sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Uma reflexão sobre o "saudável" hábito de julgar



Então tá – você emagreceu. Você perdeu 30 quilos e ficou linda (o) e dentro dos padrões de beleza, que sei lá quem inventou.

Você mudou de vida, parou de se matar (porque antes tomava 5 litros de coca cola por dia, ou fumava 30 cigarros, ou usava drogas ilícitas, ou pior, bebia e dirigia), descobriu que carne é veneno, que glúten mata as células, que açúcar rouba vitaminas ou que grãos são venenosos para o ser humano.

Você se tornou outra pessoa, começou a participar de corridas, tá malhando, largou o netflix perpétuo que era sua vida ou passou a sair menos pra balada e ir mais pra academia.

Legal pra você. Legal mesmo!

O que eu te peço, porém, é que você entenda que tem pessoas em fases diferentes que a sua. Tem pessoas que não estão nem aí pra alimentação, nem pra saúde, querem mais é viver o momento, estão passando por um bocado de merda e querem sim comer muito carboidrato.

Há pessoas que não estão buscando se encaixar em padrões de beleza e desejam ser amadas da forma que são.

Há pessoas que estão infelizes, doentes, tristes, lascadas mesmo e usam drogas, o que é terrível, concordo, mas há pessoas que estão passando por isso.

Há pessoas que bebem e dirigem sim, infelizmente, colocando em risco não só sua vida, mas a minha e a de todos, o que é inclusive um crime conforme as leis deste país, mas há pessoas que fazem isso.

Há pessoas que odeiam academia e não querem correr.

Há pessoas inclusive que, pasmem, não podem fazer exercício por orientação médica, porque têm problemas de saúde e - por mais que você ache que poderiam ser solucionados se ela não comer glúten e malhar -, o médico, sim, aquele cara que estudou anos e anos disse que infelizmente a doença que ela tem pode levar este paciente à morte se ele fizer exercícios. 

E há pessoas que, acreditem, estão bem como estão, comendo carne, sem academia, gordinhas... enfim. Existem pessoas que estão preocupadas com outras coisas neste momento, como a família, a carreira, sua vida pessoal, sua melhoria como ser humano, causas humanitárias, mil coisas que não têm a ver com o corpo ou com a saúde física especificamente, mas sim com a saúde mental e com a vida.

Não quer dizer que elas não se preocupem com a saúde. Talvez elas procurem ter uma alimentação equilibrada, sem exageros, talvez elas até façam alguma atividade física (fora da academia também rola, sabia?), mas elas estão mais preocupadas com outras coisas.

Pode ser que alguns dos casos que citei sejam tristes, sejam péssimas atitudes que as pessoas estão tomando pra si mesmas, mas o fato é que cada um está passando por aquilo que está. Amanhã talvez, essa pessoa pode estar em outro momento. Amanhã ela pode também começar a adotar uma atitude mais saudável em vários sentidos (não necessariamente na academia e na dieta, mas em uma religião talvez?). Mas a questão é que cada um tem seu tempo, seus caminhos e seu jeito de lidar com a vida.

Aí você me diz, ah, mas é que eu quero ajudar, quero mostrar pras pessoas como melhorei, quero ser um exemplo.

Excelente! É nobre sua intenção. Seja um exemplo. Quer mostrar lá no seu face como você mudou? Mostre. Quer dizer que você acredita que todo mundo pode conseguir o mesmo? Diga. Quer contar sua história? Conte.

Vou me arriscar a opinar que o que você não deve fazer, porém, é deixar que o orgulho de si mesmo e de sua atitude te torne uma pessoa arrogante e dona de toda a verdade do mundo. Como se só o caminho que você tomou tivesse validade. Se você fizer isso, eu realmente acredito que era melhor você ter continuado com seus quilinhos, mas mantido a humildade.

Cair na arrogância, começar a entrar em embate, postar matérias criticando pessoas que estão acima do peso, escrever textos citando outras pessoas, nominalmente ou não, mas que vão saber que são elas, falando de como elas são péssimas porque não seguem seu exemplo, etc, etc, etc. Se você faz isso, eu te pergunto, é sério que você acha que melhorou, meu amigo? Pois repense. Talvez você esteja pior hoje. Ou talvez esteja igual, só que magro (a).


Julgamentos

Há 13 anos eu parei de beber por vários motivos. Mais recentemente, há cerca de 1 ano e meio, eu parei de fumar, e até postei umtexto sobre essa última experiência aqui no blog. Eu me sinto bem com essas duas atitudes? Sim, imensamente. Sei o quanto foi bom pra mim fazer isso. O que eu procuro, porém, é não julgar as pessoas que são fumantes e nem as que bebem, sob qualquer circunstância.

Simplesmente porque eu não tenho esse direito. Não tenho não só porque eu já bebi e já fumei, mas especialmente porque ninguém me deu o poder de julgar as pessoas, seja lá pelo que for.

Não sou perfeita, no dia a dia, julgo as pessoas por várias atitudes chatas, péssimas, horríveis, criminosas ou erradas na minha concepção por vários motivos. Não deveria fazer isso, mas faço. Estou procurando julgar mais a mim mesma e mudar as minhas atitudes erradas e menos os outros, mas não é fácil. Mas to tentando.

Outra coisa que você precisa entender: quando você vê um (a) gordinho (a) na rua, não pode nunca, jamais, julgar essa pessoa uma fraca somente pela aparência. Essa criatura que você vê pode ser mil vezes melhor do que você em milhares de coisas. Talvez seja uma pessoa que vive pra se doar pros outros. Talvez seja um desses caras a quem toda turma recorre quando está com problemas porque é o famoso “amigo que está sempre ali”. Também seja um batalhador que passou fome e conquistou coisas a duras penas. Ou talvez não seja nada disso. Talvez seja uma pessoa chata, pentelha, que ninguém gosta e que também é obeso. Poderia ser magro.

Está cheio de pessoas “saúde” chatas, pentelhas, egoístas... cheio, minha gente. Então, cuide pra não ser mais uma delas.


Os famosos

Aproveitando o que ocorreu recentemente com a Preta Gil, toda essa questão fica ainda mais delicada quanto falamos dos famosos. Já ouvi todo tipo de argumentos.

Um deles é – “ah, mas ela (e) trabalha com a imagem, tem que estar bonita (o).” Sobre isso, me desculpe aí, amigo ou amiga, mas quem trabalha com sua imagem é modelo. Ator não trabalha com sua beleza, trabalha com seu talento de atuar. Cantor não trabalha com sua imagem, trabalha com seu talento pra cantar. E assim vai. Deve ser por pensamentos como o seu que temos tantos péssimos cantores e cantoras bonitinhos fazendo sucesso e tão poucos talentosos de verdade.

Outro argumento: “sendo uma pessoa pública que é referência, ela (ou ele) é exemplo pra outras então precisa dar bons exemplos”. Desculpa aí, mas seria bom que TODOS pudessem dar bons exemplos, especialmente as pessoas que são pais e mães, mas nem sempre é possível. As pessoas têm seus problemas e os famosos são apenas pessoas. Não pediram pra ser exemplo, apenas para trabalhar com o que gostam e a fama é uma consequência, mas eles não viram super heróis porque ficaram famosos. Se você tem dificuldades e problemas, não cobre perfeição dos outros. E se pensou “eu não tenho problemas”, então você tem um dos piores do mundo – está afogado em orgulho. Tome cuidado com ele.  


Comparações

Tenho visto pessoas comparando certo tipo de alimentos e hábitos com o uso de drogas. Se você faz isso ou pensa que é tudo a mesma coisa, é porque está muito enganado sobre o efeito devastador que um vício em drogas (e aqui falo de álcool, cocaína, crack, etc) tem na vida de uma pessoa e de todos que a cercam.

