas se apeguem a uma falsa moral, que trancafiem seus desejos, que sejam puritanos metidos a bonzinhos, que se confessam e deem esmolas em esquinas. Nada disso. Estou aqui defendendo que se pondere os desejos com a razão para avaliar suas consequências. Que cada um possa determinar os seus valores, mas com base nos seus mais nobres sentimentos e não em seus instintos. Que as pessoas não esqueçam que certamente existe uma força maior que nos orienta e que percebam que aquele cara que está atrapalhando o seu caminho atirado na calçada é sim um ser humano. Nasceu sem nada, como todos nós, e vai virar pó um dia, também como todos nós. A real é que ninguém tem nada nessa vida, a não ser aquilo que leva dentro de si.

E, entre Freud e Gandhi, fico com o segundo e assino embaixo dessas palavras:

“Minha fé mais profunda é que podemos mudar o mundo pela verdade e pelo amor”.