terça-feira, 7 de junho de 2016

O que não mudou, mas precisa mudar

Há dias eu penso no caso do estupro coletivo que ocorreu no RJ, com uma menor de 16 anos. Resolvi chamar de estupro porque, pelo que li até agora, a investigação já concluiu que houve a violência, embora muitas pessoas pareçam inclinadas a discordar e até acusar profissionais que estudaram e fizeram concursos para ser investigadores. Só quero deixar claro que embora eu ache sim que houve estupro, não falaria isso por mera suposição minha, tomando estas suposições como sentença.

Já rolou de tudo, em função do que este crime gerou. O fato das pessoas culparem a vítima me deixou com raiva, triste, em pânico, com vontade de chorar, de sacudir, de estapear pessoas, de gritar, espernear, uma porção de sentimentos e reações.

Eu até cheguei a escrever um texto sobre o assunto que talvez eu publique depois de revisar. É maravilhoso, porém, o fato da maturidade te ensinar que, quando você está com muita raiva ou tristeza, o melhor é esperar. Deixar o turbilhão passar e pensar. Refletir.

Ao me dar esse tempo, eu percebi que nesta discussão toda que se seguiu ao crime há coisas mais profundas das quais preciso falar.

Em primeiro lugar eu quero pontuar com muita clareza que não existe “mas” em caso de estupro. Não há justificativa para estupro. E sim, se a garota que foi vítima neste caso estivesse fazendo a maior suruba, ainda assim, se, em algum momento, ela pediu para parar, ou foi sedada, isso é estupro e ponto final. Não há discussão possível sobre isso.

O que me deixa absolutamente chocada, porém, é que milhares de pessoas se embateram na internet sobre ser ou não ser estupro, por isso ou aquilo (muitas delas procurando inacreditavelmente um motivo para justificar um estupro), e eu não vi ninguém levantar uma questão chave.

Se, e apenas se, em algum momento, realmente passasse na cabeça da moça, que tem 16 anos, ou de qualquer outra menina, fazer uma suruba tamanho “extra grande” com 30 caras, como isso pode ter ocorrido?

Entre nós aqui, adultas e adultos, vamos pensar – alguém realmente acredita que uma mulher pode ter prazer transando com 30 homens ao mesmo tempo? Alguém acha que ela não vai se machucar, se cansar, se ferir de verdade ao fazer isso? Acredito que, salvo raros casos de fantasias muito bizarras, que são bem raros mesmo, não há prazer de verdade nisso.

Homens, esqueçam os filmes pornôs bizarros que vocês assistiram. As mulheres normais, no dia a dia, não estão sonhando com uma suruba. Se isso é sonho de consumo de alguma moça (e a investigação já aponta que não foi o caso dessa moça em particular, porque ao que parece ela foi sedada e estuprada), mas se, como algumas pessoas bradam na internet, uma super suruba com 30, 50 sei lá quantos caras é sonho de consumo de garotas que falam isso nas redes sociais, o que está acontecendo que leva a isso?

A ideia de que nós mulheres temos que ser aquela palavrinha com P e quatro letras na cama, de que temos que mandar bem, ser safadas, rebolar gostoso e pegar todos não surgiu do feminismo, amiga e amigo. Ela vem do mesmo lugar de onde veio a ideia de que temos que ser “belas, recatadas e do lar”. 

O feminismo é uma luta por direitos, não por imposições. E ser gostosa, safada e estar pronta pra ser devorada é a nova imposição social machista.

Vejam as músicas, as propagandas, a moda, enfim, tudo que nos impõe essa coisa de que temos que ser as “fodonas”. Elas vêm do mesmo lugar de onde saíram os conceitos de mulher “que se dá o respeito”, seja lá o que isso for, de “mulher pra casar” etc, etc – ou seja, daquilo que os homens (ou, pra ser justa, uma parte deles) esperam de nós. E o feminismo, ao contrário, busca combater as músicas que agridem as mulheres neste sentido, as propagandas que tratam a mulher como objeto etc. 
O feminismo pede apenas o direito de que sejamos livres para escolher o que queremos em relação a sexo e um monte de outras coisas, não é um estímulo para surubas.

E nem estou aqui condenando as surubas em si. Cada um que faça o que quer, mas por gostar e não por imposição, por meta, por concorrência estimulada pelo mesmo machismo que nos dizia no passado que tínhamos que estar prontas para sermos usadas pelos nossos maridos mesmo se estivéssemos com dor de cabeça.


E quando você, mulher, vai lá pro face falar que um estupro ocorreu porque a mulher não soube “se preservar”, conceito absurdo, pois um estupro não ocorre onde não tiver um estuprador, você está alimentando o conceito machista do passado, do presente e do futuro. Então, cuidado, pois, amanhã, sua filha pode estar fazendo suruba sem sentir o menor prazer nisso, mas porque é o que se espera de uma mulher. E o feminismo, coitado, segue levando a culpa.