quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Não, eu não quero ser uma super mulher, obrigada

Então tá. Nós mulheres, lutamos aguerridamente para ganhar salários melhores, ter direitos iguais, não sermos vistas como objetos, poder usar roupa curta e não dizerem por aí que por isso merecemos ser estupradas, etc, etc, etc.

Lutamos pelo óbvio, pelo que jamais deveria ter sido diferente, assim como nossas antecessoras nessa luta queimaram sutiãs e brigaram para poder votar, trabalhar, andar na rua, etc, etc, etc.

O óbvio. Simples assim. Por enquanto, eu nem vou falar sobre o fato de que vejo tantas mulheres que são mais machistas que os próprios homens e que muitas e muitas vezes são elas mesmas que vêm com esse papo de que a mulher “tem que” (e desse “tem que”, saem todos s tipos de absurdos).

Vou apenas me apegar em outra coisa neste texto. Essa história de que a mulher tem que ser uma diva, uma super mulher, capaz de fazer mil coisas ao mesmo tempo, que dá conta de tudo, etc, etc, etc.

E aí vem o mesmo papo machista de sempre dizendo: elas são demais. Cuidam dos filhos, trabalham fora, fazem almoço, organizam a casa, cuidam do maridinho e fazem gostosinho. Vão pra academia, se matam malhando, se sujeitam a arriscar voluntariamente a vida em uma cirurgia de recuperação dolorosa pra ficarem bonitas ou terem peitos duros. Por que, sinceramente, depois que inventaram o silicone não existe mais desculpa pra ter peito mole, né (sim, isso é uma ironia)?

E aí você diz: é!

Você diz sim, e concorda que consegue dar conta de mil coisas, e se sente a poderosa porque se mata trabalhando fora, cuida dos filhos, tenta educa-los, mantem a casa em ordem e ainda é gostosona. 

Você é diva. A diva que as outras querem copiar.

E você se sente o máximo. Está estressada, nem sabe mais do que você gosta porque não tem tempo livre e, quando tem, faz o que ele ou os filhos querem, naturalmente, ou então faz compras por puro rótulo (afinal, mulher TEM que amar fazer compras, né?). Está cansada, morta, mas mal consegue dormir, odeia o trabalho e poderia assassinar o chefe com os dentes, mas não tem tempo de procurar outro, tem vontade de morrer quando pensa em ir pra academia, etc.

Mas vai. Vai porque você é uma super mulher, que dá conta de tudo.

Às vezes tenho a sensação que, nesses anos de luta, a maior parte das mulheres só foi acumulando funções. Lutamos pra trabalhar fora, aí falaram: beleza, trabalha fora desde que não deixe de cuidar das crianças e da casa.

Lutamos para usar a roupa que gostamos, aí tá, tudo bem, você pode usar, desde que você esteja gostosa o suficiente, por que, peloamordedeus, você não vai usar minissaia se tiver celulite, né? Fora o fato de que alguns vão dizer: usa a roupa que quiser, mas não reclama se eu passar a mão na tua bunda ou até mesmo te estuprar, porque você está me provocando.

Enfim, acho que estamos mais sobrecarregadas, infelizes e injustiçadas do que nossas amigas da década de 60. Talvez se elas soubessem que ia dar essa merda toda, nunca tivessem tirado o sutiã.
Então, eu hoje estou aqui, como diria Roberto, para dizer que não quero ser uma super mulher. 

Agradeço a oportunidade, mas vou preferir ser só um ser humano. Adoraria ser um super ser humano, um ser humano massa mesmo, um ser humano legal, que faz coisas bacanas e ajuda os outros, e vou tentar.

Mas sobre me matar na academia, ser uma mega mãe, mega esposa, mega profissional, e brilhar como uma diva, valeu, eu PASSO.  Sinto muito por quem possa estar interessado no assunto, mas possivelmente vou ficar com peito mole mesmo, porque não pretendo me arriscar numa mesa de cirurgia sem necessidade.

Não estou aqui condenando quem se cuida, nem quem faz cirurgia, menos ainda quem quer ser mãe e trabalhar fora. Critico sim a ideia de que essa é a mulher que devemos tomar como padrão para seguir. Tipo a forma perfeita.

Critico esse endeusamento de uma mulher que tem a obrigação de se matar fazendo tudo e ainda achar lindo. E nós mulheres sabemos que não é bem assim. E sabemos que está na hora de realmente termos direitos, inclusive o direito de estar cansada, de precisar de descanso, de ter um pouco de lazer verdadeiro e também de decidir se vai ou não querer uma carreira. E, se tiver, vai querer não ter condições diferentes que as  dos homens, nem salários menores.


Enfim, queremos ser seres humanos. Apenas, sem diferenciação, mas respeitando as diferenças. E parem de dizer que mulher é diva e o é máximo porque faz duzentas coisas ao mesmo tempo. Queremos também ter o direito de não fazer nada, ou de fazer uma única coisa, sem estar com a cabeça explodindo porque temos outras trezentas pra nós preocupar.