terça-feira, 16 de junho de 2015

Reflexões de uma solteira


Como este blog nasceu como um espaço feminino sobre relacionamentos e com base nos temas das crônicas e contos que são autorais aqui no Resenhas Femininas, teve gente me cobrando porque eu não fiz um post falando sobre estar solteira no Dia dos Namorados.

Compreendo a expectativa, afinal eu sempre falo muito sobre o tema "solteirice", porque foi realmente na "solteirice" que fiz meu PDH, depois evidentemente do doutorado em relacionamentos de naturezas diversas (não estou falando de gênero aqui, mas sim de relacionamentos saudáveis, doentes, curtos, longos, divertidos, totalmente sem graça, sérios, abertos, etc e tal), meu mestrado em diferentes formas de encarar relacionamentos, minha pós em desespero pra casar e minha graduação em... bom essa foi em jornalismo mesmo.

As diversas nuances da  "solteirice" aparecem em muitos textos meus e, por diversas vezes, brinco com expressões e conceitos como estar encalhada, louca por um relacionamento, etc, etc, etc.

Agora, vamos a questão que não quer calar: afinal de contas, o que significa estar solteira para mim e na minha vida? E eu respondo, do alto do meu PDH no assunto: significa que estou solteira, ou seja, não estou casada.

“Ah, Liti, mas isso não diz nada”, dirão alguns. Eu digo, porém, que isso diz tudo.

Não ser casada significa que você é igual a uma pessoa casada, ou seja, uma pessoa, só que não está casada. E foi por isso que me recusei a fazer uma postagem sobre o que fazer se você está solteira no Dia dos Namorados, ou dicas para solteiras no Dia dos Namorados, ou como é horrível estar solteira no Dia dos Namorados.

Na verdade, é claro que brincamos com esse negócio de "solteirice" e tal, mas sério, nem você nem eu precisamos de dicas sobre Dia dos Namorados só porque não estamos com um namorado.

Sinceramente, eu não costumo me deprimir no Dia do Médico porque não sou médica. Eu costumo deixar pra me deprimir no Dia do Jornalista mesmo (brincadeirinha).

Eu não preciso de dicas nem de consolo sobre o Dia dos Namorados porque esse dia é pra passar com namorados, praqueles que têm namorados, claro. Eu não preciso correr atrás de um paquera aleatório qualquer pra passar o Dia dos Namorados, pelo amor de Deus!

Eu não preciso que ninguém me diga que eu posso sair com as minhas amigas, simplesmente porque eu posso sair com elas todos os dias que eu quiser, porque não poderia no Dia dos Namorados?

Eu não preciso que ninguém me diga que eu posso comprar um presente pra mim mesma porque sou uma mulher independente e posso comprar o que quiser sempre, desde que caiba no meu orçamento, não preciso me endividar pra me sentir melhor no Dia dos Namorados.

Também não preciso que me digam que eu posso fazer coisas óbvias, que posso fazer todos os dias da minha vida, como ver um filme, fazer maratona de séries, sair pra dançar, conversar ou paquerar, ficar em casa e me empanturrar de doces, etc, etc, etc.

Outra coisa que não preciso é de consolo (não leve pro lado sexual, sua mente poluída) por estar solteira no Dia dos Namorados. Ninguém precisa ouvir que estar solteira no Dia dos Namorados não tem nada demais, não é um problema, etc, etc, etc. Isso é uma obviedade!

Gente,  no momento em que escrevo essas palavras morre uma pessoa de câncer ou alguma outra doença crônica, morre uma criança de desnutrição, uma mãe fica sem o filho nos braços por algum motivo qualquer, alguém descobre que tem uma doença fatal, uma pessoa é internada, outra chora de fome, outra sente frio, outra termina um relacionamento de forma ruim, outra perde o emprego, um pai pensa em como vai pagar as contas naquele mês.

O mundo está cheio de sofrimento. Se você deseja confortar alguém, certamente nos seus próprios círculos de convivência não faltarão pessoas sofrendo. Se você deseja se ocupar ajudando alguém vá fazer trabalho voluntário.

Então, a coisa que eu menos preciso no Dia dos Namorados é parar pra escrever um texto pra dizer essas obviedades para minhas espertas e inteligentes leitoras. Por isso não escrevi um post sobre estar solteira no Dia dos Namorados porque você não é uma vítima, se está solteira no Dia dos Namorados, ou em qualquer dia da sua vida. Você apenas não está namorando ou casada, neste momento. O que tem de errado nisso?

"Ah,Liti, mas eu quero muito ter alguém." Por mais estranha que essa expressão me pareça, eu entendo que é apenas uma forma de dizer que você quer ter um companheiro, alguém pra dividir a vida, os problemas, as alegrias, alguém pra dormir abraçadinho, alguém pra sair, viajar, fazer planos de um futuro juntos. Beleza. Eu também desejo isso. Não há mal nenhum. Mas o que o Dia dos Namorados tem a ver com isso?

Em qualquer dia, seja dos namorados ou do índio, nós vamos apenas seguir nossas vidas,  vivendo, sendo alegres as vezes, tristes as vezes, tendo TPM ou não, e com os olhos abertos para as possibilidades desse companheiro aparecer por aí. Cada uma do seu jeito. Umas mais afim de procurar, outras mais afim que ele bata na porta, outras deixando rolar. Mas, o mais importante, sem culpa, sem medo, sem vitimização.

Essa vitimização da mulher solteira é puríssima imbecilidade de uma sociedade que vê a mulher como uma parideira. Mas se alguém se incomoda com a sua "solteirice", deixe que se incomodem. É uma problema da pessoa que se incomoda não seu, entende? Você já tem problema demais pra se preocupar com o que o outro pensa sobre você. O que ele pensa é um problema dele. Cuide dos seus pensamentos e verá que é muito mais proveitoso. Analise o que você pensa sobre estar solteira, se isso te incomoda e porque te incomoda.

Da mesma forma, o oposto da vitimização também pode ser perigoso. Sabe aquela coisa de eu sou solteira, amo, faço o que quero e sou foda, pego todo mundo, apronto, sou “uma mulher fatal”?

Bom, se essa é uma opção real de vida que faz feliz a esta pessoa, ok. No problem. Mas vendo isso repetido como uma inversão do “sou solteira meu Deus o que fazer”, acho perigoso e até mesmo igualmente bobo.

Isso porque você não precisa ser fodona. Você precisa ser feliz. Então, que tal primeiro se conhecer e saber o que realmente te faz feliz?

No dia que você simplesmente tiver esse conhecimento, minha amiga, nada nesse mundo vai poder te segurar. Nem mesmo o Dia dos Namorados vai te deixar triste. Isso porque nunca, mas nunquinha, a felicidade vai envolver apenas de um relacionamento.

Um relacionamento vai ser uma parte disso tudo. Mas você vai viver fazendo as coisas que te fazem feliz. Pode ser desde voluntariado até aprender tricô, ir pra aula de dança ou se voltar pra religião, estar mais com os amigos e família ou ter mais tempo pra ficar com você mesma, curtindo a sua companhia. Coisas que te fazem feliz independentemente de você ter ou não um relacionamento.

E por hoje, vamos ser feliz???