quinta-feira, 28 de julho de 2016

Sim, é impossível ser feliz sozinho (a)

Eu, embora tenha plena consciência de que há muito machismo incutido em mim pelas crenças que acabam se arraigando em nossas mentes, me considero uma feminista. Dia desses, em uma das páginas que sigo sobre o assunto e que considero muito boa, me deparo com algo que bateu fundo no meu coração e que me levou a escrever este texto.


Com um trecho de uma música de Tom Jobim que eu adoro no qual diz “É impossível ser feliz sozinho”, julgava-se o querido e inteligente maestro por um trecho isolado de uma música, afirmando-se que nossas letras de música nos faziam acreditar que não podemos viver sem um homem.

Eu fiquei inicialmente indignada com um discurso baseado em algo tão sem contexto e sem nexo, mas depois que passou a raiva, fiquei profundamente reflexiva sobre se essa frase nos fazia acreditar que não podemos ser felizes sem um homem.

E aqui, vou dizer não apenas porque não foi isso que Tom disse com a música, mas ainda direi mais – porque a frase é profundamente verdadeira.

Em primeiro lugar partiremos do óbvio. A música não diz “mulheres não conseguem ser felizes sem um homem do lado”. Ela diz: “é impossível ser feliz sozinhO”. Saliente-se que isso se refere à solidão e não a namoro ou casamento, e não se refere à mulher, e sim aos seres humanos em geral. Ponto final (pra mim, pois o choro é livre).

Em segundo, eu concordo plenamente com a ideia. Sim, é impossível ser feliz sozinho. Imagine que você acordou pela manhã, olhou em volta e sua família desapareceu. Não tem pai, nem mãe, nem irmãos pentelhos e amados, nem sobrinhos, nem mesmo o cachorro ou o peixe. Aí você pensa, eles devem estar na rua.

Mas ao ir para a rua você descobre que todas as pessoas desapareceram. Nada. Nem o colega chato do trabalho sobrou, nem o mendigo para o qual você, vez ou outra, joga uma moeda de forma complacente.

Tragédia das tragédias, você vai pro facebook e não tem ninguém online. Você abre o Whats App e todo mundo sumiu. Você está só. Diga-me então, qual seria sua motivação para viver?

Responda o que seria de nossa felicidade se não fosse a família que nos aborrece e é parte de nós
mesmos, os amigos com quem na segunda já estamos programando a saída de sábado, os colegas de academia, os colegas de trabalho que, por mais que não sejam amigos íntimos, fazem você parar no meio do dia pra ouvir uma piada, o cachorro que te leva para sair de casa todos os dias. E sim, sim e sim. Os nossos amores. Os companheiros ou companheiras que nos fazem tremer ao som de sua voz, os amores que nos deixam com vontade de rir sem motivo no meio do dia, a alegria de sonhar com um futuro juntos ou de viver um presente de felicidade.

E por mais que nossa referência para amar o outro seja a forma como amamos a nós mesmos (eu como cristã, tento seguir o máximo ensinamento de Cristo – amai o outro como a si mesmo), do que adianta você amar a si mesmo se você não tiver o outro para completar a segunda parte da missão?

Até mesmo o eremita, em seu isolamento, não está só. Ele está com Deus, com a força da natureza, com os animais e plantas aos quais se integra, seja qual for sua crença ou motivo para buscar o isolamento social, certamente ele tem referência de companhia, mesmo que não seja o convencional.

Então, minhas caras e meus caros, eu vou não apenas assinar embaixo do trecho da música de Tom, como ressaltarei um trecho anterior e que dá toda vida e verdade a esta letra: “fundamental é mesmo o amor – é impossível ser feliz sozinho”. Sim, fundamental é mesmo o amor. E amar exige o outro. O amor é algo que é tão imenso que extrapola a nós mesmos. Só quem ama é feliz, e por isso é impossível ser feliz sozinho.

E se você se incomodou com a frase de Tom e achou que ela é machista, reavalie se você não está sendo machista ao dar um sentido machista para uma música que fala de amor.

E agora me deem licença, que eu tenho muito pra amar hoje.

Segue a letra de Wave, de Tom Jobim: