segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Os anônimos, Boechat e a depressão


Corajosa, louvável, tocante. Qualquer um dos adjetivos cabe à atitude do jornalista que eu há muito admiro, Ricardo Boechat ao assumir publicamente seu problema de depressão. Acompanhei, nos últimos dias, muitas pessoas compartilhando, elogiando, louvando a “confissão” pública do apresentador sobre sua doença.

Concordo com todos os elogios e fico realmente muito feliz que Boechat tenha tido a atitude de falar abertamente de algo que não tem porque não ser tratado exatamente dessa forma, mas infelizmente, muitas não é.

A verdade é que a depressão ou seja qual for o problema de ordem psiquiátrica que uma pessoa tenha ainda é um tabu. Boechat, graças a Deus, contou com o apoio de centenas, talvez milhares de pessoas.

Me pergunto, porém, quantas centenas ou milhares de pessoas sofrem com as doenças psiquiátricas sem contar com apoio, paciência, confiança ou ajuda no seu dia a dia.

Sejamos honestos. Confessemos nossos preconceitos. A pessoa que sofre de depressão ou doenças psiquiátricas é vista quase sempre com uma certa desconfiança. Nada que ela fale é levado 100% ao pé da letra.

Seu amigo “normal” se sente mal e você corre com ele para a emergência. Seu amigo depressivo passa mal e você fica pensando “garanto que é coisa da cabeça dele”.

Aliás, ainda temos a impressão muitas vezes nem um pouco disfarçada de que, de alguma forma, o paciente psiquiátrico pode evitar/curar/dar um ponto final à sua doença. Não sou especialista, mas mesmo assim vou me arriscar a dizer que o paciente tem sim um papel fundamental, único, crucial na cura de um problema psíquico. Mas eu completaria dizendo que ele tem esse papel em qualquer tipo de doença.

Quando um dos efeitos de sua doença é acabar com sua vontade própria, porém, vamos concordar que fica mais difícil, né? Não, mas as pessoas acham que é mais fácil. Porque, em muitos casos a depressão é vista como algo que unicamente você (paciente) é responsável. Foi você quem “criou” a doença. Então você pode “curar”.

Nesse caso, a depressão não seria bem uma doença, seria uma “invencionice”.

Outro ponto: você olha pra pessoa e pensa – “essa criatura não tem a metade dos problemas daquela outra e ainda quer dizer que tem depressão?”.

Depressão está associada com estresse, com situações traumáticas da vida sim, mas não depende do grau de problema que você tem, mas sim da maneira como você consegue lidar com eles. Pra mim, lidar com um câncer na família pode ser mais fácil do que é pro meu vizinho lidar com a morte do cachorro.

Cada ser humano é um ser humano. Pare de medir o outro por você. Pare de julgar o outro. Se você não pode ou não quer ajudar, não atrapalhe a vida de quem já está doente com seus julgamentos. Se não tem uma palavra de amor a dizer, meu caro amigo, fique em silêncio.

A depressão é uma doença. Apenas uma doença. Uma doença como qualquer outra. Não olhe para o depressivo com desconfiança.

Eu vi alguns colegas que hoje são empresários compartilhando e louvando a atitude – realmente louvável, volto a dizer  - de Boechat, e fiquei me perguntando (ou será que me lembrando?) e se fosse na empresa dele? E quando o funcionário dele apresenta um atestado por depressão? E quando ele descobre que uma pessoa que ele achou fabulosa e pretende contratar teve depressão?

Deixo apenas a pergunta – sem julgar ninguém, sem querer resposta, apenas pedindo que cada um que ler esse texto se interrogue sobre isso – o seu sentimento para com Boechat é o mesmo que para com aquele colega de trabalho que sofre de um problema psiquiátrico? Você também vai dizer que ele é corajoso se ele resolver assumir e contar seu problema ou vai pensar secretamente: “ele não devia se expor assim”?

Pense que, tanto quanto Boechat, milhares de anônimos estão agora desejando dividir seu problema de depressão, mas com medo de serem vistos como loucos, fracos, problemáticos – o contrário do que quase todo mundo falou de Boechat.

Atitudes como a desse jornalista de tanto destaque são fundamentais para que possamos ver as doenças psíquicas de outra forma. Mas só se refletirmos sobre elas, em vez de compartilhar no facebook e esquecer.


Então, meu amigo, reflita.