sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O outubro negro


O mês de outubro está chegando ao fim e é desde o início do mês que eu venho me cobrando este texto. Outubro é o mês de falarmos da prevenção em relação ao câncer na mulher. É mês de vestir rosa e espalhar aquelas lindas fitinhas rosinhas pelo face e por tudo, pra dizer pra todos nós e enfiar nas nossas cabecinhas que tem sim que ter tempo pra fazer mamografia, que tem sim que ter tempo pra fazer preventivo, que precisamos nos cuidar mais e não brincar com assunto sério.

Acho uma campanha super válida e poderia colocar aqui o artigo de uma ginecologista, ou fazer uma matéria sobre prevenção, etc, etc.

Acontece que, neste ano, meu outubro foi diferente. No primeiro dia do mês do outubro, às 6h15, eu, minha irmã e minha mãe estávamos na porta do Hospital Nossa Senhora da Conceição, uma malinha e uma sacola de exames nas mãos.

Pouco tempo depois, eu e minha irmã burlamos as normas de que somente um acompanhante poderia ficar com o paciente e nos fizemos de loucas entrando as duas no elevador com uma enfermeira e mais uma porção de outros pacientes e seus acompanhantes.

Às 7h, nós já estávamos num lugar chamado de sala de espera da cirurgia, onde nós e outras pessoas sonolentas e angustiadas esperávamos. Assim começou meu outubro negro.

Foi uma ironia que a cirurgia de mastectomia da minha mãe tenha sido marcada justamente para o primeiro dia do mês dedicado à prevenção do câncer de mama.  Isso porque minha mãe mesmo não tem medo nenhum de dizer que, se não descobriu a doença logo no começo, e sim quando ela já estava com dois nódulos de tamanho considerável na mama direita foi por falta de prevenção.

“Eu não me cuidei. Não posso me queixar agora, nem me sentir injustiçada por nada, porque sei bem da minha culpa”, diz ela pra mim.

Não que ela esteja se arrastando por aí e se queixando. Se você ver minha mãe caminhando pela casa de manhã e reclamando como sempre, fazendo várias de suas “artes”, você vai pensar: “a Litiane inventou essa história, essa mulher nem está com câncer nada”.

Quisera eu que fosse. Quisera eu que esse fosse um de meus contos. Mas não esse. Essa é a vida real.
Naquele primeiro dia de outubro, tudo deu certo. Eu não queria começar a pegar aquele telefone que estava na minha frente e dizia algo tipo “para obter informações sobre pacientes em cirurgia ligue XXX”.

Isso porque, além do aviso pedir nada sutilmente, em letras garrafais, para não ligar antes de três horas de cirurgia (o SUS é de uma delicadeza incrível), eu não queria começar a ligar e ouvir que ainda não havia notícias. Isso porque eu sei que cada vez que dizem “ainda não tem notícias, senhora”, eles roubam todas as suas esperanças de ouvir “está tudo bem não se preocupe”, que era o que seu coração mais desejava.

Sei disso porque aquele não foi meu primeiro momento negro. Eu já passei por isso, sabe. Passei na cirurgia do meu avô, passei nas duas cirurgias do meu pai. Por motivos que certamente não são apenas uma palhaçada do universo (afinal eu acredito que existe sentido nessa coisa toda), meu avô e meu pai também tiveram câncer.

Antes, porém, minha mãe estava lá. Ela estava passando pela angustia de esperar um ente amado em uma cirurgia junto comigo. Ela só não pode estar naquele 1º de outubro, porque nesse dia, era ela quem estava no centro cirúrgico.

Então eu não queria ligar e me ocupei dando uma organizada básica naquela sala de espera, atendendo o telefone, procurando os parentes solicitados, explicando as regras aos recém-chegados, esclarecendo dúvidas. Quase consegui um cargo de gerente da sala de espera, uma pena que ele não exista, até porque nós estávamos precisando de alguém pra ir ali nos dar uma ajuda às vezes, mas estávamos completamente entregues a nossa própria sorte, porque do hospital mesmo ninguém aparecia. Uma sorte que as pessoas, em suas dores e angustias, se ajudam.

