quinta-feira, 21 de abril de 2016

Porque o "bela, recatada e do lar" incomoda e porque nem devia

Eu não ia falar nada sobre o "bela, recatada e do lar", além da minha óbvia rejeição ao padrão "boneca" por trás, pelos lados e pela frente dessa ridícula matéria, expressa nas fotos que já colocamos na fanpage do Resenhas Femininas (aproveita e curta lá)

Não ia falar nada por dois motivos: um porque estou sem tempo, trabalhando feito louca; outro, porque estou com uma imensa preguiça da discussão política no entorno desse embate e, que minhas amigas mulheres de todas as naturezas que lutam por seus direitos todos os dias me perdoem, estou com preguiça até do embate homensXmulheres que se tornou o feminismo em ALGUMAS mentes. 

Mas não dá pra não dizer nada até pra não deixar de dizer que todas essas coisas são coisas bem diferentes (na minha opinião, e quem não quer saber a minha opinião, acione o útil "xiszinho no canto superior direito e feche esta página). 

Primeiro, feminismo não é luta contra os homens. Eu na verdade não posso negar que gosto muito de homens. Começando pelo meu pai e meu irmão, meus tios, primo, avôs, etc, seguindo pelos meus amigos e finalmente chegando nos namorados, paqueras, amores. Porque, sim, pasmem, eu sou feminista (acho que posso me chamar assim), mas não sou assexuada. 


Mas as minhas preferências afetivas e sexuais são o que menos importam aqui. O que quero destacar é que feminismo é uma luta para que as mulheres sejam vistas como seres humanos com desejos, direitos e, sim, deveres, como todo cidadão e como todo ser humano. E não me venha com esse papo de que já é assim, porque você sabe que não é. Existem lugares onde as mulheres ainda têm seus órgãos genitais mutilados ao nascer. E, no nosso Brasil da diversidade, mulheres e meninas (crianças) são estupradas todos os dias e ouvem que provocaram essa violência com seus shorts. 

Então me poupe do "tá tudo lindo". Não está e há muito pelo que se lutar. Ponto.

Ao mesmo tempo, me dá preguiça ver propagandas, textos e discursos que, ao invés de acompanhar a evolução feminina, tentam se aproveitar dela. Aquelas frases: "eu não preciso de aliança no dedo para ser feliz"; "eu quero ser a mega super bem sucedida na empresa e pisar nessa macharada". Essas coisas bestas. 

Está evidente que ninguém precisa de casamento pra ser feliz e que uma mulher pode comandar uma empresa, mas isso tudo é natural, é óbvio, é básico. Não precisa ser estimulado de forma a desmerecer a mulher que não quer ser presidente da empresa ou que deseja um companheiro. 

E aí chegamos à matéria da Veja. "Bela, recatada e do lar", não incomoda porque a mulher em questão é realmente bela. Incomoda porque coloca a lorinha com carinha angelical tipo Barbie como modelo de beleza. Soa como uma espécie de "chupa aí, feia (leia-se, diferente)".

A criatura em questão é bela mesmo, que bom! Mas, sinceramente, não me acho menos bela com meus quilinhos sobrando e meu cabelão cacheado revolto. Beleza é visão, não pode ser pré-conceituada. É por isso que comemoramos as Barbies gordinhas e de cabelo crespo ou azul, belas como as loiras, na minha visão. 

Você pode até dizer que a matéria não diz que somente o padrão da citada "possível-talvez um dia - futura primeira-dama" é beleza (e eu não sei se diz isso), mas eu te digo que se parasse no bela, tudo bem. A mulher é bonita mesmo. #fato.

Mas, ao lado do bela, nós temos o ponto crítico da questão. O tal recatada. No conceito, recatada quer dizer pessoa que tem modéstia, que é prudente ou sensata; pudica. Aí eu pergunto: baseada em que, já que, pelo me conste a reportagem nem sequer ouvir a mulher citada, a Veja diz que ela é prudente e sensata, ou mesmo pudica? Na observação? No empirismo? Nos anos de pesquisa sobre o exemplar da espécie? 

Enfim, é claro que aí estamos falando da "mulher recatada", aquela que se resguarda (leia-se: não sai "dando" por aí), que não usa roupa curta pra não provocar os “machos alfa” que não podem controlar seus instintos, tadinhos, que não fala palavrão, não bebe, não arrota e não ronca nem que esteja com a maior sinusite da face da Terra. Bobear ela nem fica doente. A mulher que diz "sim" ao marido, não tenta se "sobressair" a ele, sabe seu lugar, embelezando a paisagem do casal. Não fala alto. Não fica fazendo "exposição da figura" à toa pela rua. 

