quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um pouco de testosterona

introdução de Liti Marguerita

Hoje, Resenhas Femininas recebe seu primeiro post masculino. Embora homem seja assunto recorrente por aqui, este é o primeiro texto feito especialmente para o blog por um exemplar da espécie masculina. Eu convidei um amigo de longa data para escrever sobre um tema do qual ele gosta tanto quanto eu - relacionamentos. 


E, mesmo sem combinar, ele escreveu sobre um tema que eu queria abordar por aqui: como os homens se sentem com os relacionamentos atuais. Nós mulheres falamos muito do que queremos, do que gostamos, do que esperamos de um homem, mas a verdade é que as coisas ainda são bem confusas. Queremos um cara educado que abra a porta do carro, ou vamos julgar ele um machista se fizer isso? Queremos um cara que pague a conta ou vamos tentar matar o coitado se ele não nos deixar dividir? Se nem nós sabemos direito, imagine eles. 

Acho que lutar pelos nossos direitos e pelo fim dessa babaquice que é a clara diferenciação que existe entre os sexos e , em especial, contra o machismo que prega que uma mulher merece ser estuprada se estiver de minissaia é coisa que devemos fazer de forma permanente. Mas o fato é que existem por aí homens legais, homens que querem uma relação, homens que não são perfeitos, mas também não são opressores terríveis que estão esperando a hora de nós fazer de empregada. E esses homens se sentem confusos com a nossa própria confusão sobre o que esperamos deles. Até porque, vamos convir, o machismo tem que ser combatido não apenas entre os homens, mas no coração de muitas mulheres que tem cada pensamento absurdo que nem quero comentar aqui. 

Então, vamos receber com aplausos e agradecimentos o texto do meu querido amigo Hector Salas, publicitário, cartunista, inventador de moda, artista e arteiro.


A fila anda

Por Hector Salas

E lá estava eu em uma loja de departamentos (ainda tem este nome?). O único homem em uma fila de mulheres. Eu com minha sandália nova e elas com centenas de coisas para elas, para a casa, para os maridos e filhos.

Paciente, espero minha vez enquanto escuto uma senhora de seus 50 anos maldizer o marido em uma conversa em alto e bom tom com a mocinha do caixa:

-Homem não serve pra nada!

A partir daí seguiram queixas e outras frases do gênero repetidas como um mantra e automaticamente referendadas por todas da fila. Súbito, elas notam minha presença maculando o santuário feminino. Mas não fui queimado vivo. Elas apenas sorriem e fazem um “pedido de desculpas” engraçadinho.
Neste momento eu, que até então era a escória da humanidade e não tinha me metido na conversa, sorri também e em tom de brincadeira perguntei:

- E vocês acham que é mesmo fácil ser homem?

Elas se olharam sem entender muito bem o rumo da prosa e, aproveitando a surpresa, completei.

- Vocês acham que é fácil ter que cumprir à risca as expectativas que criaram em vocês e que vocês perpetuam de que nós temos que ser “perfeitos” tal qual um “príncipe encantado”? Que temos que ser amantes, namorados, bem sucedidos, provedores, companheiros, seguranças, carregadores, eletricistas, encanadores, office-boys, despachantes, atletas, mecânicos, cavalheiros e seguir a risca um padrão criado em filmes de sessão da tarde e histórias infantis?

Eu prossigo:

- É um padrão que é impossível de alcançar. E por mais que façamos boas coisas ou tenhamos qualidades jamais seremos tão legais quanto o sonho  idealizado. Uma pessoa é responsável por suas atitudes, mas o responsável pelas expectativas é quem as cria. Da mesma maneira, a mulher quer se libertar da imagem obrigatória de ser “do lar” e uma companheira “compreensiva” para as piores falhas de seu companheiro.


Silêeeeencio. E por fim olhares e sorrisos de aprovação. Chegou minha vez de pagar e fui embora acreditando ter contribuído para a preservação da espécie.