terça-feira, 18 de agosto de 2015

O amor altruísta


Durante muito tempo da minha vida, eu tive a certeza de que paixão era amor. Eu confundi tudo, emaranhei os sentimentos e paguei o preço de dar uma importância demasiada a um sentimento que é muito gostoso, mas não tem a relevância nem a durabilidade para fazer alguém feliz.

A paixão é tão diferente do amor quanto o ódio. Na verdade, acho que o ódio não deixa de ser uma paixão. É como uma febre, nos faz delirar, persistir, teimar mesmo, nos tira do prumo.

Minha sorte foi que um dia eu aprendi, embora seja triste que depois de tanto sofrer, que o amor é um sentimento bem diferente. Não vou dizer que o amor é calmo, sereno, brando, cor de rosa.

O amor pra mim não é assim. Quando eu amo, amo forte. Amo de forma intensa e permanente. Sofro por amor. Não exatamente pelo amor em si, mas pela dor de quem amo. E sou capaz de esconder meu sofrimento para transmitir força para aquela criatura que eu amo, no momento em que ela precisa mais que eu dessa força.

Quero que meu amor faça diferença. Quero que ele seja transformador. O amor para mim tem tudo a ver com ação. Tem a ver com fazer coisas. Tem a ver com estar ali. Tem a ver com ser sempre a mesma pessoa amorosa, mesmo quando não estou presente o tempo todo.

Estou falando de amor na sua forma mais ampla, desde o amor pela minha família, meus cachorros, meus amigos, Deus, meu trabalho, por mim mesma, pelo mar, por quem não conheço, mas me encho de amor por algum motivo pela sua história.

Amor. O amor não faz diferença. Embora eu tenha tão clara essa ideia de amor, sempre me perguntei por que tive tanta dificuldade de vivenciar o amor de casal. Como disse, me perdi em muitas paixões, mas, talvez ainda pior que isso, me liguei em relações quase obsessivas, nas quais eu e meu companheiro ficamos trocando ou sugando um do outro energias que nos pareciam vitais por algum motivo, mas que apenas nos mantinham péssimos.

E depois de tanto vivenciar experiências, nunca consegui ter a certeza do que exatamente era o amor para mim – quando se trata de relação homem/mulher – e se eu já o havia sentido.
E ainda tem aquela coisa das opiniões – o que você sente não é amor, ele não te ama, isso não é amor, o amor que você quer é idealizado, o amor romântico não existe, amor não sei das quantas é assim e assado o amor verdadeiro é o amor X e não o Y, etc, etc etc.

Como se existissem tipos de amor, ou marcas diferentes de amor que podemos escolher numa prateleira. Aquilo que realmente aprendi sobre o amor, porém, foi bem diferente do que está nos livros que andam vendendo aos montes por aí.

Aprendi com meu pai que o amor é incondicional. Não existe condição para amar. Não dá pra dizer: eu te amo, “se”. Se existe o “se”, alguma coisa está errada aí. Não que eu vá gostar de tudo numa pessoa que amo. Não tem nada a ver com isso. Eu posso ver com clareza a pessoa que amo, não gostar de alguns comportamentos ou pensamentos e até tentar mostrar outros pontos de vista – até mesmo por que costumamos querer ajudar quem amamos – mas isso não será uma condição para amar ou não amar.

Isso porque, quando você ama, ama apesar dos defeitos. Eu não gostava do jeito como meu pai às vezes era chato por causa do perfeccionismo, mas não deixei de amá-lo por isso. Eu não gosto da forma como um amigo combina coisas e desmarca na última hora, mas não deixo de amar ele, porque amo e amor é incondicional.

Com minha mãe, aprendi que amor é eterno. Se eu digo que amei, não amo mais, então é porque nunca amei de verdade. Não dá pra amar e desamar. Se você ama, ama então vai amar pra sempre. Você pode pensar que amava e descobrir que não amava. Mas não pode amar e deixar de amar.

Com a vida descobri que o amor é altruísta. O amor requer empatia. Se você ama, vai conseguir abrir mão de coisas que queria para não magoar aquele que ama. Você vai conseguir abrir mão de um programa X que estava louco pra fazer porque quem você ama está doente e precisando de você. Vai conseguir gastar uma grana num presente caro pra ver um sorriso no rosto da pessoa amada. Vai conseguir até fazer uma coisa que você nem está tão afim só pra alegrar o outro. Vai até parar de pensar só nos seus sonhos e topar dividir sonhos com aquela criaturinha amada.

E foi com aquele homem que eu verdadeiramente amei que descobri que, embora o amor seja tudo isso, nós somos seres humanos e os relacionamentos amorosos são feitos de negociações. E as regras precisam ser interpretadas e não distorcidas pra que elas não ajam contra nós.

Exemplo: o amor é incondicional, mas não use isso como desculpa pra ficar com um cara que te bate. Se você fica com um cara numa relação dessa natureza, é provável que você precise primeiro aprender a amar a si mesma.

Exemplo 2: O amor é eterno, mas não pense que você está condenada a amar uma única pessoa a vida toda e ter que ficar com ela. O amor não existe apenas no sentindo de relação de casal, mas nas amizades, no querer bem, em mil formas. Eu não preciso viver grudado em todos que eu amo. Eu posso amar um amigo e ter certeza que não quero morar com ele. Então, eu posso amar eternamente uma pessoa e saber que, ainda assim, não quero ficar com esta pessoa. Quero ficar com aquela outra, com quem tenho, além de amor, uma relação que permite uma convivência serena e boa. Sim, simples assim.

O amor é altruísta, mas é entre duas pessoas. Então, se você achar que o outro tem que ser sempre o altruísta, possivelmente você vai estar sendo egoísta. E vice/versa. Exemplo, acho que o outro tem que abrir mão de fazer tal coisa porque eu detesto, mas não me dou conta que ele adora. Se o amor é altruísta, quem sabe fazer aquela coisa de vez em quando pode ser altruísta das duas partes. A não ser que seja algo que te fere. Algo que não dá pra você tolerar ou suportar. Aí não tem jeito – ou o outro abre mão de vez, ou não vai dar certo e é melhor os dois abrirem mão de ficarem juntos.

E abrir mão de ficar com quem você ama dói. Dói muito saber que, em outros momentos, você é tão feliz com aquela pessoa. Que ele te faz sentir alegre, serena, útil, por seu coração está sendo usado num amor pleno. Saber que ele também te ama dessa forma e te faz sentir amada em sua plenitude.


No entanto, existe aquele momento em que aquilo que você não consegue tolerar e ele não consegue abrir mão, ou aquilo que você não pode abrir mão e ele não pode tolerar vai ficar entre vocês. E vai minar a relação de vocês e fazer ela virar algo triste e doloroso. Então, talvez a maior prova de amor próprio e até de amor altruísta pelo outro seja abrir mão. Deixar ir, e saber que o amor seguirá, incondicional, eterno e, sobretudo, altruísta.