terça-feira, 27 de outubro de 2015

Sobre opiniões e coices

Eu sou uma pessoa analítica. Sempre foi assim. Sempre fui aquela que ficava mais quieta na sala de aula, ouvindo, olhando, pensando. Não apenas na matéria, mas no jeito do professor, nas conversas paralelas, no jeito que cada colega se posicionava.

Você pode não acreditar nisso, porque sou uma pessoa que fala muito, hoje em dia. Minha mãe pode atestar que nem sempre foi assim. Quando eu era pequena, você tinha que praticamente mandar um memorando solicitando se quisesse saber o som da minha voz.

Mas hoje eu falo muito, mas não se engane. Eu estou analisando sempre. É cansativo. Não quer dizer que estou sempre cuidando da vida dos outros, na verdade é muito diferente. Eu gosto de avaliar mais profundamente antes de sair formando opiniões sobre qualquer coisa que seja.

Ilustra isso uma das minhas primeiras entrevistas de emprego, na qual tinha uma daquelas insuportáveis dinâmicas, na qual tínhamos que debater um assunto qualquer. O tema foi dado e tínhamos que debater, ou melhor, sair falando qualquer coisa pra impressionar, mostrar que tem opinião, ou seja lá o que for que se espere de alguém em uma entrevista de emprego.

E eu fiz o que? Isso mesmo, fiquei ali olhando o debate e pensando. Uma opinião me parecia bem lógica, mas algum argumento contrário me pegava de jeito, aí uma experiência pessoal se misturava, e eu estava lá, montando o quebra cabeça da minha opinião quando uma candidata me apontou um dedo assustador.

Depois de muito refletir avaliei que ela deveria ser uma recrutadora infiltrada, mas o fato é que ela disse: “e você, Litiane? Qual sua opinião?”. Fez-se silêncio. Todos olharam para mim. E eu, calmamente, respondi: “eu estou formulando a minha opinião”.

Isso deve pegar mal em uma entrevista de emprego – até porque não fui contratada-, mas não deveria. Não deveria porque no momento que estou pensando, analisando, mudando, pesando argumentos, antes de formular uma opinião, significa que não estou saindo por aí dando qualquer opinião, apenas por dar, e, melhor ainda, que não estou aí repetindo “pré-conceitos”, embora eu queira que fique claro que toda opinião tem a influência de outras já existentes.

Mas eu pensei sobre ela. Refleti. Avaliei. Pesei. Joguei uma parte ruim fora, guardei uma parte boa, misturei com a parte daquela outra, tive uma ideia própria baseada em vivência e observação e acrescentei e “boom”, fez-se a minha opinião.

Como não ouvi tudo que existe sobre o assunto, nem vivi toda sorte de experiências que possam influenciar em minhas opiniões, no futuro, posso reformular aquela opinião.

Sim, estou dizendo que posso mudar de opinião. Sim, estou dizendo que não tem nada de problemático nisso. Sim, eu estou dizendo que isso é bom e faz parte da nossa evolução. Aliás, é um sinal dela.

Quando eu era muito jovem (porque jovem ainda sou, você pode ver pela minha cara de Barbie), eu tinha uma série de opiniões ferrenhas. Opiniões que eu defendia até a morte. Opiniões que, com a experiência que só essa coisa linda e apavorante que é a vida nos dá, foram se adequando, se moldando, se reformulando, crescendo, mudando.

Mudar não é ter cabelo preto e aparecer descolorida. Nada de errado se assim for bom pra você, mas mudança também vale se você tiver cabelo preto e aparecer com ele castanho médio. Ou se continuar com ele preto, mas fizer outro corte.

Mudanças não precisam ser da água pro vinho. Eu mantinha um namoro de seriedade intensa com o comunismo quando estava na faculdade (e antes que você pense em me tascar um rótulo de doidona maconheira, leia um pouco sobre o que é comunismo, de fato), mas, hoje, embora eu ainda ache que talvez seja um regime  quase ideal para se viver, eu percebo que ele tem falhas. E a maior delas é a falta da percepção de que talvez não estejamos tão evoluídos a ponto de viver nesse regime quase ideal.

Eu não conseguia ver nada de bom no capitalismo (tá bom, eu sempre gostei de Mac Donald´s, então quase nada), e hoje eu acho que talvez o capitalismo não seja o problema, mas sim o quanto nos agarramos nele pra defender uma desigualdade que nunca poderá ser justa.

Enfim, a essência do meu pensamento não mudou, mas o ponto de vista se ampliou.

Como uma pessoa que analisa muito, as redes sociais são um prato cheio. E o que eu tenho visto é uma coisa que me dá vontade de bater a cabeça na parede até abrir (a parede). Essa coisa de opiniões prontas, baseadas em nada, quase compradas na loja de departamento.

E quando eu vejo isso, penso duas coisas: ainda preciso evoluir muito, porque não posso ficar me exasperando com as dificuldades alheias, mas sim tentar ser útil para ajudar e a outra é, no dia a dia, como fugir da ditadura da opinião?

De repente, você tem que ter opinião sobre tudo. Até sobre o que nunca ouviu falar. Afinal, meu Deus, como assim você não ouviu falar? Meu Deus, você está ultrapassado!!

Em tudo você tem que dar opinião. Palpitar. Debater, mas, muitas vezes, não um debate saudável, mas sim algo agressivo, que beira a briga (isso quando não vira um barraco mesmo). Tipo, você vai no facebook da pessoa, insinua que ela é burra, esculacha toda a criatura e, pra mostrar civilidade, coloca no final: “grande beijo!” Se você chegou a ofender a criatura, você acrescenta “apareça pra beber uma”.

Isso me soa quase como uma intimidação. Eu denunciaria essa pessoa na delegacia. Sério! A pessoa me xinga toda e depois coloca um “apareça”. Soa como “vem aqui sua vaca, que aí eu te enforco, sua ignorante burra”.

Mas isso não me acontece muito e eu sei bem o porquê. As pessoas têm medo de mim. Tenho consciência do quanto posso parecer ameaçadora. Eu estou trabalhando duro pra ser mais sutil quando me expresso, mas é um processo lento. E mais lento ainda porque se você for intimidadora com uma pessoa uma vez e super fofa 100 vezes, em 90% dos casos essa pessoa vai dizer: “a Litiane? Nossa, tenho medo dela, ela é maior intimidadora”.

Faz parte. Espero que você esteja com pena de mim e espalhe por aí que eu sou super fofa, embora às vezes um pouco enfática demais.

Enfim, o que acho que tentei dizer com tudo isso foi que não precisamos ter opiniões extremas, absolutas em si mesmas, fechadas. Vou dar o exemplo da política porque é o mais óbvio. Você pode ser de direita, mas isso não quer dizer que tudo que a direita prega seja maravilhoso. Não quer dizer que tudo que a esquerda traz seja lixo. Ou você pode ser de esquerda, mas admitir que nem sempre tudo que a esquerda faz é maravilhoso e muitas vezes há erros evidentes. E você também pode não ser nenhum dos dois e ainda assim não ser burra e alienada.

Isso é bem simples. Pode ser assim com a questão religiosa também. Você pode ser ateu, mas não precisa dizer que toda (e ainda enfatizando bem o TO-DA) religião é exploradora, ruim ou errada. Não precisa achar que todo crente (no sentido de crer em Deus) é bitolado, imbecilizado ou careta. Você pode se permitir conhecer um pouco as ideias de uma pessoa que tem religião e ver que, mesmo que você continue sendo ateu, há princípios em uma religião que podem ser bacanas até pra quem não tem religião.

Assim como você pode se permitir analisar, pensar e conhecer algumas pessoas sem religião que entendem e vivem a caridade muitíssimo mais que pessoas que têm religião.

Você não precisa pegar sua opinião comprada na loja de marca ou de R$ 1,99 e se fechar num quarto e ficar atacando outros através de um computador. Você pode ler o que está escrito ali, refletir e, quem sabe, até melhorar muito sua opinião e sua vida.

E não pense que porque eu estou aqui escrevendo isso eu sou a musa da boa vontade e não me irrito profundamente com opiniões que me parecem absolutamente patéticas, pequenas, ridículas, nojentas, que vejo por aí.

Como já disse, vejo opiniões que tenho vontade de me atirar no chão e bater os punhos até doer. E muitas vezes, reajo mal a essas opiniões e solto um de meus famosos coices. Quem já tomou um sabe, porém, que eles normalmente vêm com um assoprinho arrependido.

Não estou dizendo que sou perfeita. Não estou insinuando que você tem que ser perfeito, ou mesmo não ter opinião, ou mesmo não dar opinião. Apenas se abra. Olhe com amor para o outro e tente ver se ele não pode te acrescentar algo. E, naqueles casos complicados (porque eles existem) você pode rezar pela pessoa, ou, se você não for de reza, se apiedar dela. Talvez até emitir uma opinião tentando contribuir, mas não precisa dar um coice. Um coice deixa marcas que assopros não apagam.


E não tenha medo nem vergonha de mudar de opinião. Não há nada de errado em se modificar. Como já dizia Raul: