sábado, 7 de maio de 2016

A crônica inacabada

Da série #antiguidades, uma crônica inacabada para vocês...



Sobrevoando o oceano rumo ao meu amado e sedutor Brasil, me sinto, de repente (e até parece que isso é raro), tentada a refletir um pouco sobre minha vida e tudo que aconteceu, e ainda há de acontecer, pois minha crônica ainda não está acabada. Belos e interessantes, por vezes insensatos, por vezes fascinantes, são os caminhos que se apresentam na vida.

Ao realizar parte de um sonho e conhecer um pedacinho da Europa, não pude deixar de pensar em algo curioso e, por que não, bonito. Há anos atrás, um menino saia do prédio antigo do então iniciante, mas hoje principal jornal da cidade de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, com sua pilha de jornais embaixo do braço, seu sorriso pequeno, mas verdadeiro, no rosto, e andava pela cidade a entregar seus jornais. O nome deste menino era Euclides, que, muitos anos depois casou-se e teve três filhos – Cínara, Litiane e Thiago. Abandonou Novo Hamburgo pela capital Porto Alegre, viveu, criou sua família, e encerrou sua crônica em 04 de abril de 2001, jovem – aos 53 anos -, mas com o louvor de um lutador que vence muito, mas não perde a humildade. Meu pai Euclides teve o ponto final de sua crônica colocado por um câncer.

Bom, mais de 40 anos depois do menino Euclides entregar seus jornais por Novo Hamburgo, sua filha Litiane forma-se em jornalismo na cidade catarinense de Tubarão, mas, depois de muitas idas e vindas, vai parar onde? Em Novo Hamburgo, no mesmo jornal – hoje já em prédio novo -, na redação, e, um ano e meio depois de ingressar na empresa, escreve uma crônica sobre esta sutileza da vida, enquanto sobrevoa o oceano, em retorno da Europa, numa viagem feita a trabalho.

Então pergunto: há algo mais fabuloso que escrever diariamente a crônica de nossas vidas? Hoje, esta que escrevo não tem fim, está inacabada, mas não como algo que se deixou de fazer, mas sim como algo que a cada dia podemos acrescentar.

Acho que é preciso ter atenção a nossas crônicas inacabadas. Enfeitá-las, utilizar recursos para enriquecê-las, procurar palavras que se encaixem, escrever corretamente. Assim, quando vier o inevitável ponto final, ela será uma bela obra, que há de enriquecer outras crônicas, que ainda estão inacabadas.

Junho de 2005.