Chegou um momento, porém, em que alguém falou: “dá pra ligar pra saber notícias também, né?”. 

No mesmo minuto todo mundo olhou pra mim. Como gerente da sala de espera não pude me omitir. Mas como ia ligar, não podia deixar de perguntar da minha mãe, por mais medo que tivesse de não ter notícias.

Mas Deus foi tão generoso comigo que, ao perguntar pela primeira vez eu ouvi logo o inusitado. “Ah, ela já está na recuperação, já está acordada e vai descer pro quarto em uns 15 minutos”.

Você pode me perguntar então: nossa, Liti, se tudo deu certo, se sua mãe está se recuperando bem, porque você colocou o nome dessa crônica de outubro negro? Isso é mórbito, isso assusta, isso é de mau gosto.

Eu estou completamente certa de que minha mãe vai vencer esse câncer. Estou convicta de que ela vai aprender com ele o que tem que aprender e vamos tocar nossas vidas, melhores do que antes.

Mas esse outubro de 2015 foi sim um outubro negro. Não venha me dizer que tem coisa pior, não venha me dizer que se eu tenho fé não posso falar assim, não venha me dizer nada. Apenas me ouça. Porque o que eu tenho pra dizer é importante.

Ninguém quer um câncer na sua vida. Seja ele no seu corpo ou no de alguém que você ama. Se por algum motivo bizarro qualquer você acha que quer, acredite em mim, você não quer. Vai lembrar que lhe avisei quando estiver com dor, quando estiver passando por cirurgia, quando estiver sem cabelos, quando estiver fazendo radio e/ou quimioterapia.

É claro que pode acontecer de você perceber que uma doença qualquer te ajudou a se tornar uma pessoa melhor em função dos valores, dos ensinamentos, de uma série de coisas, mas se você puder aprender tudo isso sem passar por essa dor tamanha, ah meu amigo, você vai preferir.

Então faça o favor de se prevenir. Vá fazer essa droga de Papanicolau, vá fazer mamografia. Se você é homem, cuide da sua próstata mesmo que isso possa ferir seu orgulho naquele examezinho danado de ruim. Você nem precisa contar pra ninguém.

Se você não tem grana pra fazer exames particulares, nem plano de saúde, exija seus direitos no SUS. O serviço público não é gratuito, você paga impostos até pra comer um pão. O SUS tem que disponibilizar prevenção, e se houver omissão, vá pros jornais, pra justiça, pro face, abra um bocão.

Mas cuide do seu corpo, que é a casa temporária da sua alma. Não deixe o cuidado pra depois. 
Porque todo outubro com câncer é negro. Porque sofrer é uma merda. Porque ver quem você ama sofrer é uma merda. Então se tem uma maneira de você fazer com que o sofrimento seja menor, detectando o câncer de forma precoce, faça isso.

Eu demorei até quase o último dia de outubro pra escrever esse texto por um motivo. Eu não consigo dizer como me sinto. Eu escrevi sobre o caso da minha mãe no jornal. Eu sentei na frente dela e a entrevistei, depois sentei e escrevi uma reportagem de uma página sobre a história de minha mãe e sobre câncer de mama. Eu gravei um vídeo com ela falando sobre isso.

Tudo isso eu posso fazer, e nós fizemos na intenção de que isso possa ajudar outras mulheres a não deixar pra depois, como ela deixou. Mas eu não posso dizer como me sinto diante da luta que estamos travando.

Não sei falar do que sinto quando penso na quimioterapia, nos exames futuros, nos próximos passos. 

Não posso fazer isso. E nem vou. Vou dizer apenas que o outubro negro está chegando ao fim. Sei que não será novembro, talvez não dezembro nem mesmo janeiro, mas quem sabe eu possa sonhar com um fevereiro rosa. Ou março. Só sei que vou sonhar. Vou sonhar com o momento em que eu possa escrever – vencemos.

Mas eu sei que até lá vai haver sofrimento. Então, dentro da pele de quem está sofrendo, eu te peço: se você pode evitar, não deixe de fazer isso. Se você pode não sofrer, não escolha o sofrimento.
Uma vida rosa é o que queremos para todos nós.

E com a palavra, dona Nara: