segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Sobre como parei de fumar

Faz tempo que penso em falar alguma coisa sobre parar de fumar. Eu pensei em várias coisas quando resolvi parar de fumar na verdade. Pensei por exemplo que quando eu fizesse um mês sem fumar escreveria horrores sobre isso, depois achei que seria melhor que fosse aos seis meses, depois adiei pra um ano.

E, por fim, passou um ano e eu nem lembrei. Na verdade tento lembrar o dia exato em que fumei meu último cigarro, mas me escapa. Lembro de como foi. Lembro de mim mesma me dizendo: eu vou fumar esse cigarro e nunca mais vou colocar um cigarro na boca. Então vou fumar esse bem fumado. E fumei. Lembro da sensação.

Aliás, não sei se algum dia vou esquecer a sensação de fumar um cigarro. O tragar, o puxar o ar com a fumaça na garganta, o soltar lento, quase suspirante, como tão bem comparou Mário Quintana.

Eu demorei pra escrever sobre parar de fumar por um motivo pessoal: não pretendo me gabar por parar de fumar. Foi difícil? Sim. Considero uma conquista? Sim. Considero algo importante e que me prova muito sobre minhas capacidades de melhorar a mim mesma? Sim. Considero que mereço um troféu? 


Não. Alias, sei que não mereço.

Não mereço porque simplesmente fui eu que comecei a fumar. Ou seja, eu apenas remediei um mal que eu mesma fiz. A mim mesma, no caso. Teria sido melhor e mais inteligente nunca começar a fumar. Também teria sido menos doloroso. E também teria ajudado a manter uma coloração melhor no meu pulmão.

Mas o fato é que comecei, então tive que consertar a cagada. E consertei. Mil vezes eu tive certeza que nunca ia conseguir deixar o cigarro. Aquela porcariazinha fumacenta e fedida que você que não fuma não entende como alguém pode gostar é, na verdade muito além do que um palitinho de câncer que você pode atirar ali e não usar mais.

Ah, mas é muito mais mesmo. Pra quem gosta da coisa, o cigarro é um pedacinho de prazer fácil, simples, garantido e indolor (pelo menos até você não receber um diagnóstico de câncer de pulmão).

Você teve um dia de merda, mas vai fumar um cigarrinho antes de deitar. Pedacinho de prazer garantido. Nem tudo está perdido. O problema é que essa porcaria vicia e você quer cada vez mais, até que ele entra no seu dia de forma irreversível. Depois da refeição, cigarrinho pra ajudar na digestão (eu hein!). Depois do sexo, cigarrinho pra relaxar (afe, se você não relaxou o suficiente com o que estava fazendo, melhor começar de novo, porque alguma coisa deu errado).

No meio do trabalho, cigarrinho, pra dar aquela parada na correria e voltar zerado (zerado inclusive das ideias que você estava tendo antes de começar a pensar desesperadamente em fumar).

Por fim, antes de entrar no cinema cigarrinho porque você vai ter que ficar duas horas sem fumar. O mesmo antes de entrar no avião (bem lógico fumar sem vontade só pra prevenir uma possível vontade que vai acontecer de qualquer jeito). Cigarrinho na boate porque você está bebendo (já não basta beber, desgrama?).

Enfim, desculpas não faltam, todas patéticas, mas você acha bem lógico. Até parar, Quando para, você se dá conta de uma coisa evidente: você fuma por um único e simples motivo – porque gosta de fumar.

Você fuma porque adora, você fuma porque acha muito bom, porque te dá prazer, você fuma porque quer e não está nem aí.

E isso, te deixa outra obviedade mais dolorosa à vista: você não para de fumar não porque não consegue, porque não é fácil, porque é viciado, porque sei lá que outras desculpas. Você não para porque gosta de fumar e não quer parar.

E é difícil admitir isso num mundo onde fumar se tornou quase pior do que matar, bom, na verdade se você falar em linchar um cara que assaltou alguém, muita gente vai achar que fumar é beeeeeem mais grave.

Mas admitir isso te dá uma possibilidade linda. Você pode parar de fumar. Não vai ser fácil, porque você adora. Existe sim uma dependência química, mas ela passa em poucos dias, então ela não é desculpa. Você simplesmente pode.


É bem assim. Você decide e para. Você morre de vontade, você odeia ter que parar, você fica parecendo um obsessor seguindo na rua as pessoas que fumam só pra inalar uma fumacinha. Mas você para.

Foi assim comigo. E isso é o que tenho pra contribuir com quem ainda não tomou a decisão de parar de fumar. Eu parei de fumar porque, com o perdão da expressão, me caguei pelas pernas quando o médico me disse que ia ter que fazer um cateterismo.

Me borrei de medo e fiz um trato com Deus. Algo tipo: eu paro de fumar e você me dá uma força fazendo com que eu não tenha que abrir meu peitinho e fazer uma cirurgia cardíaca.

Não foi assim em voz alta, rezando, tipo promessa. Foi um trato silencioso, que ELE entendeu só pelo olhar de “gato de botas do Shrek” que eu lancei lá pro alto, porque não disse nem pensei nada.



Então, o cateterismo me fez parar de fumar, mas eu também fiz um pacto comigo, já quando eu estava surtando por ficar sem fumar. Algo tipo: tu aguenta firme e se eu fizer o cateterismo e não aparecer nada, eu volto a fumar.

Só que depois que eu fiz o cateterismo e não deu nada (evidenciando que Deus cumpriu sua parte no nosso acordo silencioso), eu já tinha passado pelo que achava ser o pior – a abstinência inicial. E é o pior mesmo. Uma coisa meio “tá o que eu faço agora?”, que te ataca toda vez que chega uma hora na qual você costumava fumar um cigarro. 

Essa parte já estava meio que superada, e aí eu pensei: cacete, se amanhã ou depois Deus mudar de ideia e achar que eu vou ter sim que passar por uma cirurgia de peito aberto pra aprender umas coisinhas, eu vou ter que passar por essa merda toda de novo?

E aí, outra coisa pegou. A certeza de que, mesmo que eu nunca tenha que enfrentar cirurgia nenhuma, eu teria que parar de fumar um dia. Isso porque eu sou espírita, e realmente desejo, quero, e vou (e digo isso com a convicção de quem vai empenhar muita energia nisso) sair dessa vida bem soltinha, sem nada me prendendo aqui, pronta pra ser levada pelos meus parentes amados pra um lugar legal, como o Nosso Lar, ou algo assim (vamos ver até onde consigo chegar, né?).

Só que não tem como sair indolor assim se você fuma. Isso por uma série de questões que não vou aprofundar aqui, mas eu realmente sei que não posso dar passos maiores na escala da minha evolução se estiver baforando por aí. 

Então, eu parei de fumar por medo de sofrer consequências aqui mesmo na Terra, e me mantive ex-fumante por medo de sofrer consequências quando chegar a hora de eu dar adeusinho daqui.

Essas são minhas motivações. Encontre as suas. Quando você encontrar, você vai decidir. E quando você decidir, vai ser uma merda, mas você vai fazer. Não serei arrogante e ingênua a ponto de dizer que nunca voltarei a fumar. A vida me ensinou que a arrogância é má companhia na arte de manter conquistas. Ela te faz sentir infalível, e se você se acha infalível, abaixa a guarda e aí... já sabe, né?

A humildade te faz ficar atento, porque, ao ser humilde, reconhecemos nossas fraquezas. Se amanhã descobrissem que o cigarro na verdade não faz mal nenhum, que é até bom para qualquer coisa que fosse – ou seja, eu não estaria me matando ao fumar -, eu voltaria a fumar no mesmo minuto, ainda que eu fosse fedida e péssima companhia em elevadores. Eu não estaria prejudicando ninguém, só fedendo. Voltaria a fumar porque ainda gosto.


Imagino que algum dia, o cigarro vá ficar lá longe na minha memória, uma coisa que parece que eu nunca fiz. Uma coisa que simplesmente nada tem a ver comigo. Mas por hora, mantenho a consciência de que é preciso reacender constantemente a chama da minha motivação.