terça-feira, 19 de abril de 2016

O que Bolsonaro não vai me tirar

Eu fiz o teste para ver quais dos meus amigos de facebook são seguidores do Bolsonaro. O resultado não podia ser melhor: "nenhum do seus amigos curtiu isso ainda". É de encher uma pessoa de felicidade imaginar que, de 600 e poucas pessoas que estão no meu face, nenhumazinha segue Bolsonojinho.

No entanto, eu não sou tão ingênua. Eu sei que tem gente que curte páginas (que devem ser outras e não esta que estava em "investigação" no citado teste) desse indivíduo adorador de torturadores. Sei porque tenho colegas, conhecidos e até familiares que gostam do Bolsonojinho.

Fico realmente apavorada de imaginar que pessoas normais assim "a olho nu" possam concordar com os discursos de ódio, sarcasmo barato e babaquice geral desse indivíduo que se promove pregando ódio, segregação, tortura e tantas outras coisas terríveis que já deveriam estar ultrapassadas em uma sociedade que já teve tantos ensinamentos pela dor.

O primeiro impulso é deletar todas as pessoas que seguem páginas "bolsomíticas". É nunca mais falar com criaturas que endeusam ou simpatizam com alusão à tortura, homofobia, machismo, racismo, etc, etc, etc.

Graças a Deus, e isso eu posso dizer que é graças a Ele mesmo, eu pensei melhor. Pensei melhor e vi que existe uma pessoa que eu sei que gosta do Bolsonojo da qual eu jamais poderia me desvencilhar, nunca poderia deletar do meu face, ou da minha vida, porque simplesmente eu o amo, amo e amo mesmo com todos os seus defeitos, inclusive o Bolsonojo. E sei que ele me ama com todos os meus defeitos, inclusive o que ele considera inadmissível, que é o meu lado esquerdista (e aqui vou deixar claro que esquerda não é PT).

Então, ao constatar esse sentimento, eu me senti estranha e a mesmo tempo tão feliz de finalmente entender que essa atitude comprova que estou conseguindo tirar um pouquinho, ainda muito pouco, mas um pouco inicial, digamos assim, da teoria a minha crença mais profunda, que é na verdade uma máxima de Gandhi: a de que podemos mudar o mundo pela verdade e pelo amor.

E o amor aceita, mesmo nas situações mais críticas. O amor verdadeiro também envolve ser duro quando necessário, com alguém que você ama, mas, antes de qualquer coisa, o amor não permite que você exclua uma pessoa da sua vida por uma diferença do opinião, por mais grave que ela seja. Pois estamos aqui todos para aprender, para melhorar, para evoluir - inclusive eu, que não sou nenhuma santa.

Eu não estou dizendo que vou concordar com o Bolsonojo ou com qualquer amante dele. Não vou dizer que aceitarei como normal apologia à tortura, homofobia, machismo, violência e tudo que sabemos que vem nesse pacote. Vou continuar defendendo um mundo de igualdade verdadeira e o banimento de políticos corruptos (de qualquer partido), pregadores de ódio, etc, etc, etc. Mas vou deixar o outro pensar o que ele quiser, mesmo que me enoje. No máximo vou deixar de seguir pra não ver coisas que vão me irritar. Em vez de ficar banindo pessoas da minha vida e do meu facebook, vou buscar propagar essa filosofia amorosa e igualitária na qual acredito.

Não estou aqui falando dos conhecidos. Pessoas que estão ali no face porque um dia passaram pela minha vida sem grande contribuição mútua, sinceramente, não faço questão. Aliás, eu tenho consciência plena de que 600 pessoas no face é só número. Eu não tenho 600 amigos. Eu sou imensamente abençoada com 6 ou 7 amigos que eu sei que posso contar pra tudo, 10 ou 12 que eu sei que posso contar pra muita coisa e uns 20 ou 25 que são pessoas lindas que me ajudarão se puderem em algumas coisas.

Tenho sorte de ter tantas pessoas maravilhosas em minha vida. Por isso mesmo, tenho repensado sobre essas 600 pessoas vendo coisas íntimas da minha vida, e, não vou mentir, tenho tirado alguns do face, outras colocado numa lista mais restrita, enfim, tentando me dar um pouco de privacidade numa coisa que é minha - o MEU facebook. Por isso, essas pessoas aleatórias que curtem o Bolsonojo serão sim excluídas, porque eu também não sou tão boa assim. Mas aquelas pessoas que, pela convivência, eu sei que não são apenas "bolsofãs", que contraditórias como todo ser humano, têm até atitudes muito diferentes deste discurso, dessas, Bolsonaro nenhum me faz abrir mão.

E tenho dito.