E aí, completando, é claro que essa mulher é "do lar". Aliás, eu acho que esse termo já é meio esquisito, ou pelo menos o pré-conceito que o envolve é muito injusto. A mulher que é “do lar” de uma família pobre ou de classe média (a normal, não os quase ricos) as vezes trabalha muito mais em casa que na rua.

Ela cuida dos filhos, limpa a casa, lava a roupa da galera toda, faz comida, lava louça e uma infinidade de outras tarefas para as quais não recebe nada. E, pior, por mil vezes tem que aguentar outras mulheres olhando pra ela e dizendo torto: "ah, você não trabalha, né?". Além de não serem reconhecidas pela família, muitas vezes. 

Eu acho que essas mulheres deveriam ser chamadas de "trabalhadoras não remuneradas do lar". Então vamos imaginar que nossa "possível-talvez um dia - futura primeira-dama" se ajoelhe no chão pra tirar o encardido do piso, limpe bunda de criança e lave as cuecas do Temer. Isso torna ela melhor ou pior do que alguma mulher? Não. Estaria só trabalhando como qualquer outra. 

Supondo outra situação, imaginemos que a mulher de Temer tenha empregadas domésticas, babás e não faça serviço de casa algum. Isso faz dela uma pessoa ruim? Não. Ser ou bom ou mal nada tem a ver com o trabalho que você faz. Vamos parar de achar que temos que ser as imbatíveis mulheres que dão conta de tudo. Sobre isso, minha opinião já ficou clara em texto anterior

O problema todo não é Marcela, e sim o conceito barato de retorno ao século passado, da mulher que "todo homem quer". E vou dizer pra vocês que conhece uma pilha de homens por aí que não querem uma mulher assim. Conheço muitos homens que adoram sim mulheres que pensam, que trabalham, que são suas parceiras, amigas, amantes e companheiras.


Se decepcionem neste parágrafo aqueles que acham que eu me alongaria sobre a implícita relação com a presidente Dilma, que, nesse conceito tosco de mulher ideal da Veja, seria a “não-aceitável”. Partindo de onde parte, um veículo declaradamente contra o governo, é evidente que isso existe, mas o conceito atinge todas as mulheres, e eu estou falando de mulheres e não de política. Política deixo para os entendedores. Por Dilma, posso dizer apenas que, como mulher ela é tão aceitável como qualquer outra. Como política, aí me permito o direito do resguardo da minha opinião.

Então gente, a matéria da Veja é um "ossinho" sendo acenado para os machistas de plantão, para os defensores de torturadores e meia dúzia de babacas que acham que vão ganhar alguma coisa se o Brasil tiver uma primeira-dama supostamente, por um motivo que não se sabe qual, mais respeitável que nós, as mulheres que estão aí falando palavrão, se enfiando na política e querendo ter salários mais justos. 

Nem mesmo devemos nos preocupar com uma tentativa tão besta, porque ela é risível. E fique claro que nosso problema não é com Marcela e nem com suas escolhas de vida (que, de verdade, nem conhecemos), mas sim com essa tentativa patética da Veja de mostrar uma mulher "aceitável" do ponto de vista "direitopata". E, com essa expressão roubada de uma amiga, eu defino pessoas que querem entrar numa máquina do tempo e voltar aos "anos dourados" da ditadura, da repressão feminina, etc, etc, etc, e não aos militantes de direita de bem, pessoas normais, que apenas têm uma linha de pensamento de direita. 

Ou seja, esse conceito é de para uma minoria patética, mas que nos incomoda porque ela é barulhenta. Ela vai pro face e vomita besteira. Ela vai pra mídia e fala como se fosse grande coisa. Mas não é. Por que o bem é silencioso, e quem está de cabeça baixa trabalhando no silêncio é sempre quem produz mais. Os que não têm força precisam berrar porque são fracos. O forte não grita, porque sabe que está fazendo sua parte, e que o serviço feito não pode ser desfeito. E assim caminhamos na direção do progresso, ainda que ele pareça lento. E o progresso não tem direita ou esquerda, ele tem pessoas que buscam se melhorar, caminhando juntas.