sexta-feira, 27 de maio de 2016

O terror nosso de cada dia

Rafaela virou a esquina já com um frio na barriga. Desligou a música que saia pelos fones de ouvido, no sentido de ficar atenta a qualquer barulho de passos, a não se distrair. Pensou em como seria bom ter algo como um spray de pimenta ou até uma arma na bolsa, mas, ao mesmo tempo, sabia que não estaria protegida, mesmo assim.

Afinal, seu medo teria tanto fundamento?

Entrou nas sombras da rua deserta, sabendo que não havia outra saída. Afinal de contas, os outros caminhos que ela poderia pegar para chegar onde precisava ir não eram menos assustadores ou arriscados que aquele.

Algumas lâmpadas estavam apagadas nos postes de iluminação pública e isso fazia com que ela se sentisse mais insegura naquele lugar. Será que as luzes, porém, poderiam poupá-la de alguma coisa naquela situação, pensou ela.  

Sentia-se covarde e quase ridícula por seu coração batendo acelerado no peito, mas não podia evitar. Tentou dizer pra si mesma que isso era exagero, que nada ia acontecer, mas não conseguia acreditar totalmente em suas tentativas de positividade. Sabia que sua situação era critica, e, o pior, quase ninguém mais sabia.

Quase ninguém ou talvez ninguém pensasse nela naquele momento, passando pela rua escura e deserta, com seus medos aflorando pouco a pouco e um a um se somando.

Os terrenos baldios cheios de mato eram perfeitos pra que o inimigo sem rosto se escondesse. Ela passava pelo meio da rua, tentando se manter o mais longe possível daqueles lugares. Uma casa logo à frente lhe acendeu uma secreta esperança de segurança, mas o local estava às escuras, parecendo abandonado, quase um convite para que ele estivesse lá esperando-a.

Ao deixar a casa pra trás, Rafaela sentiu seu corpo se arrepiar ao ver uma pessoa vindo ao seu encontro. Um vulto, apenas, por enquanto. Seu coração quase parou. A esperança de encontrar alguém naquele caminho deserto e isso lhe dar algum conforto se dissipou totalmente quando a aproximação não deixou dúvida de que era um homem. Ou seja, poderia ser ele.

Fingindo não estar com medo, ela atravessou a rua devagar. Ele a observou quando passou pelo outro lado. Não conhecer o rosto de seu inimigo deixava Rafaela mais fragilizada. Podia ser ele. Não importava se era branco, negro, baixo, alto, magro ou gordo, apenas podia ser ele.

Com o canto dos olhos, Rafaela respirou ao ver o homem passando e seguindo seu caminho sem olhar para trás. Deixou o ar sair lentamente. Logo à frente, então, viu um carro parado, metade na calçada, metade na rua. Dava para ver um vulto dentro dele. A felicidade de ver alguém tomando parte em seu pavor e talvez podendo defendê-la de seu inimigo virou quase terror quando ela pensou em como seria fácil para ele pegá-la e jogá-la para dentro do carro, sem testemunhas, sem ninguém que a ela desse algum crédito.

Tirou da bolsa a sombrinha, no sentido de que aquela pseudo arma pudesse pelo mesmo surpreender seu inimigo caso ele saltasse de dentro do carro. Mas ela passou pelo veículo sem susto.

Mais dez passos, ela chegou ao seu destino. A chave já estava na mão antes de chegar em frente ao portão. Rafaela entrou em casa e fechou a porta atrás de si. Mais uma vez, agradeceu a Deus por ter chegado bem em casa. Agradeceu por ter chegado bem, porque o caminho do seu trabalho para o seu lar tinha sim um pedaço muito deserto e escuro, que lhe dava medo todos os dias de sua vida. Por um breve instante, pensou em como aqueles minutos de aflição diária influenciariam sua vida, sua saúde, sua mente.

Pensou em como era ridículo se arrepender por ter colocado uma roupa mais justa naquele dia. 
Pensou em como era injusto sempre pensar em usar um calçado com o qual fosse fácil correr. Pensou em como era triste toda vez que ia sair com um paquera novo não estar certa se devia fazer isso, porque ele podia decidir por ela que era hora sim de transar, mesmo que ela não estivesse afim. Pensou em como era triste ter medo até do ex-namorado, porque ele podia decidir que queria mais uma vez e quem ia acreditar que ela não tinha aceitado?

E se isso acontecesse, o que as pessoas diriam? “Ela saiu com ele mesmo não conhecendo muito bem. Ela foi sozinha, bem que queria, ela estava usando uma roupa curta. Ela foi porque quis, ela foi e... mereceu???”

Rafaela não tinha medo, quando pegava o caminho escuro, de perder seu Iphone, o dinheiro que tivesse na carteira ou sua bolsa que comprara com esforço. Seu único pânico real era de que alguém simplesmente usasse seu corpo sem autorização, entrasse nela, a estuprasse. Seu único medo era de que, se isso acontecesse, ela nunca mais poder ter uma vida normal, jamais se esquecer do medo, da violência. Nunca mais dormir sem pensar nisso. Nunca mais amar ou sentir prazer. Nunca mais querer andar na rua.

Seu medo era não poder nem mesmo ver seu agressor pagar, porque sua roupa justa podia ser mais criminosa que a violência dele. Seu medo era que o fato de ter que andar de noite sozinha no caminho escuro, porque precisava trabalhar, fosse interpretado como um convite ao homem que, por algum motivo, a sociedade ainda defendia. Seu estuprador. Aquele que nem sequer existia, a não ser na sua mente, no medo diário, nascido das histórias e avisos de cuidado que já a seguiam antes mesmo dela ser mulher e saber o que era sexo.

O medo que ronda nós mulheres desde crianças, nos avisos de: “se algum homem fizer ou disser assim pra você, saia de perto dele e conte pra mamãe”. Um medo transmitido de geração para geração e que existe apenas por um único motivo: nascemos mulheres.


E se você acha que este texto é um exagero, pergunte para Bia se ela também acha: http://bhaz.com.br/2016/05/25/trintahomens/.