segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O homem da vitrine

De repente, lá está ele
Sentado em restos de isopor
Nariz grudado no vidro da vitrine
Cruza meu caminho
Por um acaso do destino
Que estava escrito nas estrelas

O que olha na vitrine?
Namora aquele aparelho de som sofisticado?
Ou olha seu reflexo
Belo e solene
Sujo e vestido em trapos
Mas com a dignidade
Que só essa ausência de tudo
Pode dar a alguém

Eu olhava você
Homem da vitrine
E você olhava a vitrine
Ou será que me olhava
Com olhos da alma
E me via desprovida de meus traumas
Despida das minhas máscaras
Esquecida das minhas armas
Liberta desse carma
De escrever mais do que viver

E por que será que aquela figura solitária
Me marcou tanto a alma
Que mil palavras tenho
Mas não posso a descrever?

Homem da vitrine
Olhos fixos em algum nada
Um botão, um detalhe
Que lhe tocou o coração
E o fez ficar ali, parado
Sentado, apenas a ver

Ver o que, Deus do céu?
Ver o que não pode ter
Ele em trapos
Namorando o som caro
Arranhando meu coração
Com um amor tão desinteressado
No qual contemplar é mais importante que nas mãos ter

Nós dois naquele segundo
Em que ele admirava
E eu ali passava
Nós dois no mesmo planeta
Em mundos tão diferentes
E será que você entende
Como eu queria falar com você?

Fazer parte da tua mente
Ter esse pedaço inocente
Que te faz fazer apenas aquilo
Que deseja então fazer

Eu e você
Tão diferentes
Tão distantes
E tão unidos naquele instante
Em que meu reflexo
Se juntou ao teu na vitrine
Teu nariz colado no vidro
Meus olhos pregados em ti
Invejando teu ar confiante
De quem nada tem a temer

Homem da vitrine
Quem é você?
Meu mais profundo desejo
Meu maior desprezo
Minha dor mais impenetrável

Meu olhar te prende na mente
Por um instante antes de, desviado,
Se focar de novo à frente
Acima de nós o dia morrendo
O céu pintado de canetinha
E meu coração aos pedaços
E ao mesmo tempo cheio de esperança

Se pintar eu soubesse
Pintaria o homem da vitrine
Atrás dele o céu de canetinha
A sua frente o som que ele namorava
E olhando para ele
A mulher que a ele admirava
Com piedade, surpresa e uma lágrima nos olhos
Lágrima que assim como ela não sabia
O que na vitrine o prendia
Ela também não podia
Dizer se era por ele
Ou por si mesma.



...ele via a vitrine
E eu enxergava o mundo
Com sua beleza e sua dor
E me achava tão boa
Por ter misericórdia
Mas de que serve minha piedade
Se não o alimenta
Se não o sustenta
Nem dará a ele
O que ele namorava na vitrine
E nem fará com que ele deixe de ser
O homem da vitrine
Sentado em restos de isopor.