O vício em drogas faz as pessoas perderem a referência de qualquer coisa, assaltarem, até matar pra conseguir saciar esse vício. Sem entrar na discussão sobre “ah não, o cara só vai roubar se já não for boa coisa” que é o pensamento simplista vigente, digo apenas que vemos todos os dias pessoas assaltando pra conseguir comprar crack, por exemplo, mas eu nunca vi um obeso assaltar uma padaria pra conseguir um doce. Então meu amigo, guarde as proporções e pense melhor no que você está dizendo.

Não estou aqui desprezando a dor que uma pessoa que come por ansiedade ou outros distúrbios pode sentir e os efeitos que isso pode ter em sua vida. É claro que isso deve ser respeitado, olhado e tratado, mas não sei se vai ajudar ficar falando sobre o quanto você é incrível porque emagreceu e o quanto todos aqueles que não fizeram o mesmo são um lixo.

Talvez ajude se você der seu exemplo, sem fazer comparações e comentários arrogantes e sem fundamento científico.


Padrões estéticos

Não podemos desprezar e esquecer também o poder devastador que os padrões estéticos têm na sociedade. Se conheço 10 pessoas que emagreceram por uma mudança de vida em função de saúde, conheço outras 20 que emagreceram apenas para se encaixar em padrões.

Na verdade, se a pessoa quer, se está se sentindo melhor assim, não vejo problema e nem sou eu que vou condenar, até porque resultou em uma vida melhor pra ela. No entanto, padrões não são leis, não são benefícios, não são nada, na verdade. Ninguém precisa se encaixar em padrões para ser saudável ou bom. Então, aceite que aquela pessoa gordinha não tem obrigação nenhuma de querer estar no “padrão magreza”.

Os padrões são uma verdadeira porcaria, e, ainda que você esteja no padrão, o bom mesmo seria que todos nós (dentro ou fora dele) desejássemos e lutássemos para derrubá-lo. Pense que existem milhares de pessoas sofrendo incrivelmente porque não estão no padrão que você está defendendo como certo.

Aliás, uma pessoa pode sim ser saudável sem estar no padrão. O padrão nada tem a ver com saúde. Tem gente malhada e linda que toma anabolizante. Tem gente magra que fuma. E tem gente com uns quilinhos mais que por mil motivos tem mais dificuldade de emagrecer, mas procura ter uma alimentação equilibrada e faz exercícios leves, e está com a saúde perfeitamente em dia.


Mente saudável

Eu tenho diversos amigos que emagreceram, mudaram de alimentação e hábitos e não são arrogantes por isso. Nem ficam tentando catequisar ninguém. Ajudam com o exemplo, contam como foi bom pra eles, trazem dicas bacanas de alimentação. Tenho uma amiga que fez disso profissão e nada, mas nada, tem de arrogante ou chata. Pelo contrário, ela é humilde e disposta a ajudar.

E também tenho amigos que eu nem consigo mais chegar perto desde que emagreceram. Pessoas que eu lembro com saudades da época que eram não saudáveis, que Deus me perdoe. Pessoas que fazem a gente ter vontade de nunca se tornar uma pessoa saudável, com medo de ficar como elas ficaram.

Ou seja, quando você enche o saco dos outros e dá exemplos negativos em vez de positivos, você afasta as pessoas da ideia de ter uma vida mais saudável, seja o que for que você considere isso.

Pra mim, uma vida saudável passa por mil coisas que vão bem além dos hábitos alimentares e físicos. Uma vida saudável passa por ter uma mente saudável. Uma mente que julga pouco e age mais. Pense nisso. Faça sua mudança ser realmente saudável, para você e para os outros. Vai ser muito mais gostoso, eu te garanto.  


domingo, 17 de janeiro de 2016

Adoçando a vida

Uma receitinha nova pra adoçar a semana. Essa não é minha e sim da Divino Fogão. Ainda não testei, quem testar pode nos contar como ficou ;-p



Ingredientes para o pudim
500 ml de suco de laranja natural sem coar (retirar somente as sementes)
500 g de leite condensado
100 g de açúcar
2 gemas de ovo
4 ovos inteiros
Raspas de casca de laranja a gosto





Ingredientes para a calda:
250 g de açúcar 
6 unidades de laranja kinkan cortada em rodelas 
100 ml de água 
1 envelope de suco de tangerina em pó

Ingredientes do caramelo:
200 g de açúcar
50 ml de água

Modo de preparo

Juntar os ingredientes do caramelo e levar ao fogo, deixando ferver até dourar. Retirar e untar as formas apropriadas para o pudim. Reserve.
Ferver o suco de laranja com o açúcar, deixar reduzir um pouco.
Retire do fogo e adicione o leite condensado e as raspas de laranja. Misture, coloque os ovos e as gemas e misture mais um pouco.
Passe por uma peneira e coloque nas formas untadas com caramelo.
Coloque para assar em banho-maria por 40 minutos a 170ºC.
Modo de preparo da calda:

Misturar o suco em pó com a água e reservar.
Levar o açúcar ao fogo junto com as laranjas e deixar caramelizar sem ficar muito escuro. Deve ficar dourada.
Colocar o suco dissolvido e deixar ferver.
Regar sobre o pudim desenformado e frio.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O homem da vitrine

De repente, lá está ele
Sentado em restos de isopor
Nariz grudado no vidro da vitrine
Cruza meu caminho
Por um acaso do destino
Que estava escrito nas estrelas

O que olha na vitrine?
Namora aquele aparelho de som sofisticado?
Ou olha seu reflexo
Belo e solene
Sujo e vestido em trapos
Mas com a dignidade
Que só essa ausência de tudo
Pode dar a alguém

Eu olhava você
Homem da vitrine
E você olhava a vitrine
Ou será que me olhava
Com olhos da alma
E me via desprovida de meus traumas
Despida das minhas máscaras
Esquecida das minhas armas
Liberta desse carma
De escrever mais do que viver

E por que será que aquela figura solitária
Me marcou tanto a alma
Que mil palavras tenho
Mas não posso a descrever?

Homem da vitrine
Olhos fixos em algum nada
Um botão, um detalhe
Que lhe tocou o coração
E o fez ficar ali, parado
Sentado, apenas a ver

Ver o que, Deus do céu?
Ver o que não pode ter
Ele em trapos
Namorando o som caro
Arranhando meu coração
Com um amor tão desinteressado
No qual contemplar é mais importante que nas mãos ter

Nós dois naquele segundo
Em que ele admirava
E eu ali passava
Nós dois no mesmo planeta
Em mundos tão diferentes
E será que você entende
Como eu queria falar com você?

Fazer parte da tua mente
Ter esse pedaço inocente
Que te faz fazer apenas aquilo
Que deseja então fazer

Eu e você
Tão diferentes
Tão distantes
E tão unidos naquele instante
Em que meu reflexo
Se juntou ao teu na vitrine
Teu nariz colado no vidro
Meus olhos pregados em ti
Invejando teu ar confiante
De quem nada tem a temer

Homem da vitrine
Quem é você?
Meu mais profundo desejo
Meu maior desprezo
Minha dor mais impenetrável

Meu olhar te prende na mente
Por um instante antes de, desviado,
Se focar de novo à frente
Acima de nós o dia morrendo
O céu pintado de canetinha
E meu coração aos pedaços
E ao mesmo tempo cheio de esperança

Se pintar eu soubesse
Pintaria o homem da vitrine
Atrás dele o céu de canetinha
A sua frente o som que ele namorava
E olhando para ele
A mulher que a ele admirava
Com piedade, surpresa e uma lágrima nos olhos
Lágrima que assim como ela não sabia
O que na vitrine o prendia
Ela também não podia
Dizer se era por ele
Ou por si mesma.



...ele via a vitrine
E eu enxergava o mundo
Com sua beleza e sua dor
E me achava tão boa
Por ter misericórdia
Mas de que serve minha piedade
Se não o alimenta
Se não o sustenta
Nem dará a ele
O que ele namorava na vitrine
E nem fará com que ele deixe de ser
O homem da vitrine
Sentado em restos de isopor.